.

.
30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)

terça-feira, 1 de setembro de 2015

O dia em que fizemos nevar na cabeça do governador (Parte Final)


por Fernando Evangelista*

... E como ia dizendo, essa história de recolher giz, triturar tudo e espalhar pelas pás do ventilador de teto da nossa sala de aula, bem no dia da visita do governador do Estado, tinha tudo para dar errado.

Luciano teve a ideia e procurou dois cúmplices, Cristiano e eu. O plano foi traçado na escadaria do colégio, numa segunda-feira de novembro de 1988.

– Vai ser divertido.

– Acho arriscado.

– Que nada, é moleza.

Naquele ano, estudantes do colégio foram campeões brasileiros de xadrez e fizeram bonito na Olimpíada de matemática, conquistando uma medalha de ouro e outra de bronze.

Três dos integrantes da equipe de xadrez eram da nossa turma e por isso o governador passou na nossa sala, antes do evento oficial, para uma “saudação mais informal”.

A trupe oficial chegou, a regente deu as boas-vindas, o governador deu os parabéns para os “pequenos gênios do xadrez”, falou ainda sobre o trabalho em equipe, lealdade, honra e outras coisas bonitas e todo mundo bateu palmas e tudo bem ia bem até que alguém reclamou do calor.

– Liga o ventilador – ordenou a regente.

A partir daí, na minha memória, tudo acontece como se eu estivesse assistindo a um filme, daqueles da Sessão de Gala, quando existia Sessão de Gala, um típico filme B, exagerado nos closes e nas emoções.

Neste filme, o ventilador de teto aparece em primeiro plano, espalhando pó para todos os lados, lentamente. Corta. Closes em sequência dos olhos arregalados da madre superiora, da regente, dos alunos, das alunas e também da professora, que ainda não tinha aparecido nessa história. O governador permanece impassível, quase indiferente.

A câmera foca os alunos, de frente. Eu sou aquele lá no fundo da sala, à esquerda, pertinho da porta. Tenho medo desses homens engravatados, tenho medo da madre superiora, medo da regente e da neve falsa que continua a cair, devagar e sempre.

As meninas estão vestidas de saia bordô, camiseta bordô, casaquinho bordô, meias bordô e sapatos bordô. Os meninos estão também, de cima a baixo, de bordô - e tudo isso vai ficando branco, inclusive o hábito preto da madre, o cabelo da regente, os ternos dos assistentes do governador e o próprio governador parece, agora, bastante branco.

Não há trilha, só alguns gritinhos de espantos e tosses. Muitas tosses.

Luciano, mentor de tudo aquilo, está encolhido, quase desaparecendo, na pontinha da cadeira, queixo encostado à mesa. Cristiano, de cabeça baixa, parece petrificado. Me vejo outra vez: pálido, sem ar, arrependido. Por que me meti nisso?

Por respeito ao Luciano, provavelmente. O cara é o craque do time e, como todo craque, há meninas querendo namorar com ele. No fundo, todas as estripulias que a gente fazia se resumiam a três objetivos: chamar a atenção dos pais, afrontar professores e impressionar as meninas, principalmente impressionar as meninas. Aí a gente cresce, amadurece e... continua com os mesmos objetivos.

A neve continua a cair. Os homens do governador estão perfilados em frente à turma. Percebo que um deles me olha fixamente. É um olhar de acusação, de cão farejador, olhar de ameaça. Como ele poderia saber? Tento disfarçar, olho para os lados, mas me imagino com uma placa luminosa grudada na testa, dessas que piscam em vermelho à beira da estrada, em frente a hotéis sem categoria: Culpado!

Aquele homem sabia. Como ele poderia saber?

– Não imaginava que fosse ver neve hoje – disse o governador, quebrando o gelo, fingindo descontração.

Mas o governador é um homem sério, os homens do governador são sérios, a regente é séria e a madre superiora seriíssima. A turma, batizada-catequisada-quase-crismada, 100% católica, amedrontada por pecados e punições, também é séria.

Aquilo é sério pra cacete. É o suficiente para um processo de expulsão, no caso uma tripla expulsão.

– Senhores, foi um prazer – disse o governador, seguindo em direção à porta. Seus homens o acompanham, em fila.

