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Kitty Phetla, solista sênior do Ballet Joburg em Soweto, África do Sul (Getty Images)

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Tempo de luta

por Nina Madsen*

O vento faz a curva e me sopra a saia, que seguro ligeiro para não passar por nenhum desnecessário constrangimento. Os cabelos emaranhados me entram na boca e nos olhos, que já ardem pela poeira levantada. Resisto ao impulso de praguejar e reconheço aquela presença forte que não pede passagem, anunciando tempos de luta.

Subo as escadas, passo pelo comitê eleitoral do candidato que não foi eleito. Fechado. Na foto, já sendo arrancada, ele aparece ao lado do outro candidato, que também não foi eleito. Sentada na soleira da porta fechada, uma senhorinha que todos os dias pede uma ajuda pelo amor de deus. A outra, mais jovem, negra também e mãe de um bebê de colo, hoje não estava.

Sigo. Atravesso a rua e vou subindo a galeria. Dia de feira, o rapa não vem. Blusas, bolsas, jaquetas, sapatos, desodorante e perfume, brinquedos, bijuteria, seu nome inscrito no arroz, eletrônicos, livros usados, frutas, açaí, quentinha pro almoço e o que mais se quiser comprar. O engraxate de expressão leve e resignada veste um paletó que é o dobro do seu tamanho e posso sentir a dignidade que habita o gesto de colocá-lo todos os dias, faça o calor que fizer.

Passa por mim uma jovem estudante correndo atrás de um rapaz a quem tenta abordar para convencê-lo a comprar chaveiros para ajudar a “salvar a família”. O rapaz nem olha, segue andando em seu passo acelerado. E ela acompanha e fala sem parar, imbuída daquela absurda missão. Dobro a esquina e me deparo com aquele corpo magro, muito magro, e praticamente nu. A pele amendoada, os cabelos amarelos em desalinho. Os olhos em desalinho, a alma em desalinho. Ela vaga por ali às vezes. E quando não aparece, me pergunto aflita se seguirá viva. Ela percebe meu olhar, ergue o queixo e passa as mãos pelos cabelos. Dignamente.

Entro no prédio – bom dia, dotôra. Me olho no espelho e me vejo tão branquinha, com essa minha cara de bem nascida, que imediatamente troco o não sou dotôra por um sorridente bom dia. Por aqui, dotôra, afinal. Suspiro. Entro no elevador. A subida é longa e lenta e sempre assenta em mim o peso da contradição cotidiana que carrego comigo, existindo dotôra naquele espaço de não-dotôres.

E começo a lida. Que não costuma trazer boas notícias, devo dizer. A vida em uma organização não governamental feminista no Brasil nunca foi exatamente fácil, mas, segundo me contam, já esteve mais farta de possibilidades de avanços. Elas hoje são escassas. Quando aparecem, nos agarramos com força. E enquanto não, a força é a de resistência para conter os absurdos multiplicantes que nosso sistema político tem conseguido produzir.

À beira desse segundo turno, é nesse espaço que situo meu voto. O espaço da (in)dignidade humana, das desigualdades e das contradições. O espaço tão reduzido para os avanços pelos quais lutamos. Não, não é o Brasil dos ovos de ouro. É certo que é um país diferente do que era 12 anos atrás. Melhor, apesar de tudo. Não melhor o suficiente, não melhor como poderia ser ou como gostaríamos que fosse. Mas melhor, com algumas escolhas acertadas que fazem muita diferença. Com outras tantas escolhas equivocadas, é verdade, que também fazem muita diferença e que embolam o meio de campo de um jeito complicado. A escolha desse segundo turno não me resulta difícil, é Dilma, sem dúvida. É uma escolha coerente com o esforço de conter retrocesso atrás de retrocesso. Mas é uma escolha que não me contempla inteiramente. Não responde às mudanças que gostaria de ver anunciadas e assumidas em compromisso.

Pelo menos daqui de onde vejo, muitas das mudanças de que também precisamos não vêm sendo anunciadas nos milionários programas do horário eleitoral gratuito e obrigatório. Por força de um sistema político escangalhado, de um conservadorismo crescente e fortalecido, elas não podem ser propagandeadas em campanha de candidato ou candidata que queira ser eleito. Pra se ganhar, tem que se jogar o jogo. Apertar a mão de quem não se deve. Silenciar o grito de quem não pode se calar. Pra ganhar, temos que perder muito (o que é, para mim, bastante devastador, tenho que admitir).

