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Subúrbios de Paris e a mulher do fotógrafo retratada por ele | Richard Kalvar

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Agradecida

por Júnia Puglia     ilustração Fernando Vianna*

De tempos em tempos, aparece em alguma revista semanal um longo artigo sobre os avanços da medicina no tratamento de bebês prematuros. Falam sobre como evoluíram o conhecimento sobre o assunto, os equipamentos e a capacidade de fazer sobreviverem prematuros cada vez mais prematuros e menores. As matérias incluem testemunhos de pais, médicos e outros profissionais sobre as complicações e situações-limite, e também sobre a satisfação com os resultados obtidos, pois muitas dessas crianças – mas não todas – superam as dificuldades iniciais e vivem sem qualquer sequela importante.

Se bem que tudo depende das circunstâncias. Acabo de ver uma reportagem na televisão sobre o fato de a prematuridade ter sido alçada ao topo da lista mundial de causas da morte de crianças com até cinco anos de idade, um posto até recentemente ocupado pela pneumonia. Este fato pode ser um reflexo da tendência de tentar salvar bebês cada vez menos amadurecidos, e em condições extremamente precárias, além de trazer embutidas as dificuldades de atendimento em lugares que carecem de recursos médicos, econômicos e educacionais adequados.

Eu nasci prematura, na segunda metade da década de 1950, no interior de São Paulo. Segundo a informação que me chegou, uma bebê bastante frágil, com baixo peso e estranhos sintomas, que ora me parecem uma síndrome respiratória típica, ora “petit mal”, dependendo da ênfase de quem relata. Até onde sabemos, não houve um diagnóstico definitivo.

Com alguns meses iniciais na incubadora, e depois muitas idas e vindas ao hospital, meu primeiro ano foi bem atribulado. Entretanto, dos tais sintomas, não restou nenhuma sequela. Embora tenha demorado um pouco para cumprir as primeiras etapas de desenvolvimento psicomotor, por volta do segundo aniversário eu já era uma menina perfeitamente ajustada ao ritmo da infância considerado normal.

Mas não foi bem assim. Levei muitos anos para perceber que aquela sombra que eu sentia me encobrindo desde que me entendia por gente tinha um nome: dor. O frio interno, a sensação de abandono, aquela ferida que me fazia sangrar por dentro o tempo todo, e que não tinha razão compreensível, atendiam todos pelo nome de dor. Hospital, solidão, luz artificial, tristeza, desconforto, e sabe-se lá que outras experiências parecidas, que hoje considero superadas, deixaram suas marcas.

Fotos de super-prematuros acomodados na palma das mãos dos adultos me dão pânico. Tenho vontade de gritar, de sair correndo. As revistas têm um prazer todo especial em exibi-las nas suas capas. As façanhas médicas fascinam e estimulam mães e pais a buscar, compreensivelmente, que seus bebês vivam, não importando as dificuldades implicadas. Os médicos têm aí oportunidades preciosas de exercer e exibir suas habilidades, técnicas e competências. Felizmente, pelo que tenho lido nos últimos tempos, tem havido uma crescente preocupação com tratamentos e abordagens menos invasivas e agressivas e mais voltadas para proporcionar acolhimento adequado, conforto e bem-estar às criaturinhas que chegam ao mundo antes da hora.

Viver vale a pena, sempre. Eu não preferiria ter aberto mão da experiência vital, mesmo porque aquilo tudo ficou bem lá atrás, mas talvez sobreviver pudesse ter envolvido menos dor e sofrimento. Naquele tempo, acho que isto não teria sido possível, e sei que recebi o melhor que estava ao alcance. Por mais distante no tempo que esteja a minha experiência, é alentador saber que a neonatologia está indo além da garantia da sobrevivência física e tem cada vez mais voltando seus esforços para o alívio do desconforto, tensão e dor dos prematuros. Agradeço de coração, profundamente, qualquer esforço neste sentido.

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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Uma estrada de Natal a São Paulo


por Nina Madsen   ilustração Marcelo Martins Ferreira*

A história de Seu João foi um desses presentes inesperados que algumas corridas de taxi nos oferecem. Estava em Natal, a caminho do aeroporto para voltar para Brasília. Dirigindo o taxi, um senhor de mais de 60 anos, animado e falante, louco para me contar sua história. Ela foi se desdobrando no decorrer do longo caminho rumo ao novo aeroporto da cidade, noutra cidade – São Gonçalo do Amarante.