Sentado na minha cadeira, lá no fundo, perto da porta, observo a marcha oficial e torço para que aquele homem-cão-farejador passe logo por mim e desapareça. Ele, porém, mantem o olhar e caminha na minha direção. Finalmente, ficamos frente a frente.

É muito mais alto do que imaginava. Ele me olha de cima a baixo e, sem mudar a expressão, sem levantar a voz, aperta o indicador de sua mão direita contra o meu peito magricelo e diz, marcando bem as quatro sílabas:

– De-sa-ca-to.

Que diabo significa aquilo?

O homem segue, cabeça erguida, mas a palavra gruda em mim. Ainda hoje, nas situações mais banais, a cena me vem à memória: o homem, o dedo, a acusação: “de-sa-ca-to”.

Apesar das investigações, pressões e centenas de ameaças, nunca ninguém descobriu quem tinha feito aquilo. E sabe por quê? Por uma razão bem simples e já citada: para impressionar as meninas, os mancebos (era assim que nos chamavam!) começarama reivindicar a autoria da ação.

Em menos de meia-hora, havia uns 40 culpados que, de peito aberto, contavam orgulhosos como tinha feito nevar na cabeça do governador, tudo nos mínimos detalhes.

Vendo aquela mentirada correndo solta, Luciano e Cristiano ficaram quietos. Eu, não, não gosto de mentira. E aí, para quem quisesse ouvir, confessei minha participação naquele ato subversivo. Eu, sim, eu mesmo, eu, mancebo desengonçado e rebelde, era um dos autores daquele feito.

Ninguém acreditou em mim.

* * * * * *

Fernando Evangelista é jornalista, mantém a coluna semanal Desacato.

terça-feira, 18 de agosto de 2015

O dia em que fizemos nevar na cabeça do governador (Parte 1)

por Fernando Evangelista*

A ideia foi do Luciano:

– Vamos pegar giz e triturar.

– Giz? Pra quê?

Ele explicou. Cristiano achou a coisa muito arriscada, eu também achei, mas a gente topou, a gente sempre topava as maluquices do Luciano. Ele tinha moral, era o artilheiro do nosso time.

Na escola, com aquele esquema de notas e competições, se aprende que para ser respeitado é preciso ser “o mais” em alguma coisa: ou o mais inteligente ou o mais valente ou o mais bonito ou o mais cdf ou o mais engraçado e, num colégio de freiras, também vale ser o mais católico. Luciano era o mais habilidoso – fazia gols em todas as partidas e de todos os jeitos.

Estávamos na escadaria do colégio. Era uma segunda-feira de novembro de 1988, por volta do meio-dia. O plano seria executado ainda naquela semana e coincidiria com a visita, em carne e osso, do excelentíssimo governador do Estado.

–  Combinado?

Sim, claro, vamos nessa. E foi cada um para a sua casa, cabeça erguida e olhar atento, imitando a pose destemida dos fora da lei que a gente via no cinema.

Naquele ano, a equipe de xadrez do colégio sagrou-se campeã nacional nos jogos de Pernambuco, título inédito, que rendeu prêmios e viagens para os vencedores. Três desses jogadores estudavam na nossa sala; três nerds inteligentes e antipáticos que andavam sempre juntos e não falavam com mais ninguém. E, pela primeira vez, a Olimpíada Brasileira de Matemática fora conquistada por uma catarinense, ela também estudante do colégio, só que do período vespertino.

Como prova de reconhecimento oficial do Estado, o governador iria cumprimentar, pessoalmente, os gênios do xadrez e a menina prodígio da matemática. As homenagens ficaram agendadas para a sexta-feira, no período da manhã, no ginásio principal da escola.

Antes, porém, a pedido do próprio governador, ele passaria na nossa sala para uma saudação informal. O plano foi pensado para aquela sexta, mas começaria na manhã de quarta, bem cedo, antes do sinal.

Corredores ainda vazios, com duas sacolas de feira, nós três recolhemos giz em todas as salas do primeiro andar, em todas as salas do segundo e em todas as salas do terceiro. Exceto o encontro inesperado com a Irmã Veronice, na curva do corredor, correu tudo bem.

– O que é isso? – ela quis saber, olhando para as nossas sacolas.

– Maçãs – respondi. – A senhora quer uma?

Ela não quis.

