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Verão na Rússia: tempestade de granizo em Novosibirsk no rio Ob (AP)

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Porque sim!

por Júnia Puglia*

Essa minha impaciência, às vezes nem eu mesma a suporto, mas que remédio, né? De tanto ouvir e responder a certas perguntas, tenho vontade de dar respostas diretas e malcriadas, mas, bem, já sou grandinha e preciso ser mais tolerante com as pessoas, dizem as regras de convivência. Sempre, interminavelmente. Afinal, o mundo é assim, bla bla blááá.

Por que precisamos de mais mulheres na política e nos espaços de poder? Porque sim! Por que devemos promover oportunidades iguais para todos os grupos populacionais como política de Estado? Porque sim! Porque não há nenhuma razão para não ser assim. Basta de explicar, argumentar, comprovar e tentar convencer as pessoas sobre o óbvio. A atividade política precisa de todas e todos que se sintam encorajados a meter a mão na massa pantanosa dos mecanismos de participação, arrombar os baús dos partidos, estar nas mesas de negociação, assim mesmo como elas são hoje, mover as engrenagens das decisões que afetam a vida de todo mundo, desde as câmaras municipais até os níveis mais elevados. A participação plena de todas as pessoas é uma das bases da democracia. E, por mais imperfeita e incompleta que seja, ainda não inventaram nada melhor que ela, clichê dos clichês.

A política é um lodaçal? Estamos fartos do conversê de candidatos e campanhas? Da guerra de informação, que nos impede de saber qual a versão mais confiável? Lamento informar que vai continuar sendo assim. Que só vai mudar quando formos capazes de entender o verdadeiro sentido da política, o que só será possível alcançar fazendo política. Não há outro caminho, e não há milagre.

Por que mulheres? Porque sim. Por que negras, índios, pessoas com deficiência, gays, lésbicas e todas as letrinhas? Porque sim. Cada um com suas propostas, suas reivindicações, levando para a arena política toda essa enorme diversidade que nos compõe. É justo, não? Como azeitar as engrenagens da vida em sociedade senão conhecendo-as, destrinchando-as, revirando-as de dentro pra fora e de fora pra dentro?

Por que homens? Jovens, velhas, conservadores, avançadas, caretas, moderninhos, nerds, com quem concordamos, de quem discordamos, bonitos, feias, inteligentes, cultas, rudes? Porque sim. Porque sim.

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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo.

terça-feira, 22 de julho de 2014

Vou perder esse trem

por Maria Shirts   ilustração Ligia Morresi

Não sei se você já notou, mas é comum, ao menos no metrô de São Paulo, que algumas pessoas não entrem no trem quando ele chega.

Não precisa ser no horário de pico. Esses dias mesmo peguei o metrô às 10 da manhã, pouco movimentado. Partindo da Estação Vila Madalena, entrei apressada no trem, como sempre faço, atrasada ou não. Sentei defronte à plataforma e pude observar um senhorzinho, meia idade, camisa social branca com o terceiro botão estirado, sentado naquele banquinho verde-água de plástico.

Quem são? O que fazem? O que comem?, me pus a pensar, do lado de dentro, que já fechava as portas para dali adiante berrar o simpático “next station”, tradução feita para os além mar que vieram ver a Copa do Mundo aqui.

Não cheguei a nenhuma conclusão, mas formulei algumas hipóteses.

A primeira é a do livro bom. Já deve ter acontecido com você de perder um ponto ou uma estação por se distrair com uma boa narrativa. Os que podem matar um tempo, suponho, nem entram no trem. O que me soa um pouco estranho porque aquela luz fluorescente, as paredes de cimento frio, o subterrâneo… Não é exatamente o lugar mais agradável da cidade. Mas a oriental que lia avidamente o último do John Green não parecia se importar.

A segunda hipótese é a do sono. Sim, porque vejo várias dessas pessoas dormindo nas desconfortáveis cadeirinhas de plástico em letargia profunda. A maioria jovens, que me parecem estudantes matando aula do cursinho.

