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Fogo no Yosemite National Park, Califórnia, EUA. (European Pressphoto)

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Não me nego e faço gosto

por Júnia Puglia*

Quando a palavra radialista ainda nem existia, meu pai manteve um programa de rádio evangélico diário por mais de dez anos, na emissora líder da cidade, que, dizia-se, tinha um enorme alcance em ondas curtas. Acho que era mais que um ufanismo interiorano, porque ele recebia cartas, muitas cartas, dos lugares mais remotos do Brasil.

Algumas vezes, ele nos levava ao estúdio. Como o programa entrava no ar, ao vivo, às sete e meia da manhã, era preciso se levantar cedo para acompanhá-lo. O estúdio comunicava-se com um pequeno auditório, onde às vezes acontecia o programa, quando havia números especiais de música ao vivo ou alguma celebração aberta para o público. Numa placa de bronze ostentada à entrada, lia-se: “aqui se apresentou, na data tal, o tenor italiano Tito Schipa, glória da cena lírica mundial”. Eu achava lindo e muito chique.

Em todo o interior paulista, o horário das cinco às sete da manhã era ocupado por programas de música caipira. Era a hora de os trabalhadores da roça pegarem no batente. A praça próxima à minha casa ficava cheia de bóias-frias, homens e mulheres, que eram recolhidos por caminhões e levados, em pé nas carrocerias abertas, para os canaviais e laranjais. Os da cana iam vestidos dos pés à cabeça, com panos amarrados por todo lado, como proteção contra as longas folhas em formato de facas, que lhes rasgavam as carnes. Tudo muito natural e pré-determinado desde o início dos tempos.

Cada um levava consigo seu energético, o radinho de pilha, que ajudava a empurrar o facão em jornadas intermináveis medidas pela produção. Enquanto esperavam o transporte, os rádios formavam uma cacofonia de duplas caipiras tocando suas modas na longa sequência matinal do programa do Nhô Zélio. Tonico e Tinoco eram os maiorais, mas havia também Tião Carreiro e Pardinho, Alvarenga e Ranchinho, Jararaca e Ratinho e muitos outros. Eu ficava sentada no estúdio, ou quase sempre na cozinha de casa, esperando meu pai entrar no ar, ouvindo aquela música que estava impregnada nos nossos genes, apesar dos narizes torcidos do pessoal que se considerava “da cidade” e lutava vigorosamente para esquecer sua origem rural. Chique mesmo era ser urbano.

Quem chegou agora e adora um sertanejo universitário não tem ideia do que estou falando. Depois de alguns anos de um esquecimento que era visto como um alívio, a música caipira ressuscitou na voz de novas duplas. Já não falava da miséria, do trabalho no campo, da Rosinha, da filharada, choupana, vaquinhas, passarinhos e cavalos xucros. Começou a era do caipira urbano, da música de bordel de beira de estrada, levada na boleia dos caminhões que fizeram o “Brasil grande” nos anos setenta e oitenta, até se fixar definitivamente nas cidades e chegar às metrópoles e ao mundo, aos shows gigantescos e aos negócios bilionários. Atravessou um longo período de romantismo tipo tritura coração e agora está na fase da animação da balada, onde a letra é o que menos importa. Eu mesma já identifiquei algumas das canções atuais tocando em lojas e trens de metrô em lugares insólitos pelas Europas. E tive uma sensação estranhíssima, de total desencontro entre a música e o lugar. O sertanejo de antes, que evidentemente não morreu, é a música de raiz que mais fundo me bate. Como diz a Inezita Barroso, “sou sertaneja, não me nego e faço gosto, tá escrito no meu rosto, só não enxerga quem não quer”. Mentira. Também sou urbana, mas adoro as modas de viola e a poesia sertaneja feita de terra e cheiro de mato. Esta avalanche de hoje, conheço muito pouco, porque não me diz nada, mas tem o mérito inegável de ter capturado o grande mercado musical para o produto nacional, espantando o pop estrangeiro de péssima qualidade. Não é pouca coisa, e tem o meu respeito.