Fomos embora antes das aulas começarem. Passamos a manhã triturando giz no quarto do Cristiano, num edifício rosa de três andares, pertinho do colégio. Era giz que não acabava mais e aquilo desencadeou em nós espirros em série. Achamos engraçado, a gente achava tudo engraçado naquela época.

Na quinta-feira, colocamos o pó dentro de sacolas plásticas de supermercado e essas a gente socou dentro das nossas mochilas, que ficaram redondas e pesadas. O plano foi concluído no fim da manhã, ao meio-dia.

Luciano improvisou uma escada, com mesa e duas cadeiras, no meio da nossa sala de aula. Cristiano subiu e foi colocando montanhas de giz triturado nas hélices do ventilador. Eu fiquei na porta, à espreita de algum inimigo. Não apareceu ninguém, nem a Irmã Veronice.

No dia D, sexta-feira, depois de duas aulas seguidas de matemática, a Madre Superiora e a regente apareceram para dar a notícia:

–  O governador chegou.

Descobri naquele instante que governador nunca anda sozinho, está sempre rodeado de assistentes – um segura a pasta, outro segura o discurso, um controla o tempo, outro controla a multidão, quando há multidão, e assim por diante. Os homens do governador, de terno-gravata-e-sapatos-encerados, entraram porta adentro – e de repente a sala ficou apinhada de sobrenomes importantes.

Com fama de autoritário e antipático, o governador chegou feliz, distribuindo cumprimentos e sorrisos, como nos bons tempos da campanha eleitoral. – Fiz questão de vir aqui, pessoalmente, para dar os parabéns à equipe de xadrez, vencedora do prêmio nacional.

Aplausos orgulhosos da turma. Os três alunos se levantaram e, orientados pela Madre Superiora, agradeceram. Mais aplausos. O governador, ex-aluno do colégio, falou rapidamente sobre honra e outras coisas bonitas. E já estava quase indo embora, quando alguém reclamou do calor.

– Liga o ventilador – ordenou a regente.

Nunca, até então, eu tinha ficado paralisado de medo. E quando digo paralisado não é força de expressão, não. Fui dominado por uma terrível sensação de arrependimento. Luciano escorregou a bunda pela cadeira, tentando sumir ou se desintegrar. Cristiano permaneceu de cabeça baixa, fingindo ler alguma coisa no caderno.

“Vai dar merda”, foi a única coisa que pensei. E deu.

(Continua na terça-feira que vem).

* * * * * *

Fernando Evangelista, jornalista, mantém a coluna semanal Desacato

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Só por hoje

por Celso Vicenzi*

“Só por hoje” é um princípio seguido à risca por alcoólicos anônimos, com resultados comprovados. Mas pode ser um mantra, também, contra qualquer tipo de vício. A ideia, simples, é dar um passo de cada vez. A cada 24 horas, uma batalha vencida. Os movimentos conhecidos por AAA – Associação dos Alcoólicos Anônimos –, surgidos na década de 30, nos Estados Unidos, e que se espalharam pelo mundo, praticam o lema ainda nos dias atuais, com bons resultados.

Sem abdicar dos antigos, novos vícios têm sido incorporados à sociedade, como a compulsão pelo uso de aparelhos celulares. Há outros igualmente perniciosos: o vício por consumir informação de péssima qualidade, inclusive nas redes sociais, e o vício de entreter-se com programas de rádio e tevê que atrofiam a inteligência e a capacidade de análise. Incluem-se nesse rol comentaristas famosos de diferentes mídias.

Talvez, justamente por isso, as redes sociais estejam entulhadas de diálogos e debates de baixíssimo nível, em que os xingamentos e a desinformação sejam moeda corrente. E que, não raro, descambam para um superávit de ódio e um déficit de solidariedade. Graças às redes sociais, descobrimos que aquele cidadão (vale também para o sexo feminino) que parece tão fino e educado, cheio de gentilezas e que aparenta ser adepto de causas nobres, na verdade esconde um troglodita, machista, reacionário, egoísta, homofóbico, desinformado e mal-educado. Não necessariamente nessa ordem.

Por isso, para pôr um pouco de água na fervura e, quem sabe, serenar os ânimos, pensei em resgatar o lema que tem mantido longe do vício tantas pessoas que, no passado, estiveram às portas do inferno. Se não nos levar ao céu, pelo menos poderemos viver e dialogar mais civilizadamente.

Então...