Seu João foi dirigindo e me contando que por ali nascera e vivera a infância. Naqueles tempos, a distância era ainda maior, não em chão, senão em horas e dificuldades de percurso. A cidade de sua infância era um vilarejo feito na areia e por ela João caminhava todos os dias, descalço, fazendo o caminho de casa para a escola, da escola para casa. A caminhada, tão longa quanto nosso trajeto de carro até o aeroporto, era ato de resistência e insistência – aquela mesma teimosia da qual já falei por aqui.

Pois Seu João era teimoso nisso de ir à escola. E teimoso também na ideia de fazer crescer seu mundo. De modo que aos dezessete anos, decidiu subir em um ônibus e tentar a vida em São Paulo, terra prometida de então, numa época em que a seca e a falta d’água eram chagas nordestinas exclusivas.

Disse que preparou a marmita na lata de leite e se foi. Logo no início da travessia, Seu João foi reconhecido por um primo distante que não via há muitos anos. Contou da sua corajosa aventura e recebeu do parente o endereço de seu irmão, que morava em São Paulo, e uma foto, para que ele pudesse ser identificado como família.

E seguiu viagem, certo de que em não mais que sete horas estaria na grande cidade. E eis que aquelas sete horas começaram a se multiplicar em dias – três no total – e João, faminto, sem tostão que fosse para enganar o vazio do corpo. Quando chegou a São Paulo, foi em busca da casa do parente. Quem abriu a porta foi a mulher do primo, que nem de longe conhecia Seu João. Mas ao olhar a foto do marido mais novo, deixou entrar o garoto, dando-lhe logo de comer. Ele me contou com detalhes o banquete de pão com manteiga e carne com que apaziguou sua fome. E como em seguida saiu para passear pela cidade, deparando-se com um cartaz de Precisa-se de cobrador, em frente à parada de ônibus. Apresentou-se. O motorista pediu que fizesse umas somas – ele era bom de matemática – e o contratou.

E Seu João assim se instalou em São Paulo. Casou-se, teve filhos e foi fazendo por lá a vida. Quando pôde, voltou para sua terra de origem. Seus filhos, hoje adultos, nunca precisaram caminhar descalços em chão de areia para ir à escola.

Seu João não me contou das desventuras que viveu por lá pelo sudeste. Não me contou das discriminações, do preconceito, do ódio. Não precisou. Eu imaginei mesmo assim.

A história dele era a de sua satisfação e de seu orgulho com a vida vivida. Orgulho que logo virou meu também, orgulho por tabela, orgulho por emoção. De ver gente assim, que acredita na vida em qualquer circunstância. Gente que sabe caminhar seu caminho, que entende que entre Natal e São Paulo é uma terra só (sempre bom lembrar...), toda pronta para ser desbravada. Por mais que nos digam o contrário.

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Nina Madsen escreve por gosto e necessidade desde que se lembra. Formada em Letras, caminhou pelos campos da educação até que se fez feminista e socióloga, por azar ou sorte. Integra o colegiado de gestão do Centro Feminista de Estudos e Assessoria, o CFEMEA, e colabora com a Universidade Livre Feminista. Aventura-se pelo avesso do mundo quinzenalmente, na coluna Crônicas do desmundo. *Desmundo aqui faz referência ao romance de Ana Miranda, uma lindeza literária que nos conduz pelas fronteiras entre o real e o onírico. Marcelo Martins Ferreira, ilustrador, design e músico, especial para o texto

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Recortado


por Júnia Puglia   ilustração Fernando Vianna*

O tempo roda e a gente, que mora longe, vai se esquecendo de que aqui nesta cidade aconteceu aquela tragédia. Num dia como outro qualquer, uma terça-feira, se não me engano, alguém entrou correndo no escritório falando que um avião de passageiros havia se chocado contra um enorme edifício de escritórios em Nova York. Ligamos a televisão da sala de reuniões e assistimos ao vivo, entre incrédulos e apavorados, o choque do segundo avião contra o segundo prédio, num episódio que já dispensa qualquer outro comentário ou descrição.

Um memorial foi construído no local exato do acontecido. Dois enormes tanques de água quadrados e idênticos, tendo ao fundo e ao centro outro quadrado menor, escuro e profundo, para dentro do qual jorra incessantemente a água, que parece brotar nas bordas e desce pelas paredes verticais. Nas bordas externas, ao longo de toda a volta deles, estão gravados, ou melhor, recortados em chapas metálicas, os nomes de todos os que foram ali imolados aos deuses e deusas que infestam e infelicitam o nosso mundo. Meu coração, apertado e acelerado ao mesmo tempo, passou o recibo da emoção de estar ali e do impacto causado por esse simbolismo genial, que tem água em movimento e o abismo sugando tudo.