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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo.

quinta-feira, 31 de julho de 2014

O professor

1964 + 50
Histórias de pessoas de carne e osso - e também de personagens de papel - que viveram na roda viva da ditadura militar. Novos episódios toda quinta-feira.

(Episódio 14)

por Fernanda Pompeu   ilustração Fernando Carvall

Não havia nenhuma chance de um mal-entendido quanto ao local e horário. No 31 de outubro de 1975, toda São Paulo estava sabendo que na Catedral da Sé, o católico Dom Paulo Evaristo Arns, o rabino Henry Sobel e o pastor James Wrigth celebrariam uma missa em memória do jornalista Vladimir Herzog. Na verdade, o ato era bem mais. Estar na Praça da Sé naquele cair de tarde significava afrontar a ditadura militar.

A garota, com exatos 20 anos, sabia de tudo isso. E também esperava que ele, o professor, também soubesse. Na verdade eles estavam tendo um namorico. Se nos dias de Facebook fosse, diríamos que eles ficavam. Mas na década de 1970 ninguém falava assim. Ele era professor de História, dos melhores. Ela andava mais interessada na História do que nele, mas isso ela concluiu tempos depois, ao cavoucar as cinzas da memória.

Dentro da Catedral, ouvia-se um desagravo em nome de Herzog. Menos de uma semana antes, o jornalista da TV Cultura foi morto sob tortura no Doi-Codi da rua Tutoia - uma seção do inferno no bairro do Paraíso. Seus algozes tentaram vender a versão de que o preso havia se suicidado dentro da cela. Só que ninguém acreditou.

Onze anos depois dos militares terem roubado o poder em nome de um Brasil mais seguro, ordeiro, ovelha, muita gente já estava de saco cheio. Pelas promessas não cumpridas e pela violência contra os opositores. Violência tão desproporcional quando é - hoje, 2014 - a do exército de Israel contra os civis da Faixa de Gaza.

Antes de Vladimir Herzog, vários haviam sido torturados. Entre eles se somavam os mortos e desparecidos. Em razão disso, perto de oito mil pessoas se concentravam na Catedral e na Praça da Sé. No meio deles, ela. Com um olho na História e outro no relógio.

A aluna marcara o encontro com o professor em torno do Marco Zero - bem no centro da praça. Ele garantiu que compareceria, pois o país não podia seguir do jeito que estava. Mesmo quando a missa terminou, quando as pessoas começaram a ir embora, ela ainda esperou. Mas ele não apareceu.

No dia seguinte se encontraram na sala de aula. Lá estava o professor falando da Revolução Russa, entusiasmado com os bolcheviques e suas ações. Ele sorriu várias vezes para ela. Ela retribuiu com um olhar triste. Estava decepcionada. De alguma forma, a garota pressentia que o namorico dos dois tinha terminado.

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Fernanda Pompeu é escritora e redatora. Fernando Carvall é o homem da arte.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Não se pode deixar de ver

por Celso Vicenzi*

As imagens que chegam da Faixa de Gaza, bombardeada por Israel, com muitas vítimas entre crianças, mulheres e idosos, circulam como um grito impotente pelas redes sociais. Impossível manter-se impassível diante do uso desproporcional da força por parte do governo israelense. Tenho feito circular artigos e reportagens que falam dos abusos que ali são cometidos. Evito publicar imagens, mas compartilhei uma delas, recentemente, com várias crianças palestinas mortas, amontoadas, porque são o retrato cruel de como o terrorismo de estado pouco se diferencia do terrorismo de grupos que usam a população civil como alvo. Sob o pretexto de buscar alvos militares, contam-se às centenas os “efeitos colaterais” que vitimam pessoas inocentes.