Só por hoje não direi que a política e todos os políticos não prestam e procurarei estudar um pouco mais, sobretudo ciência política, história e sociologia, para tentar entender as engrenagens do poder e, quem sabe, a partir daí, contribuir decisivamente para a criação de políticas públicas que visem ao bem comum, ao bem-estar coletivo.

Só por hoje não xingarei, não usarei palavrões, nem tentarei ganhar no grito um debate que só tem sentido quando houver argumentos e informações fidedignas e sensatas sobre aquilo que se procura demonstrar. Ou seja, vale a pena fazer um esforço para diversificar as fontes e informar-se melhor sobre o que acontece no país e no mundo.

Só por hoje não direi que “é tudo culpa da Dilma”, seja lá o que aconteça no país. Afinal, vivemos numa República Federativa e as principais instâncias de poder são o Executivo, o Legislativo e o Judiciário, que, por sua vez, operam nas esferas federal, estadual e municipal. Farei um esforço para lembrar que a responsabilidade precisa ser dividida no mínimo com mais 27 governadores, 5.570 prefeitos, 81 senadores, 513 deputados federais, 1.059 deputados estaduais, cerca de 60 mil vereadores e 20 mil juízes espalhados por todo o país. Sem falar em milhares de importantes entidades representativas dos mais diversos setores da sociedade.

Só por hoje não direi que esquerda e direita são “tudo a mesma coisa”. Para esclarecer melhor tudo aquilo que não compreendo muito bem, melhor começar por ler o livro clássico de Norberto Bobbio sobre o tema. Há outros igualmente bons, é só procurar.

Só por hoje não direi que a política e todos os políticos não prestam e procurarei estudar um pouco mais, sobretudo ciência política, história e sociologia, para tentar entender as engrenagens do poder e, quem sabe, a partir daí, contribuir decisivamente para a criação de políticas públicas que visem o bem comum, o bem-estar coletivo.

Só por hoje não direi que a política de cotas (políticas afirmativas) é uma injustiça e vai prejudicar a qualidade do ensino. Primeiro, comprometo-me a ler com mais atenção a história dos negros no Brasil e, na sequência, divulgarei as pesquisas que demonstram que a maioria daqueles que entraram por cotas nas universidades brasileiras tem um desempenho igual ou superior aos que acessaram o ensino superior por outros meios. Só por hoje não vou converter-me à ideia de que problemas de segurança pública devem ser resolvidos à bala. Consultarei a vasta bibliografia sobre o assunto que desmente, categoricamente, a ideia de que a ênfase na repressão e a criação e manutenção de um sistema de segurança baseado na discriminação possam pôr um fim à violência.

Só por hoje evitarei o uso de falas e comportamentos machistas, para que a relação entre duas ou mais pessoas seja sempre baseada na igualdade, na dignidade e no respeito às diferenças. Igualmente repudiarei os estereótipos machistas da publicidade e me posicionarei contra atitudes cotidianas que reforçam esses hábitos.

Só por hoje não reclamarei do engarrafamento no trânsito se estiver sentado em um automóvel. Afinal, concluirei, é a minha presença ali, juntamente com milhares de outros condutores de automóveis, a razão de um trânsito que não anda. Aproveitarei o tráfego parado para refletir sobre a importância de apoiar a construção de ciclovias e dar prioridade ao transporte público de qualidade.

Só por hoje não vou ridicularizar e hostilizar pessoas com preferências sexuais diferentes da minha. Tentarei compreender que o desejo sexual independe de gênero e que não há nada errado nisso, ao contrário da homofobia. Se persistirem os sintomas homofóbicos, procurarei ajuda. Talvez Freud explique.

Só por hoje buscarei novas formas de me manter informado, diferente das fontes habituais, para que não me torne refém de interesses particulares, não raro economicistas, que favorecem grupos minoritários, e que, no entanto, se apresentam como porta-vozes de interesses justos e igualitários.

Só por hoje não acreditarei que recentes investigações sobre ilícitos sejam parâmetro para afirmar que “nunca houve tanta corrupção no país”, sem questionar primeiro por que antes essas investigações eram tão raras e por que, ainda hoje, o mesmo dinheiro que foi distribuído aos principais partidos, por diferentes setores empresariais, é considerado ilegal para uns e absolutamente honesto e sem problema para outros?