Num contraponto virtuoso, igualmente capaz de tirar o fôlego, as colagens de Henri Matisse expostas no MoMA dialogam com o que de melhor pode haver dentro do peito de qualquer criatura viva. Experimente com a série “Véspera de Natal”, aí mesmo, na tela do seu computador.

Estranha e fascinante cidade, um enclave de tolerância e diversidade numa das portas de entrada de um jovem país puritano e obstinado em seu propósito de dominar o mundo. Caminhar por suas calçadas planas, impecáveis e intermináveis é toda uma experiência. Neste quesito, o destaque da semana foi a mulher elegante, que fazia uma pausa para escrever algo no teclado do celular, trazendo pela coleira um grande porco com ares cosmopolitas, como deve ser. Ambos muito compenetrados.

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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Obrigado ao menino do mato

Quando as aves falam com as pedras e as rãs com as águas - é de poesia que estão falando.

Manoel de Barros, o meu poeta preferido, foi-se neste dia 13 de novembro aos 97 anos na garupa de um bem-te-vi-cartola, a voar as miudezas e rir as ignoranças da gente toda. O menino do mato usou palavras de ave para escrever. E fez isso como ninguém. Como ninguém voou fora da asa.

O poeta nasceu em Corumbá, no Mato Grosso do Sul, em 1916, onde passou a infância. Rodou e em 1949 voltou ao Pantanal para tomar conta de uma fazenda que herdou do pai. Viveu em Nova York, Paris, Itália e Portugal. Aos 97 anos tem mais de 20 livros publicados e é considerado um dos poetas da língua portuguesa mais originais de todos os tempos. E o mais lido do Brasil.

Meu amigo Renato Pompeu, que também nos deixou esse ano, quando escreveu do lançamento da poesia completa de Manoel de Barros, há alguns anos, pontuou: "“Rosas de maio”, nome de canção gravada nos anos 1940 pelo grande Carlos Galhardo, é a frase que me ocorre para saudar o grande lançamento do mês: a “Poesia completa”, de mais de 490 páginas, do grande Manoel de Barros, volume lançado pela Leya, com capa dura e magníficas ilustrações coloridas." Um livro essencial.

Rosa de Maio
Carlos Galhardo

Rosa de Maio
É meu desejo
Mandar-te um beijo

Nesta canção...
Rosa de Maio...
Deste poema

Tu és o tema
E a inspiração
Rosa de Maio...

Já não consigo
Guardar comigo
Tanta paixão!
Rosa de Maio
Por qualquer preço
Eu te ofereço
Meu coração!

Obrigado poeta!

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Algumas poesias de Manoel de Barros

O livro sobre nada

É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.
Tudo que não invento é falso.
Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.
Tem mais presença em mim o que me falta.
Melhor jeito que achei pra me conhecer foi fazendo o contrário.
Sou muito preparado de conflitos.
Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou.
O meu amanhecer vai ser de noite.
Melhor que nomear é aludir. Verso não precisa dar noção.
O que sustenta a encantação de um verso (além do ritmo) é o ilogismo.
Meu avesso é mais visível do que um poste.
Sábio é o que adivinha.
Para ter mais certezas tenho que me saber de imperfeições.
A inércia é meu ato principal.
Não saio de dentro de mim nem pra pescar.
Sabedoria pode ser que seja estar uma árvore.
Estilo é um modelo anormal de expressão: é estigma.
Peixe não tem honras nem horizontes.
Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas quando não desejo contar nada, faço poesia.
Eu queria ser lido pelas pedras.
As palavras me escondem sem cuidado.
Aonde eu não estou as palavras me acham.
Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que são inventadas.
Uma palavra abriu o roupão pra mim. Ela deseja que eu a seja.
A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos.
Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos.
Esta tarefa de cessar é que puxa minhas frases para antes de mim.
Ateu é uma pessoa capaz de provar cientificamente que não é nada. Só se compara aos santos. Os santos querem ser os vermes de Deus.
Melhor para chegar a nada é descobrir a verdade.
O artista é erro da natureza. Beethoven foi um erro perfeito.
Por pudor sou impuro.
O branco me corrompe.
Não gosto de palavra acostumada.
A minha diferença é sempre menos.
Palavra poética tem que chegar ao grau de brinquedo para ser séria.
Não preciso do fim para chegar.
Do lugar onde estou já fui embora.