Minha terceira suposição é a do TOC. Pode parecer bobagem, mas o transtorno obsessivo compulsivo é mais frequente do que parece. Vai saber se o sujeito não entra num vagão que comece com a letra H. (Ok, confesso que só pensei nisso depois de ver um senhorzinho muito excêntrico no purgatório das cadeirinhas de plástico fazendo movimentos repetitivos com os dedos, como os de quem escuta uma mesma batida de música – com o detalhe de que ele não estava ouvindo música).

Não consigo pensar em quaisquer outros motivos para um não entrar no maldito trem. Até tentei esboçar um mapeamento etnográfico desse público, mas sem sucesso.

Sei que toda a minha angústia se resolveria ao primeiro ímpeto de coragem de me dirigir a quaisquer dessas pessoas para perguntar: “oi, sou enxerida e tenho ânsia de saber: o que você faz aqui, sentado, em lugar de entrar no trem?”. Mas tenho algum receio da resposta…

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Maria Shirts, internacionalista e pedestrianista, mantém a coluna Transeunte Urbana. Ilustração de Ligia Morresi, especial para o texto

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Mário Pereira, o Quixote das Letras


por Fernando Evangelista*

Mário Pereira, grande contador de histórias, solitário Quixote das letras, inimigo da insensatez e da ignorância, escritor lírico e indignado, professor dos professores, amigo de São Francisco de Assis e de Ernest Hemingway, amante do Central Park e dos jardins de Florianópolis, conhecedor das coisas simples e das almas complicadas, faleceu.

Faleceu hoje pela manhã, 21 de julho, dia em que completou 73 anos, vítima de edema pulmonar. Dono de um estilo sóbrio e elegante, que não admitia gorduras, grossuras ou excessos, buscava sempre a palavra correta, a frase certeira. Como professor, Mário influenciou gerações de jornalistas. Mas isso foi depois, quando já havia caminhado pelas redações do Rio de Janeiro e do sul do país, de repórter de polícia a editor chefe.

Ele nasceu nos pampas, embora não gostasse de ser chamado de gaúcho – dizia ser porto-alegrense. Foi lá que começou no jornalismo, “quase por acaso”, naqueles anos escuros da ditadura militar. Havia concluído a faculdade de Direito, mas aquela coisa burocrática – terno, gravata e datas-vênias – não lhe dizia nada.

Foi então que encontrou, num balcão de cafezinho, Paulo Amorim, diretor do jornal Zero Hora. O convite veio em tom de intimidação: “Mário, vamos trabalhar juntos”. O jovem recém-formado tentou desconversar, tomou outro café, espiou as horas, quis ir embora, mas não houve jeito e se rendeu. Pouco depois já era o editor-chefe do jornal. Tinha 26 anos.

E nesse interim – ele que me perdoe, mas contarei um segredo – foi também autor de uma famosa coluna social no Rio Grande do Sul, com pseudônimo, naturalmente. Veio para Florianópolis em 1986 com a equipe que iniciou o Diário Catarinense, do grupo RBS, o primeiro jornal informatizado do Brasil. Depois foi editor-chefe de O Estado, também na capital, e lá fez história em coberturas memoráveis, ao lado de amigos que ficaram para a vida toda.

Como um bom filho pródigo, voltou ao DC, onde, por quase duas décadas, foi editor de opinião. Vivia do jornalismo, mas sua grande paixão, ao lado dos seus inseparáveis cães e gatos, eram os livros. Sua primeira obra é de 1993, Fazendo a CabeçaJornalismo de Ideias e Críticas (Editora Paralelo 27). No ano seguinte, escreve Pequena História de Florianópolis (Editora Terceiro Milênio), relançada anos depois, e com grande sucesso de vendas, pela editora Cuca Fresca, com novo título: Histórias de Florianópolis para ler e contar.

Em 1995, publica Certas Certezas (Editora Terceiro Milênio) e recebe o Prêmio Othon Gama D’Eça, conferido pela Academia Catarinense de Letras ao melhor livro do ano. Nesses ensaios, como de costume, Mário não foge à polêmica e tem a coragem de criticar o multiculturalismo, “esse traiçoeiro rio”, e a síndrome do politicamente correto, “um dos seus mais poluídos afluentes”, além de detonar, sem piedade, o pagode, a lâmpada fosforescente e o atual jornalismo brasileiro.