Só por hoje entenderei que, num estado laico, como é o caso do Brasil, política e religião não se misturam e credos particulares não podem ser aceitos como objeto de leis e normas para o conjunto da sociedade.

Só por hoje, cada vez que começar uma reclamação contra os altos impostos cobrados pelo governo federal, tentarei lembrar-me de que alguns dos principais impostos que me afetam diretamente, como o ICMS, o IPVA e o ISS são impostos estaduais e que o IPTU é um imposto municipal. E decidirei reclamar, com a mesma intensidade, da sonegação de impostos, que desvia bilhões de reais que fazem falta às políticas públicas do país. De bônus, investigarei por que as camadas mais ricas pagam, proporcionalmente, tão poucos impostos no país, ao contrário do que acontece em nações sempre citadas como exemplo de sociedades desenvolvidas.

Só por hoje evitarei falar e publicar nas redes sociais a primeira ideia que me vem à cabeça, sem refletir, inicialmente, se não estou reproduzindo aquilo que me foi incutido por veículos de comunicação e instituições da sociedade com interesses muito particulares, tendo como resultado um pensamento que não é necessariamente meu, mas orientado para reproduzir conceitos que interessam a outros, sem que eu nunca tenha me dado conta, ainda, disso. Como antídoto, buscarei bons livros e boas fontes de informação e conhecimento, na tentativa de me “deseducar” um pouco e compreender que o mundo e as relações podem ser muito diferentes do que hoje são e que mudar isso não é uma impossibilidade.

Só por hoje, não repetirei ideias-clichês do tipo “no Brasil não tem racismo”, “só é pobre quem não trabalha”, “direitos humanos só servem para proteger marginais”, “na ditadura era tudo melhor, não tinha corrupção”, “negros também têm preconceito contra os brancos”, “o mensalão é o maior escândalo de corrupção da história do país”, “político é tudo ladrão”, “tudo que é público não funciona”, “o mercado regula”, “o mundo está cada vez pior”, “no Brasil nada dá certo”, “bandido bom é bandido morto” etc. etc. Se quero compreender os fenômenos sociais, prometo, vou estudar e ler – ler muito –, para não dizer bobagens inconsistentes.

Só por hoje.

* * * * * *

Celso Vicenzi, jornalista, mantém no NR a coluna Letras e Caracteres.

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Realidade paralela

por Júnia Puglia    ilustração Fernando Vianna*

E cá estou eu de novo, desviando-me da tão apreciada desocupação, mas é por uma boa causa. Rapidamente constatei que retomar o batidão da vida do escritório pode ser bem menos natural do que parece, apesar das décadas pregressas. O tempo faz o seu trabalho, bem caladinho, e nem precisa de plano estratégico corporativo.

Voltei a ter sobrenome institucional. O “sou de mim mesma”, que adotei quando encerrei essa carreira, em resposta à infalível pergunta “a senhora é de onde?”, que busca definir (e classificar) os seres humanos frequentadores desses ambientes, foi para um rápido intervalo no freezer.

Ressuscitado o crachá, começou a ciranda de reuniões. Logo na primeira, num alto gabinete da república, me senti numa realidade paralela, como se de repente eu entrasse num enredo que não era o meu, num cenário absurdo. Apesar da intensidade saariana do sol de agosto em Brasília, a parede de vidro aonde se encaixam grandes janelas basculantes estava tapada, de cima a baixo, por largas persianas verticais do tipo blackout. Com o sistema de ar condicionado a toda, começou a reunião de pessoas meio azuladas pela iluminação fluorescente, em torno de uma grande mesa, devidamente hierarquizada.

Ouvidos e neurônios destreinados bem que tentaram decifrar o grego falado ali. Em vão. Quando muito, consegui acompanhar o que disseram e anotar o que me soou relevante, pra depois repassar com quem está em dia com o dialeto, aí incluído o emaranhado de siglas, conexões e níveis de responsabilidade. Quando comecei a sentir o que esta breve reencarnação exigirá de mim, fui salva da danação eterna pela voz de Gilberto Gil soprando ao meu ouvido uma triste melodia, que parecia um prelúdio bachiano, um frevo pernambucano, um choro do Pixinguinha.