Meu voto em Dilma nesse domingo é um voto no contraditório que ainda identifico nesse governo. Um voto nos ideais ainda vivos e pulsantes de um partido sim de esquerda, um voto na voz crítica de seus militantes. Um voto nas frestas e nos poros por onde ainda podemos passar. Porque precisamos passar. Acima de tudo, acredito que o que irá decidir os próximos quatro anos no Brasil será a nossa capacidade de seguirmos organizadas, atentas e fortes, resistindo e insistindo. De estarmos prontas, sem medos que nos silenciem, sem amarras que nos impeçam o passo. Porque os ventos não sossegam: é tempo de luta.

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Nina Madsen escreve por gosto e necessidade desde que se lembra. Formada em Letras, caminhou pelos campos da educação até que se fez feminista e socióloga, por azar ou sorte. Integra o colegiado de gestão do Centro Feminista de Estudos e Assessoria, o CFEMEA, e colabora com a Universidade Livre Feminista. Aventura-se pelo avesso do mundo quinzenalmente, na coluna Crônicas do desmundo. *Desmundo aqui faz referência ao romance de Ana Miranda, uma lindeza literária que nos conduz pelas fronteiras entre o real e o onírico.

terça-feira, 21 de outubro de 2014

O macho branco, heterossexual, rico e mandão se manifesta em pelo na corrida presidencial

por Cidinha da Silva*

As habilidades comunicacionais do candidato Aécio Neves constituem areia movediça que traga muitos desavisados. O discurso é escorregadio e generalista, alicerçado no apelo fácil à panaceia do governo de integração nacional, aquele que serviu a Juscelino, a Tancredo, a Sarney, a Collor e a Itamar. O que elimina os conflitos e se apresenta como salvador da pátria, pacificador e unificador.

"Ninguém é dono desse Brasil", ele apregoa, na tentativa de mobilizar o telespectador para suas fileiras. "Precisamos de gente séria, honrada... Eu vou fundar a nova escola brasileira!" Aécio procura frases de efeito e agrega assuntos desconexos - o que o Brasil precisa e o que ele, o salvador da pátria pretende fazer. É o discurso apelativo do macho-dono-da-verdade.

Aécio começa sempre como bom moço, professoral, paladino da justiça, dos bons costumes, da moral, da ética. Veste a mesma roupagem dos bem-nascidos como ele. À medida que o debate esquenta e aparecem as evidências da compra de votos para aprovar a reeleição de FHC, da privataria tucana, do desvio de dinheiro público nas obras do metrô e trens de São Paulo, do nepotismo no governo mineiro, cai a pele de cordeiro e emergem os olhos sagazes e o pelo lustroso de velha raposa.

A todas as acusações, às provas incontestes, devidamente arquivadas, Aécio chama de mentiras e responde simplesmente que, "se as pessoas estão soltas é porque não foram condenadas". Ele omite o quanto e como sua trupe operou para que as pessoas de seu partido, o PSDB, e outras sob sua proteção e mando não fossem investigadas.

"A senhora prevaricou!" Ele grita para a Presidenta Dilma Rousseff, lançando mão de palavra técnica que, no imaginário popular recebeu conotação sexual, sabe-se lá porque cargas d'água. Logo, aquele público pouco escolarizado que o assiste, chamado por FHC de ignorante, pode imaginar, a partir da acusação de Aécio, que a acusada está envolvida em temas sexuais duvidosos. A escolha da palavra não é mera tecnicalidade, ele sabe onde quer chegar e que ponto do eleitorado, principalmente do setor machista, quer atingir.

Aécio mente, des-ca-ra-da-men-te e, assim como acabei de fazer no texto escrito, com o objetivo de chamar a atenção dos leitores que me acompanham, separa as palavras em sílabas, enquanto fala, para chamar a atenção de seus ouvintes. É um recurso que funciona muitas vezes, embora ele o utilize em demasia, tornando-o enfadonho.