Tão logo publiquei a foto, surgiu um debate sobre o que é ou não “sensacionalismo”. A cena é forte, sim, mas há situações que não podemos deixar de ver. Mais que isso: temos a obrigação de olhar, com muita dor e indignação. Afinal, quantos civis ainda precisam ser mortos – e já são mais de mil, além de milhares de feridos – para configurar um massacre? Os álibis do governo israelense e de seus apoiadores são insustentáveis, embora a mídia de vários países ocidentais – o Brasil não é exceção – não cansa de tentar legitimar.

O jornalismo deve poupar o cidadão – regra geral – de cenas violentas e desnecessárias. Mas há exceções, porque a instantaneidade de uma imagem é fundamental para traduzir algumas tragédias humanas. O bombardeio dos Estados Unidos na Guerra do Iraque, a primeira que assistimos ao vivo, com cenas aéreas das cortinas de fogo que se levantavam ao céu, sobretudo à noite, mais parecia um videogame high tech. A brutalidade, a essa distância, sem a visão de mutilações e mortes, tem menos chance de emocionar a opinião pública. Houve um enorme esforço das forças norte-americanas para impedir ao máximo o acesso dos jornalistas, fotógrafos e cinegrafistas ao campo de batalha. Até a linguagem tornou-se asséptica. Falava-se em “ataques cirúrgicos”.

O massacre que vem sendo perpetrado pela máquina de guerra de Israel contra a população civil palestina tem gerado muitas imagens brutais. Num mundo povoado por câmeras e quase anestesiado diante de tantos horrores de guerras, essas imagens ainda impactam as consciências de quem se nega a ser apenas testemunha de mais uma atrocidade.

Os Estados Unidos começaram a perder a Guerra do Vietnã quando pacatos cidadãos estadunidenses tomaram conhecimento do que seus concidadãos faziam em terras distantes. A chacina só começou a ter fim depois que, durante os telejornais, o sangue espirrou nas mesas de refeições de milhões de cidadãos em todo o mundo, especialmente nos Estados Unidos.

Não sou voyeur da crueldade humana, nem tampouco cego para a dor dos que imploram por socorro ou dos que morrem à míngua por injustiças em algum lugar do planeta. Foram as fotos de Don McCulinn, o primeiro fotógrafo a registrar a fome em Biafra, em 1969, que acordaram o mundo para uma catástrofe que precisava do apoio de outras nações. Não há como esquecer a imagem da menina Kim Phuc, correndo nua, gritando de dor com o corpo queimado pelas bombas de napalm, numa estrada perto de Trang Bang, no sul do Vietnã. Ou a execução, a sangue frio, com um tiro na cabeça, em plena rua de Saigon, de um vietcong – registro feito pelo fotógrafo Eddie Adams, em 1968.

Não há por que confundir. Sensacionalismo é a “exploração de notícias com o objetivo de causar sensação ou escândalo”. Ao exibir algumas cenas dantescas (como as valas com corpos de judeus mortos em campos de concentração nazista), o objetivo não é causar sensação. Primeiramente, é certo que causa indignação. Mas é também registro que permanece para que se possa tentar compreender, de alguma forma, o que e por que aconteceu. É também o testemunho para pôr no banco dos réus os responsáveis. São imagens que precisam fazer parte do “currículo” da espécie humana. Servem para lembrar-nos do quanto podemos ser ferozes e – paradoxalmente – inumanos em certas circunstâncias.

O fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado testemunhou, com sua câmera, muito sofrimento, ódio e violência. E aos críticos, que não veem sentido em registrar a desgraça humana, respondeu: “Este é o nosso mundo, precisamos assumi-lo. Não são os fotógrafos que criam as catástrofes, elas são os sintomas da disfunção do mundo do qual todos participamos. Os fotógrafos existem para servir de espelho, como os jornalistas. E não venham me falar de voyeurismo! Voyeurs foram os políticos que deixaram as coisas acontecerem e os militares que facilitaram a repressão.” O comentário era sobre Ruanda, palco de um genocídio em 1994, mas vale para qualquer situação. O relato está no livro Sebastião Salgado – da minha terra à Terra, (entrevista à amiga Isabelle Francq, editora Paralela), no qual ele também afirma: “Ninguém tem o direito de se proteger das tragédias de seu tempo, porque somos todos responsáveis, de certo modo, pelo que acontece na sociedade em que escolhemos viver.” No caso presente dos ataques de Israel, é evidente a brutalidade e a insensatez de uma ideologia política e religiosa sustentada, principalmente, pelos Estados Unidos, uma das nações que mais se envolve em ações violentas por todo o planeta.