Inspiradíssima e curiosa canção(*), relato de um sonho em que o autor falava à plateia de um congresso mundial de economia. Enquanto ele, empoderado e convicto, argumentava em favor de mais trabalho, mais esforço, mais controle, apresentando estatísticas e gráficos que demonstravam os maléficos efeitos da teoria do lazer, do descanso e da poesia, um velho levantou-se da cadeira e saiu porta a fora assoviando e levando atrás de si a plateia inteira, até esvaziar o salão e deixar o preletor sozinho com seu portentoso powerpoint. O sonhador acordou assustado, se levantou e foi pra calçada ver o céu azul. Os estudantes e operários que passavam riam e gritavam: viva o índio do Xingu!

Conversando sobre tudo isto, inclusive a minha sensação de realidade paralela, alguém lembrou das promessas que nos fizeram algumas décadas atrás, de que a vida no trabalho se simplificaria muito com a tecnologia digital e as facilidades de comunicação em rede, dando lugar à possibilidade de instalação de uma cultura de ócio criativo, em que todos teríamos tempo para gastar com aquilo que fosse importante para cada um. A realidade - real ou virtual, à escolha do freguês - é bem outra.

(*) “Um sonho” - Gilberto Gil

 * * * * * *

 Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

A urgência da América Central: violenta, violentada e paranoica

Por Aleksander Aguilar*

Después de ver como se mueven las guerras y las guerrillas tu crees que le voy a tener miedo a tu pandilla? (Adentro – Calle 13)

Tomei um ônibus em El Salvador para uma longa viagem até a Costa Rica, atravessando quase todo o istmo centro-americano, na madrugada deste último 28 de julho. Durante todo o trajeto de 20 horas, interrompido pelas descidas obrigatórias fronteiriças, pensava nas impressões das duas últimas semanas que passei no “pulgarcito de América”, logo de sete anos sem visitar a terra paterna, e na necessidade de escrever sobre a sensação de paranoia que testemunhei entre os conterrâneos.

Pequenos, e significativos, exemplos do cotidiano: andar armado no país resulta quase óbvio, e em qualquer estabelecimento comercial, qualquer mesmo, desde uma farmácia até uma sorveteria, haverá dois seguranças com o armamento bem visível no intento de intimidar. Durante um café, numa reunião acadêmica, no jantar familiar com pupusas, os tópicos de conversa, naturais e quase banalizados, são constantes: o perigo, o medo, a morte. Jornalistas, poetas, professores do país escrevem sobre assassinados e decapitados. O sangue está nas artes, nas mentes e no ar salvadorenho. E nesse estado em que se encontra o país de Roque Dalton, a mobilidade é uma questão-chave. Se você não tiver carro, você está sob um risco ainda maior do que se o tivesse. Todos temem parar num semáforo em qualquer hora do dia e mover-se a pé, mesmo em curtas distâncias, também vai seguido por constante sensação de insegurança, ao ponto de as pessoas terem receio de parar para dar informação para quem simplesmente pergunta por uma localização. A desconfiança é generalizada.

Temem-se, porém, ainda mais ônibus. Precária, para não dizer patética latas-velha, a frota de ônibus do país, controlada por consórcios de empresários infiltrados e sequestrados pelo crime organizado, são alvos diários de assaltos aos passageiros e de extorsões aos motoristas. A verdade é que El Salvador funciona sob um toque de recolher tácito. Na própria região metropolitana, a maioria das linhas desses cacos ambulantes que chamam de transporte público tem suas últimas viagens às 19h! Ainda se encontram algumas rotas até pouco passado das 20h, e muito raramente às 21h, horário em que apenas os mais bravos, e/ou sem outra alternativa, atrevem-se a subir.

Pais mais zelosos literalmente proíbem os filhos de fazerem suas atividades do dia-a-dia em ônibus, preferindo sempre pagar caro por um táxi. Saídas de lazer e entretenimento, tão corriqueiras como ir ao cinema, são absolutamente estritas a um detalhado planejamento sujeito a boas companhias e esquemas de mobilidade, que significa dispor de um taxista de confiança com horário da corrida previamente arranjado, porque nem o taxista vai a qualquer lugar nem a qualquer hora por uma corrida, nem o passageiro aborda qualquer táxi que cruza pelas ruas. Ninguém confia em ninguém, salvo pelos fortes laços familiares e de amizade, duramente cultivados e celebrados. A sociedade salvadorenha vive encarcerada em si mesma.