Seu discurso está alicerçado em bravatas. Ele assegura, por exemplo, que o PT votou contra a redemocratização do país. Na verdade, refere-se à debandada de Tancredo e seus seguidores para a eleição no Colégio Eleitoral, enquanto o PT se manteve firme, partidário das eleições diretas. Lembro-me do último comício pelas Diretas em MG, na praça Rio Branco (praça da rodoviária) em Belo Horizonte, quando, para frustração geral da audiência, lá, no último comício pelas Diretas, ouvimos Tancredo anunciar a inexorabilidade da eleição no Colégio Eleitoral. Depois, foi só acompanhar pelos jornais a campanha e articulação do PMDB pela eleição de Tancredo.

Aécio mente ao dizer que Lula e Dilma foram contra a construção de escolas técnicas no Brasil, é só observar os números: no governo Sarney foram construídas treze escolas técnicas; no governo Collor, três; no governo Itamar, vinte e sete; no governo FHC, onze; no governo Lula (em 8 anos), 355, isso mesmo, trezentas e cinquenta e cinco; por fim, no governo Dilma, 208, isso mesmo, duzentas e oito. Mas, o netinho do vovô acha que ao manipular a palavra pode fazer o mesmo com os dados e com a opinião pública. Ledo engano! Rude ilusão.

Dois assuntos o tiram do sério, além dos questionamentos a seus desmandos administrativos e política de compadrio, as drogas (lícitas e ilícitas) e a boataria de que é usuário, bem como os aeroportos construídos com dinheiro público em fazendas de familiares seus, localizadas em pequenas cidades do interior de Minas e suspeitos (os aeroportos) de fazerem parte de uma rota internacional de tráfico de drogas. O transtorno obsessivo arrebenta seus nervos, ferida, a velha raposa ataca. Curiosa é a forma do ataque-defesa: "a senhora (dirigindo-se à Presidenta Dilma) está desrespeitando Minas Gerais com as mentiras acharcadas nas redes anonimamente. A senhora tem permitido ao Brasil ver o mais baixo nível de campanha presidencial." Do que falávamos mesmo? Conversávamos sobre o uso de drogas lícitas e ilícitas, sobre a construção de aeroportos privados com dinheiro público levada a cabo por um indivíduo, por acaso, mineiro, candidato à Presidência da República! O que isso tem a ver com Minas Gerais? Por que devemos nos submeter ao hábito despótico de um adolescente mimado de substituir parte, ou seja, um mineiro no exercício da função pública, acusado de corrupção, nepotismo, má administração, desmandos e censura à imprensa, entre outras acusações, pelo todo, o estado de Minas Gerais?

Aecim não responde, ele está acima da necessidade de respostas e justificativas, seu todo-poder não comporta explicações. Ele continua a performance arrogante: "quando vou à sua cidade, Porto Alegre, quando vou à minha Belo Horizonte...", determina a cidade de Dilma no sul do país, buscando afastá-la do Curral Del Rey, a Belo Horizonte de nascimento de Dilma. É sabido que a Presidenta saiu de lá para viver na clandestinidade, perseguida pela ditadura civil-militar que Aécio chama significativamente de "revolução", como de resto, toda a direita. É Aécio, o mineiro-mor, o mais mineiro dos mineiros, o dono da sesmaria, que se arvora a outorgar (ou não) o atestado de pertencimento político ou afetivo a Minas Gerais. Mais adequado seria que Aécio dissesse "o meu Rio de Janeiro", cidade-base de onde governava Minas.

Ele não desiste, é teimoso, quer vencer a interlocutora e a audiência pelo cansaço, pela repetição de uma ideia à exaustão: "vamos deixar os mineiros em paz, candidata (referindo-se às admoestações que Dilma impinge a ele, um reles mineiro, que se acha "o mineiro"). Os mineiros sabem o que fazem. Vamos discutir o Brasil, Candidata"... Minas Gerais e seus políticos, como rebentos e netos da política de cabresto estariam acima do Brasil e de qualquer inquirição. Aecim inventou o planeta-Minas, ou não, talvez ele trate apenas de galvanizar o tal sentimento de mineiridade, conclamando os cidadãos (já que ele só enxerga as mulheres de maneira subalternizada) a posturas xenófobas contra Dilma, uma "de dentro" que ele, o todo-poderoso, alcunha como alguém "de fora". Incansável no objetivo de convencer os ouvintes de uma ideia (característica fundamental dos que dominam a oratória), Aecim lança mão da ironia mordaz e pode desconsertar um interlocutor que não goze do mesmo jogo de cintura: "quem ligar a televisão desavisadamente vai achar que a senhora quer disputar o governo de Minas ou a prefeitura de Belo Horizonte. Talvez a senhora queira, desempregada a partir de primeiro de janeiro, ser candidata ao governo de Minas, aí a senhora terá tempo para discutir Minas Gerais." Enquanto isso, deixe meu curral em paz.