Infelizmente, pela lógica do capital e da guerra (as duas coisas costumam andar juntas), seres humanos de determinadas etnias ou nações são atacados e exterminados em nome de vários interesses. O Estado de Israel tem incorporado e ocupado territórios palestinos pela força e mantido a população sob permanente estado de terror. A qualquer momento sente-se legitimado a usar a força de maneira desproporcional. E controla quase tudo que pode ou não se pode fazer.

Não estivesse sob a proteção dos Estados Unidos e das principais nações do Ocidente, seus líderes já estariam sentados em um tribunal para responder por crimes de guerra. A certeza da impunidade, no entanto, só amplia os abusos contra os Direitos Humanos.

O Estado de Israel tem o direito de se defender, mas não o de perpetrar massacres. Tem o direito de lutar contra inimigos que tentam golpeá-lo, mas não pode atacar alvos civis e matar mulheres, crianças e idosos. Palestinos têm o direito a ter de volta suas terras ocupadas por Israel. Palestinos têm direito a ter um Estado, conforme a Resolução 181 da ONU, que data de 1947 e jamais foi cumprida – em boa parte, pela intransigência israelita.

O século 20 presenciou, além de duas guerras mundiais, vários crimes de guerra em acertos de contas regionais que escandalizaram o mundo. Prova de que somos animais de uma ferocidade jamais vista anteriormente sobre a face da Terra e, por isso mesmo, a única espécie capaz de destruir milhares de outras espécies e de ameaçar a sua própria existência.

Diante da brutalidade que se verifica em Gaza, golpeada por milhares de mísseis a estraçalhar corpos humanos inocentes, não é justo que o horror se esconda por trás de uma linguagem diplomática, utilizada diariamente pela mídia para encobrir crimes de guerra. Não é justo pedir que tenhamos bons modos diante do terror. A violência cega. Por isso, mais do que nunca, é preciso ter olhos para ver. E dizer não à barbárie.

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Celso Vicenzi, jornalista, ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina, com atuação em rádio, TV, jornal, revista e assessoria de imprensa. Prêmio Esso de Ciência e Tecnologia. Autor de “Gol é Orgasmo”, com ilustrações de Paulo Caruso, editora Unisul. Escreve humor no tuíter @celso_vicenzi. “Tantos anos como autodidata me transformaram nisso que hoje sou: um autoignorante!”. Mantém no NR a coluna Letras e Caracteres.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Porque sim!

por Júnia Puglia*

Essa minha impaciência, às vezes nem eu mesma a suporto, mas que remédio, né? De tanto ouvir e responder a certas perguntas, tenho vontade de dar respostas diretas e malcriadas, mas, bem, já sou grandinha e preciso ser mais tolerante com as pessoas, dizem as regras de convivência. Sempre, interminavelmente. Afinal, o mundo é assim, bla bla blááá.

Por que precisamos de mais mulheres na política e nos espaços de poder? Porque sim! Por que devemos promover oportunidades iguais para todos os grupos populacionais como política de Estado? Porque sim! Porque não há nenhuma razão para não ser assim. Basta de explicar, argumentar, comprovar e tentar convencer as pessoas sobre o óbvio. A atividade política precisa de todas e todos que se sintam encorajados a meter a mão na massa pantanosa dos mecanismos de participação, arrombar os baús dos partidos, estar nas mesas de negociação, assim mesmo como elas são hoje, mover as engrenagens das decisões que afetam a vida de todo mundo, desde as câmaras municipais até os níveis mais elevados. A participação plena de todas as pessoas é uma das bases da democracia. E, por mais imperfeita e incompleta que seja, ainda não inventaram nada melhor que ela, clichê dos clichês.