Enquanto reflito sobre tudo isso – que é uma conjuntura piorada mas semelhante à que vivi morando em El Salvador, em 2008 – mais um choque de uma realidade em curto-circuito: no mesmo do dia em que viajei, o país amanheceu com a notícia, que é sintoma não de um processo mental paranoico e sim de uma realidade quase surreal, da proibição da circulação do transporte público por ordem dos líderes das forças do crime organizado (as chamadas “maras”, forma coloquial para o espanhol pandillas) Barrio 18, Mara Salvatrucha, e a mais recente, 18 Revolucionários – um racha da primeira e que já se consolidou com a terceira força criminosa do país.

A paranoia fundamentada

Não foi a primeira vez que as pandillas desestabilizaram El Salvador. Em setembro de 2010 ameaçaram com chamadas telefônicas, agressões nas paradas de ônibus e folhetos aterrorizantes entregues de mão em mão. Dessa vez, os mareros não apenas ameaçaram, mas executaram logo de saída nove motoristas, e os empresários e os funcionários suspenderam completamente o serviço. O país parou. Até 31 de julho, o boicote e/ou a sabotagem resultaram em nove motoristas assassinados, centenas de unidades de transporte paralisadas e várias incendiadas, serviços hospitalares comprometidos e aulas canceladas, milhares de salvadorenhos amontoados em precários veículos clandestinos e viajando sob custódia policial e militar. Imediatamente à ação das maras, o governo salvadorenho colocou 600 efetivos militares nas unidades de transporte do país para somar-se aos já 7.500 soldados que estão diariamente nas ruas em atividades de segurança pública, como parte da verdadeira atitude de guerra que existe hoje no país entre o governo e as pandillas.

Logo de cinco dias de estado de emergência no país, 90% das rotas de ônibus havia voltado às atividades, mas o ministro de Segurança, Benito Lara, manteve o estado de emergência e a militarização do cotidiano. O emprego das Forças Armadas na segurança pública já é uma praxe na América Central, e excede em muito, e cada vez mais, sua implementação como uma política pública dita necessária. Esta “semana del paro” em El Salvador que o diga. Os números, porém, são de guerra não apenas no território cuzcatleco: em Honduras, 2.000 soldados das tropas do exército estão nas ruas; na Guatemala, são 4.500 soldados e, em El Salvador, além dos mais de 7 mil soldados no cotidiano, e outros 600 convocados pela emergência do transporte, foram suspensas as licenças da Polícia Nacional e o efetivo total chamado chega a 23 mil agentes.

A realidade institucional de El Salvador hoje é de extrema polarização entre as mesmas forças políticas que há 30 anos também se enfrentavam, mas sob hostilidade bélica: a ARENA, Alianza Republicana Nacionalista, reduto da uma direita conservadora e reacionária, e a FMLN, a ex-guerrilha Frente Farabundo Marti de Liberación Nacional, convertida em partido político como parte dos Acordos de Paz alcançados para barrar a sangrenta guerra civil que durou de 1980 a 1992. Além da “paz”, a diferença é que logo de 20 anos ininterruptos de ARENA no governo, hoje é a FMLN quem dirige o país. Isso leva a muita especulação sobre a possibilidade de que as pandillas tenham sido partidariamente instrumentalizadas para causar desgaste político.

O poder pandillero

Atuando praticamente como uma terceira grande força política no país, as pandillas já obtiveram capacidade de articulação conjunta, apesar da mortal rivalidade entre elas, como na “trégua”, até hoje não reconhecida pelo governo salvadorenho, pactuada com o Poder Executivo entre 2012 e 2015, e que resultou num período de inegável diminuição dos homicídios na pequena nação assolada pela cultura da violência. Portanto, o ocorrido nessa semana em El Salvador, histórica desde várias formas de análise, é uma potente demonstração de força dessas gangues, e uma forma de buscar ser ouvidos, num contexto sem precedente de repressão contra elas.

Os governos da ARENA implementaram, e foram muito criticados por isso, os planos Mano Dura e Super Mano Dura, para combater as pandillas. Não conseguiram barrar sua expansão e serviram para sua evolução. A estratégia atual do governo é de impor ainda maior peso repressivo. Parece que as gangues quiseram demonstrar que, mesmo com todo o atual investimento em operações militares policiais, sua capacidade para desestabilizar a sociedade se mantém, e assim o fizeram.