Quando confrontado com função de censora da imprensa mineira atribuída à sua irmã, durante todo o governo, pressionando jornalistas, jornais e revistas, para que não criticassem o governador, tampouco expusessem os bastidores dos negócios de governo, Aécio utiliza outras frases de efeito para tentar jogar a audiência contra sua oponente: " a senhora está mentindo para o Brasil! Minha irmã Andréa, de quem tenho muito orgulho (vejam como ele é um maninho amoroso), assumiu o cargo de voluntariado, cargo que as esposas dos governantes geralmente ocupam." É uma frase carregada de sentidos. Tem-se a informação de domínio público que Aécio vivia agitada vida de solteiro, que, durante a posse, como governador, foi acompanhado pela filha, então adolescente. Por que? Porque exercia o sagrado direito concedido aos homens heterossexuais de viver sua sexualidade em plenitude com diferentes mulheres, mas, na hora das coisas sérias, convoque-se a filha, convoque-se a família, o lado A dos "homens de bem." Não esqueçamos do componente de comiseração que um homem solteiro provoca, pois, coitadinho, não tem uma mulher para cuidar dele. Sorte de Aécio que tem a irmã, uma super cuidadora. Mas, o mais capcioso da frase explicativa dirigida à Presidenta é deixar subentendido que: 1 - função de mulher é ser primeira dama; 2 - a irmã dele exerce uma função típica de mulher, ao contrário da Presidenta que exerce uma função destinada aos homens, destinada a Aécios.

Em tom laudatório, professoral e pretensamente definitivo, Aecim se recompõe: "vamos tentar novamente falar de futuro em homenagem e respeito ao telespectador que nos ouve agora. Vamos elevar o nível do debate, candidata". Então, na primeira de três vezes que se seguirão, Aecim dirige-se aos motoristas de automóveis que provavelmente estão ouvindo o debate presidencial que ocorre às seis da tarde pelo rádio do carro. Para ele, inexiste a maioria dos trabalhadores brasileiros e da população que naquele momento está apertada no transporte público, nos trens, ônibus, metrôs. Essas pessoas, nos governos Lula e Dilma puderam comprar celulares de última geração, tablets, smartphones e usam esses aparelhos enquanto se deslocam para casa e para o trabalho. Mas, ele não as menciona porque elas não existem para o PSDB, são apenas votos, logo, não são lembradas, tampouco citadas de maneira natural, como os usuários de carros, helicópteros, jatinhos e aeroportos privados.

Outra vez, perguntado sobre a Lei Seca criada em 2012 para coibir a circulação de motoristas embriagados ou sob efeito de drogas, Aécio se desequilibra. Para quem não sabe, ele foi parado em blitz da Lei Seca no Rio de Janeiro e recusou-se a fazer o teste do bafômetro. A resposta dada tenta inverter o vetor da acusação: "candidata, tenha a coragem de fazer a pergunta direta, a senhora traz para esse debate, talvez pelo desespero, um tema que tem que ser colocado com absoluta clareza..." Só no planeta de Aécio, provavelmente, alguém que esteja "desesperado" tem racionalidade para propor temas que devem "ser discutidos com absoluta clareza." Esse tipo de prática é, ao contrário, de quem tem lucidez, de quem pensa e não tem os neurônios comprometidos por essa ou aquela substância química. Aecim continua: "eu tive um episódio em que parei numa Lei Seca porque minha carteira estava vencida e ali, naquele momento, inadvertidamente não fiz o exame, me desculpei, me arrependi disso. A senhora não se arrepende de nada que fez em seu governo, diz enfático, é importante que nós olhemos pra frente, vamos falar do Brasil, vamos falar de coisas sérias, não é possível que a senhora abaixe tanto a campanha. Quando a senhora ofende a mim e a minha família, ofende todos os brasileiros que querem mudança."