“Os jornais de hoje”, dizia ele, “são imbatíveis para embrulhar peixe no mercado, forrar a gaiola do canário e a casinha do cachorro”. Cada vez mais descrente do “quarto poder”, faz seu primeiro mergulho na ficção com o conto Nem todas as Kombis são Brancas, incluído na antologia Círculo de Mistério, lançado pela Editora Garapuvu em 2000.

Dois anos depois, pela mesma editora, Mário homenageia os escritores do Estado com o delicioso Ao Pé da Letra – Escritores Catarinenses Contemporâneos e Outros textos. Em 2004, lança o primeiro livro de ficção, 12 Histórias, e conquista, outra vez, o Prêmio Othon Gama D’Eça.

Mário foi eleito para a Academia Catarinense de Letras em 2009. Em 2011, pela Insular, lança Saudade do Futuro, com crônicas sobres seus temas mais caros: os bichos, o cinema, os amigos... Sua última obra, Roteiro Histórico e Sentimental pelas ruas de Florianópolis, foi lançada pela Unisul em 2013.

Como jornalista, escritor e queridíssimo amigo, Mário tinha a capacidade de perceber o invisível, de captar o não dito, de fotografar o perfume. Apesar de ser um crítico de grande rigor, era extremamente generoso. Tinha sempre a mão estendida e com ela uma frase qualquer, dita de improviso, que fazia o interlocutor rir do mundo e de si mesmo. E seguir em frente com mais coragem.

Mário fará muita falta. Mas ainda bem que sua obra está aí, cada vez mais atual, mais necessária e sempre deliciosa. O exemplo de sua honestidade, elegância, dignidade, o exemplo de sua indignação ética e de suas inesquecíveis aulas também vão ficar. Portanto, sem choro, porque ele não gostava disso.

Obrigado, mestre. Obrigado por tudo.

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Fernando Evangelista é jornalista e documentarista. Crédito foto: Glaicon Covre (Diário Catarinense)

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Areia e vento


por Júnia Puglia    ilustração Fernando Vianna*

Voltando da escola a pé, eu observava alguns itens específicos. Onde havia frutas maduras que pudessem ser apanhadas sem problemas, goiabas, mangas, mixiricas, e se havia algum monte de areia novo, disponível para ser atacado nas minguadas horas de folga entre aulas e deveres de casa. Eles surgiam e desapareciam ao ritmo das construções e reformas das casas do bairro. Muitas obras eram largadas pelo meio e a areia ficava ali, na calçada, ao deus-dará. Mesmo assim, acontecia de o pessoal da casa ficar de olho para que ninguém tocasse nela, muito menos crianças em busca de diversão, sempre vistas com má vontade.

Às vezes dava certo. Era com enorme prazer que eu subia na areia e começava a cavoucá-la com as mãos. Pegar um bom tanto e soltá-lo entre os dedos era uma prévia indispensável para as tentativas de construir toscos cones com uns buracos como portas e janelas, os meus castelos. Depois de pronto o cone, respingar água por cima, para não despencar tudo em seguida, o que sempre acontecia. Refazer também era parte do jogo. E se repetia a mágica da areia que podia virar qualquer coisa e depois se desfazia, e eu refazia.

São muitos e surrados os simbolismos associados à areia, velhíssima cúmplice na representação do tempo e da vida. Nos últimos dias, estou tentando acomodar aqui dentro a morte de uma pessoa querida, que vivia bem longe daqui. Era dessas com brilho nos olhos, que traziam luz, alegria e um bom solavanco de generosidade e sabedoria a quem tivesse a sorte de conhecê-la e pudesse deixar a indiferença de lado. Uma doença terrível plantou nela a semente mortífera, que, apesar das muitas tentativas de eliminação, decidiu resistir e ganhou o jogo. Seu corpo, embalagem já obsoleta, foi, a seu pedido, doado a uma universidade para servir como instrumento de pesquisa na busca por mais vida para outros humanos. Na forma mais direta e simples, bem como ela viveu e agiu.