A política é um lodaçal? Estamos fartos do conversê de candidatos e campanhas? Da guerra de informação, que nos impede de saber qual a versão mais confiável? Lamento informar que vai continuar sendo assim. Que só vai mudar quando formos capazes de entender o verdadeiro sentido da política, o que só será possível alcançar fazendo política. Não há outro caminho, e não há milagre.

Por que mulheres? Porque sim. Por que negras, índios, pessoas com deficiência, gays, lésbicas e todas as letrinhas? Porque sim. Cada um com suas propostas, suas reivindicações, levando para a arena política toda essa enorme diversidade que nos compõe. É justo, não? Como azeitar as engrenagens da vida em sociedade senão conhecendo-as, destrinchando-as, revirando-as de dentro pra fora e de fora pra dentro?

Por que homens? Jovens, velhas, conservadores, avançadas, caretas, moderninhos, nerds, com quem concordamos, de quem discordamos, bonitos, feias, inteligentes, cultas, rudes? Porque sim. Porque sim.

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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo.

terça-feira, 22 de julho de 2014

Vou perder esse trem

por Maria Shirts   ilustração Ligia Morresi

Não sei se você já notou, mas é comum, ao menos no metrô de São Paulo, que algumas pessoas não entrem no trem quando ele chega.

Não precisa ser no horário de pico. Esses dias mesmo peguei o metrô às 10 da manhã, pouco movimentado. Partindo da Estação Vila Madalena, entrei apressada no trem, como sempre faço, atrasada ou não. Sentei defronte à plataforma e pude observar um senhorzinho, meia idade, camisa social branca com o terceiro botão estirado, sentado naquele banquinho verde-água de plástico.

Quem são? O que fazem? O que comem?, me pus a pensar, do lado de dentro, que já fechava as portas para dali adiante berrar o simpático “next station”, tradução feita para os além mar que vieram ver a Copa do Mundo aqui.

Não cheguei a nenhuma conclusão, mas formulei algumas hipóteses.

A primeira é a do livro bom. Já deve ter acontecido com você de perder um ponto ou uma estação por se distrair com uma boa narrativa. Os que podem matar um tempo, suponho, nem entram no trem. O que me soa um pouco estranho porque aquela luz fluorescente, as paredes de cimento frio, o subterrâneo… Não é exatamente o lugar mais agradável da cidade. Mas a oriental que lia avidamente o último do John Green não parecia se importar.

A segunda hipótese é a do sono. Sim, porque vejo várias dessas pessoas dormindo nas desconfortáveis cadeirinhas de plástico em letargia profunda. A maioria jovens, que me parecem estudantes matando aula do cursinho.

Minha terceira suposição é a do TOC. Pode parecer bobagem, mas o transtorno obsessivo compulsivo é mais frequente do que parece. Vai saber se o sujeito não entra num vagão que comece com a letra H. (Ok, confesso que só pensei nisso depois de ver um senhorzinho muito excêntrico no purgatório das cadeirinhas de plástico fazendo movimentos repetitivos com os dedos, como os de quem escuta uma mesma batida de música – com o detalhe de que ele não estava ouvindo música).

Não consigo pensar em quaisquer outros motivos para um não entrar no maldito trem. Até tentei esboçar um mapeamento etnográfico desse público, mas sem sucesso.

Sei que toda a minha angústia se resolveria ao primeiro ímpeto de coragem de me dirigir a quaisquer dessas pessoas para perguntar: “oi, sou enxerida e tenho ânsia de saber: o que você faz aqui, sentado, em lugar de entrar no trem?”. Mas tenho algum receio da resposta…

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Maria Shirts, internacionalista e pedestrianista, mantém a coluna Transeunte Urbana. Ilustração de Ligia Morresi, especial para o texto
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