Aécio tenta conquistar a empatia do eleitor fazendo-se de frágil e flexível na esfera pessoal, vejam, ele erra, é humano, pede desculpas, ainda mais, arrepende-se dos erros cometidos. O arrependimento é artifício cristão pescado para evidenciar suposta pequeneza humana e mobilizar os corações fraternos e solidários. E Dilma, ao contrário, seria irascível, implacável, características masculinas detidas por ela, mulher fora do lugar que ocupa um lugar de homem, lugar de Aécio. Ela não se arrepende de nada feito em seu governo. Mas, desde quando a arena política é lugar religioso de arrependimento? O campo da ação política é espaço de compromissos e responsabilidades, de assumir acertos e erros. Falávamos da vida pessoal de Aécio, de suas infrações de trânsito, de sua negativa para fazer o teste do bafômetro e, em resposta, ele saca da cartola uma associação religiosa de não-arrependimento por supostos erros no jeito de governar da adversária. Depois da estratégia deliberada de confundir o eleitor, o candidato pede que falem de "coisas sérias." É provável que ele ache que flagrá-lo numa blitz da Lei Seca não é coisa séria, pois ele pode tudo como Thor Batista e outros meninos mimados país afora.

Por fim, Aecim recorta e descontextualiza a fala de sua interlocutora. Ela não acredita que haja alguém acima da corrupção e acredita que todas as pessoas possam cometer corrupção. As frases são suficientemente explicativas, em síntese, ninguém está acima da lei, todas as pessoas que exercem função pública são passíveis de cometer erros e, responsáveis por eles, devem ser investigadas, julgadas e punidas, caso seja comprovada culpa. Ele sabe disso, mas manipula as palavras e tenta ludibriar o público com uma tirada generosa (sic): "eu vou dar à senhora a oportunidade de desculpar-se com os brasileiros por aquelas afirmações." O rapaz do Rio, digo, de Minas, quer vender a imagem de magnânimo, daquele que oferece à sua opositora a chance de ser humilde, de desculpar-se. Mas, desculpar-se pelo que, mesmo? Aécio dá a entender que as pessoas que escrutinam sua vida particular, descobrem e publicam seus podres estão invadindo fronteiras de um castelo inexpugnável. Ele acha que está acima da corrupção, tem caráter inquebrantável e honradez que só um Aécio pode ter.

Está errado, menino mimado! O feminismo nos ensinou que o pessoal é político. Que os homens "de bem”, como o professor uspiano que no início dos anos 80 espancava a mulher em casa e depois seguia lépido para a filosofança na maior universidade da América Latina, como Dado Dolabella, como políticos diversos, não podem agredir mulheres, torturá-las e matá-las, como fez Pimenta Neves, como se isso fosse normal e aceitável, porque são homens brancos e detentores de prestígio social, seja pelo dinheiro, pela intelectualidade ou pela exposição na mídia (produção da mídia), para além da brancura. O feminismo e a coragem das mulheres que denunciaram nos ensinaram isso.

Algum assessor precisa avisar a Aécio que, caso tivesse tido comportamento decente diante do mal estar de Dilma, pós debate no SBT, ao invés de ironizar sua fragilidade física temporária, teria conquistado votos e boa vontade de indecisos para sua candidatura. O problema é que essa performance ele não treinou, tampouco tem elementos para executá-la, buscados de algum reservatório perdido de valores humanos. Ele é apenas uma velha raposa, pronta a destroçar a presa se ela titubeia.

Mas, nós, mulheres, sabemos o lugar onde homens como Aécio querem nos colocar ao nos dar ordens, ao nos chamar de levianas, ao empinar o dedo mandão enquanto falam conosco. O machismo, o racismo e a homofobia apoiam Aécio, estão a seu lado: Olavo de Carvalho, Malafaia, Lobão, Feliciano, Alexandre Frota, Dado Dolabella, Bolsonaro, Pastor Everaldo, Fidélix, Carlinhos Cachoeira, Aloysio Nunes, abençoados por Marina e estranhamente referendados por Luís Mott. Às mulheres, à exceção de Sandra de Sá, ele não engana. Ou não, já que “vale tudo, só não vale dançar homem com homem, nem mulher com mulher, o resto, tudo vale!” Contudo, em que pesem os mistérios humanos, as contradições, oportunismos, síndrome do escravizado e idiossincrasias, perdeu, playboy! Perdeu!