Vejo-a tentando conter o punhado de areia com as mãos bem fechadas, sabendo que ela vai acabar escapando e se espalhando por todo lado. Não um saibro grosso de construção, mas aquela fina areia colorida de beira de rio, com que se montam paisagens em garrafas e quadros vendidos nos mercados populares. Vital e cheia de energia. O vento fará o seu trabalho.

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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Coisinhas que nos fazem

1964 + 50 
Histórias de pessoas de carne e osso - e também de personagens de papel - que viveram na roda viva da ditadura militar. Novos episódios toda quinta-feira.

(Episódio 13)


por Fernanda Pompeu  ilustração Fernando Carvall

Em 11 de junho de 2006, os restos mortais de Iara Iavelberg foram retirados do setor dos suicidas do Cemitério Israelita do Butantã, em São Paulo. Vitória da família e dos amigos que nunca acreditaram na versão - dada pelos órgãos de segurança - de que Iara teria se matado ao perceber o cerco policial no apartamento onde morava, no bairro de Pituba, Salvador. Sua morte ocorreu em 20 de agosto de 1971.

Além do oficial, há outros relatos, inclusive de um sargento envolvido diretamente na operação, que indicam que Iara Iavelberg foi na verdade baleada sem nenhuma chance de defesa. Considerando o modus operandi da repressão da época, provavelmente a moça, então com 27 anos, foi mesmo assassinada. Quero dizer, os caras entraram fuzilando. Matar e depois perguntar.

A biografia política de Iara é bastante conhecida. Ele foi militante da Polop (Política Operária); VAR-Palmares (Vanguarda Armada Revolucionária - Palmares); VPR (Vanguarda Popular Revolucionária) e, finalmente, integrou o MR-8 (Movimento Revolucionário 8 de Outubro). Também viveu um romance com Carlos Lamarca, assassinado três meses depois do cerco ao apartamento em Pituba.

Todas essas informações podem ser consultadas no vigoroso Dossiê Ditadura: Mortos e Desaparecidos Políticos no Brasil (1964 - 1985). O livro foi organizado pela Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos e pelo IEVE - Instituto de Estudos sobre a Violência do Estado. A primeira página vem assinada por Aloysio Nunes, participante da luta armada e vice atual do candidato a presidente Aécio Neves.

Mas, pela natureza do trabalho do Dossiê, os perfis são um tanto secos. Por conta disso, fiquei surpresa e feliz ao ler a entrevista da professora e pesquisadora Ecléa Bosi - dada a Mariluce Moura, revista Pesquisa Fapesp de abril de 2014. Ecléa é autora de vários importantes livros, entre eles, o delicioso Memória e Sociedade - Lembranças de velhos.

Pois na entrevista, parágrafos tantos, ela rememora a presença de Iara Iavelberg na Faculdade de Psicologia da USP: "Fui colega de classe da Iara, o que me marcou muito. Lembro-me da colega como uma moça muito bonita, muito inteligente e que cantava muito bem. Gostava de Ponteio, de Edu Lobo, também de Disparada, de Vandré. Era muito boa em estatística (...) e íamos à casa dela estudar. A Iara histórica todos lembram, mas foi a perda da colega que acompanhei e vi o quanto nossa turma sofreu com isso."

Ao ler essa passagem, minha cabeça fez plim! Pensei que talvez seja isso que falte - os detalhes, as preferências musicais, a maneira de sorrir - aos biografados mortos e desaparecidos sob a ditadura militar. Saber das pequenas coisas revela a humanidade dos personagens. Trazem eles para mais perto de nós. A ditadura não matou só ideias, matou principalmente pessoas. Então a jovem morta em Pituba gostava da canção Ponteio, letra de José Carlos Capinan, e vencedora do mítico Festival de Música da Record em 1967.

"Parado no meio do mundo / Senti chegar meu momento / Olhei pro mundo e nem via / Nem sombra, nem sol / Nem vento. Quem me dera agora / Eu tivesse a viola / Prá cantar. Jogaram a viola no mundo / Mas fui lá no fundo buscar / Se eu tomo a viola / Ponteio / Meu canto não posso parar /. Talvez, nesta manhã invernosa de 2014, Iara Iavelberg esteja cantando esses versos em alguma nuvem.

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Fernanda Pompeu é escritora e redatora. Fernando Carvall é o homem da arte.
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