O prestigioso periódico digital salvadorenho El Faro cita os dados oficiais sobre o atual tamanho do fenômeno em El Salvador: 60 mil membros, que junto com seu entorno social (colaboradores, simpatizantes, família), chegam a meio milhão de salvadorenhos, ou 8% da população do país. O caminho único da repressão dá mostras de ser inviável, pois as pandillas têm suas origens no agoniante processo social desigualdade-migrações-deportações-violência que configura a própria sociedade salvadorenha. Em muitas comunidades e bairros do país, a figura do pandillero é uma referência de sucesso que faz com que cada vez mais jovens, com famílias desagregadas pela migração, em condição de pobreza, sem perspectivas e profunda precariedade estrutural diante da ausência do Estado, queiram incorporar-se.

A atualidade da tragédia salvadorenha é particular pelo absurdo que a situação dessa semana representou, mas análoga pelo menos nesses países do chamado Triângulo Norte da região centro-americana: El Salvador, Guatemala e Honduras. Enquanto assistimos ao recrudescimento das grandes tensões geopolíticas de âmbito global, representado, entre outros, pelas guerras na Ucrânia, pelas reações do radicalismo islâmico no Ocidente e pela desintegração da experiência europeia a partir da humilhação grega, há no nosso próprio continente uma longa e arrastada crise que se visualiza num dramático mosaico de conflitos sociopolíticos – entre as causas mais recentes, destaca-se a violenta espoliação promovida pelo capitalismo neoliberal na região – que atentam contra a própria dignidade humana e flertam com o caos no “invisível” espaço centro-americano. Nem quando toma proporções de grotesco, como nesse momento, o tema é abordado pela mídia corporativa tradicional em nível internacional, e no Brasil em particular, ainda tão alheio à América Latina em geral.

A Organização das Nações Unidas considera o Triângulo Norte como a região mais violenta do mundo há vários anos. Mas a violência na América Central não é apenas um problema social, senão um desastre político que consome todos os dias e ininterruptamente a carne, o espírito e a sobriedade mental dos centro-americanos, talvez com densa particularidade em El Salvador, epicentro da organização das pandillas que ocuparam quase todo o istmo e com representações organizativas e laços de origem na Europa e na América do Norte. Como assinala o jornalista basco Unai Aranzadi, citado por Andres Ramirez no site brasileiro especializado em América Central, O Istmo, “analisando a realidade a partir do território, e de uma perspectiva histórica, quiçá seria mais justo qualificar esta sociedade de violentada. Desde o genocídio do mal-chamado 'descobrimento', até o estabelecimento do neoliberalismo, a América Central tem sofrido terrivelmente, e não é coincidência que fenômenos ultraviolentos aparentemente únicos e desprovidos de ideologias, como, por exemplo, as maras tenham surgido nesse espaço e nesse tempo”.

Há paranoia, particularmente, em El Salvador, mas quem poderá dizer que sem fundamento? Não é raro, e se fez ainda mais comum durante esses dias, ouvir que o país voltou ao estado de guerra de 30 anos atrás, com dinâmicas sociais típicas daquele período. Mas as novas gerações não conhecem apenas dois grupos em conflito, senão um medo generalizado e permanente atravessado em várias esferas do cotidiano. E retroalimentado constantemente pelos meios de comunicação. As capas dos principais jornais do país diária e sistematicamente apresentam manchetes e fotos sobre crimes e conflitos realizados pelas gangues.

No passado recente, a luta armada foi entendida por certos setores da sociedade como a única forma de serem ouvidos diante do fechamento de espaços políticos. Hoje as pandillas são protagonistas de uma guerra social e através da força cada vez mais se fazem atores políticos que exigem que os governos as escutem. Como consequência, a epígrafe utilizada na abertura desse texto, uma frase de uma canção da dupla porto-riquenha Calle 13, ao tempo que é um estímulo a resistência, tem cada vez menos ressonância na realidade salvadorenha. O povo salvadorenho conhece como poucos todos os comportamentos, as dores, e os arrasos de uma longa hostilidade bélica entre grupos confrontados, mas hoje está cada vez mais sufocado, temeroso e refém da sua realidade gerada pelo próprio pós-guerra.

Aleksander Aguilar é jornalista, linguista e doutorando em Ciência Política. Coordena a plataforma-rede O ISTMO (www.oistmo.com)
Web Analytics