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escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna semanal Dublê de Ogum.

domingo, 19 de outubro de 2014

Clippagem amiga do NR para o debate eleitoral

por Thiago Domenici

Faço aqui uma seleção de textos que considero interessantes para o debate em torno das eleições. São avaliações de pessoas de vários espectros ideológicos e políticos, sobretudo, mais à esquerda, por força das características desse blog e desse editor. O que está aí considero poder ajudar a clarear as ideias sobre o cenário conjuntural do primeiro e segundo turno das eleições. Sobretudo agora, nesse clima de polarização PT-PSDB onde vemos uma avalanche de informações.
ARTIGOS
MATÉRIAS | NOTÍCIAS | ENTREVISTAS
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Thiago Domenici, jornalista, editor e coordenador do NR.

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

O que vem de dentro

por Júnia Puglia   ilustração Fernando Vianna*

Quando eu nasci, constatou-se que eu era menina e branca. Com o passar do tempo, perceberam que eu era canhota. Fui solteira até os vinte e oito anos, e desde então sou casada. Estes são alguns dos dados básicos que me definem e me situam.

As definições, e com elas os rótulos, nos acompanham a vida toda. A maior parte delas se refere a ser “uma coisa ou outra”, a ocupar um lugar numa divisão binária, entre duas posições pré-determinadas, entendidas como opostas e mutuamente exclusivas. Estas identificações, quase sempre prontas e aplicadas com toda naturalidade, organizam, simplificam e supostamente facilitam a vida e a nossa relação com o mundo e com as pessoas, pois nos dispensam de pensar. Facilitam coisa nenhuma.

Anos atrás, assisti a uma palestra que me empurrou para a desmontagem dessa casinha tão encaixadinha dos lugares e das identidades, que já vinha bem balançada. Lohana Berkins, travesti argentina, ativista dos direitos equitativos em seu país, participava de uma série de eventos na Universidade Columbia, em Nova York, onde se abordava a necessidade de questionar e combater os fundamentalismos – políticos, religiosos e demais. A certa altura de sua inesquecível conferência, Lohana mencionou o fato de ser frequentemente cobrada sobre se definir como homem (pela genitália masculina intocada) ou mulher (pela identidade que assumiu). Sua resposta me caiu como um raio: “não me defino como mulher nem como homem; eu sou, e quero ser, o que sou”. De maneira inequívoca, tomou para si a tarefa de ser, atropelando as categorias pré-determinadas. Em outras palavras: por que, e quem disse que, todos temos que assumir aquilo que recebemos nas caixinhas que nos foram atribuídas?

Quanto mais eu observo e me informo a respeito, mais me convenço de que até agora mal levantamos a ponta do edredon que encobre a sexualidade humana. Ela é infinitamente maior e mais complexa do que o papel reprodutivo – como tanta gente já percebeu – e vai muito além do que está escrito no corpo. O binarismo, que reinou por milênios, está começando a perder o sentido. Sabe por que?

Porque estamos caminhando no rumo de entender muito melhor as inumeráveis nuanças que a vida pode adquirir, sobre as quais sabemos tão pouco. Estamos percebendo a impossibilidade de controlar o que cada pessoa é, bem como a força que tem o que vem de dentro, em contraposição ao que vem pronto de fora. Como somos despreparados e desentendidos do assunto, aquilo que escapa do binário nos desespera, transformando a diferença em drama e, frequentemente, tragédia. O mais fácil e rápido é gritar, espernear, brandir princípios morais e religiosos, exigindo que todo mundo deixe de frescura, de complicar e embaralhar o jogo, e se encaixe de uma vez.

E não estou falando só de ser homem ou mulher, heterossexual ou homossexual. Até agora, esteve mais ou menos claro o que era ser branco ou negro, certo ou errado, pobre ou rico, nacional ou estrangeiro, nativa ou migrante, de esquerda ou de direita, melhor ou pior, culto ou ignorante, solteira ou casada, cristã ou muçulmano ou budista ou do candomblé, com valores atribuídos a cada termo. Quando nos demos conta, todos esses limites se borravam, abrindo muitas outras possibilidades.

Não é nada fácil entender o que se passa, porque é muito complicado mesmo. Mas, pensando bem, talvez nem seja preciso sofrer por causa disto, pois acho que existe um caminho que sempre dá certo: o da boa e velha dupla solidariedade e empatia, aquela capacidade de olhar para quem está ao nosso lado e considerar que, partindo da condição humana inerente a todos nós, todas as diferenças são possíveis, pois, sejam elas quais forem, não passaremos nunca de ser, todos, todas, o arco-íris inteiro, singelamente humanos.

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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Carta Aberta ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso

Prezado ex-presidente Fernando Henrique Cardoso,

Como catarinense e, portanto, natural de um estado no qual a vitória de seu candidato foi tão marcante, me senti no direito de responder à sua entrevista pós-primeiro turno.

Como sociólogo o senhor deveria saber que um argumento, para ser considerado válido, não pode simplesmente atacar quem o defende. Quando o senhor ataca, portanto, de "ignorantes" ou "mal-informados" os que defendem o projeto petista de país, o que o senhor produz é uma falácia. O senhor certamente não faltou a essas aulas de filosofia, mais precisamente de lógica, não é?

Como político, todavia, sua entrevista reforça preconceitos, uma "excêntrica" xenofobia interna, já que o "xenos" não é estrangeiro, mas bem brasileiro, pobre, em especial nordestino. Não sei de qual teoria sociológica ou antropológica o senhor se serve para tais afirmações, mas ousaria dizer que não possuem reconhecimento científico.

Mas, como "social-democrata", me espanta ainda mais. Primeiro, porque o senhor, além de esquecer qualquer iniciativa de um estado de bem-estar social em seus oito anos neoliberais de governo, parece ter esquecido, também, o princípio básico da democracia, aquela que os Gregos nos ensinaram. Cada cidadão um voto, lembra? Não importa seu ofício, sua idade, sua origem e, diríamos hoje, gênero, raça, orientação sexual etc. Por que, então, o voto de um pobre é menos voto do que de um rico? Qual foi o tratado sobre democracia que o senhor leu e que não li, que garante essa distinção, porque eu desconheço. A democracia, "nobre" ex-presidente, é o regime do "qualquer um", lembra? Dos escolhidos à sorte pelos Gregos, já que não havia diferença entre "qualquer" Grego. Isonomia, lembra? Nome "chique", né? Certamente os Constantinos, Mervais e Azevedos que o veneram conhecem esse termo.

É, infelizmente o senhor esqueceu, ou finge esquecer para dar conta de municiar com falácias esse sentimento de rancor e de ódio que se dissemina, infelizmente, em mentes não tão brilhantes por esse país. Esses "ignorantes", que não moram nos grotões, mas bem perto de vossa senhoria, e que, infelizmente, não tiveram as mesmas oportunidades de estudo que o senhor, não sabem discernir bem um argumento de uma falácia, mas o senhor sabe, o que lhe torna mais responsável, como ensinou o nosso velho amigo Sócrates.

Da próxima vez, ex-presidente, cuide melhor de seu conceito de "democracia". Nós que votamos em Dilma sabemos bem o que ele significa. Afinal, foi um "qualquer um" que iniciou esse processo de diminuição da desigualdade social, de extinção da fome e da miséria extrema, de pleno emprego. Um "qualquer um" que fez mais universidades e escolas técnicas que "qualquer outro" presidente. Nós sabemos bem o nome desse "qualquer um" e de sua sucessora. O senhor quer que eu lhe lembre? Foi um igual à maioria dos brasileiros, não um doutor, que nos aproximou mais do verdadeiro sentido de democracia, do sentido de "povo" aí presente. Não essa que vocês tentam oligarquizar, separando os "sábios" dos "ignorantes". Sabe, ex-presidente, essa expropriação da democracia é uma estratégia política já manjada, desde os Gregos. Talvez a "intelligentsia" que o acompanha não saiba. Seria mesmo esperar muito de quem pensa a democracia a partir de Veja, Folha, Globo e seus similares, não é?

Mas pode deixar. Nós, os "burros" e "mal-informados" eleitores de Dilma podemos relembrá-los, sempre. Nós continuaremos por aqui. A "raça" do PT continuará, mesmo que o instinto totalitário de muitos nos queiram ver eliminados. Nós lutamos pela democracia e a respeitamos. Por isso a vitória de seu candidato, se vier a acontecer, não será objeto de ódio e preconceito. Aceitaremos. Afinal, cada voto, vindo de onde vier e proferido por quem for, assim o quis. E a vontade do povo é soberana. "Ignorante" ou "sábia", pouco importa à democracia.

Cordialmente,

Vinicius B. Vicenzi (Especial para o Nota de Rodapé)
Doutorando em Filosofia na Universidade do Porto (Portugal).
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