O apanhador de desperdícios

Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.

Retrato do artista quando coisa

A maior riqueza
do homem
é sua incompletude.
Nesse ponto
sou abastado.
Palavras que me aceitam
como sou
— eu não aceito.
Não aguento ser apenas
um sujeito que abre
portas, que puxa
válvulas, que olha o
relógio, que compra pão
às 6 da tarde, que vai
lá fora, que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai. Mas eu
preciso ser Outros.
Eu penso
renovar o homem
usando borboletas.

O fazedor de amanhecer

Sou leso em tratagens com máquina.
Tenho desapetite para inventar coisas prestáveis.
Em toda a minha vida só engenhei
3 máquinas
Como sejam:
Uma pequena manivela para pegar no sono.
Um fazedor de amanhecer
para usamentos de poetas
E um platinado de mandioca para o
fordeco de meu irmão.
Cheguei de ganhar um prêmio das indústrias
automobilísticas pelo Platinado de Mandioca.
Fui aclamado de idiota pela maioria
das autoridades na entrega do prêmio.
Pelo que fiquei um tanto soberbo.
E a glória entronizou-se para sempre
em minha existência.

Tratado geral das grandezas do ínfimo

A poesia está guardada nas palavras — é tudo que eu sei.
Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.
Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado.
Sou fraco para elogios.

Prefácio

Assim é que elas foram feitas (todas as coisas) —
sem nome.
Depois é que veio a harpa e a fêmea em pé.
Insetos errados de cor caíam no mar.
A voz se estendeu na direção da boca.
Caranguejos apertavam mangues.
Vendo que havia na terra
Dependimentos demais
E tarefas muitas —
Os homens começaram a roer unhas.
Ficou certo pois não
Que as moscas iriam iluminar
O silêncio das coisas anônimas.
Porém, vendo o Homem
Que as moscas não davam conta de iluminar o
Silêncio das coisas anônimas —
Passaram essa tarefa para os poetas.

Os deslimites da palavra

Ando muito completo de vazios.
Meu órgão de morrer me predomina.
Estou sem eternidades.
Não posso mais saber quando amanheço ontem.
Está rengo de mim o amanhecer.
Ouço o tamanho oblíquo de uma folha.
Atrás do ocaso fervem os insetos.
Enfiei o que pude dentro de um grilo o meu
destino.
Essas coisas me mudam para cisco.
A minha independência tem algemas

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Thiago Domenici, editor e coordenador do NR

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Uma final épica em Minas Gerais

por Pedro Mox*

No ano da Copa no Brasil, a final da Copa do Brasil promete parar novamente o país, colocando frente a frente Cruzeiro e Atlético-MG. Os motivos não são poucos. O primeiro é o fato de se tratar de um clássico. É apenas a segunda vez que dois times de uma mesma cidade se enfrentam na decisão da competição – a primeira foi em 2006, quando o Flamengo se sagrou campeão sobre o Vasco ganhando as duas partidas (2-0 e 0-1).

A forma pela qual o encontro foi desenhado também é especial: até 35 minutos do segundo tempo das semifinais, Flamengo e Santos decidiriam a competição. Foi quanto Willian anotou o tento cruzeirense; quatro minutos depois Luan fez o derradeiro e milagroso gol atleticano, concretizando a final mineira. Olhos de todos os cantos apontaram para Minas Gerais, a terra do futebol na atualidade – o que não é mero acaso.

Em 2013 a Libertadores e o Brasileiro ficaram por lá. Este ano ambas equipes mantiveram a base, coisa ainda não tão natural em nosso país, e boa parte dos que entrarão em campo nesta final já levantaram algum troféu com seu clube. A manutenção dos treinadores também merece destaque: Marcelo Oliveira fez belo trabalho à frente do Coritiba, foi demitido do Vasco em apenas dez partidas e hoje caminha para seu terceiro ano de Cruzeiro. No Atlético, após a permanência de Cuca entre 2011 e 2013, Levir Culpi teve o apoio necessário após a turbulenta eliminação da Libertadores (que causou a queda de Paulo Autuori).

A pré-temporada igualmente merece atenção: como o campeonato mineiro é enxuto (quem chega à final entra em campo 15 vezes), o tempo de preparação das equipes é maior. Paulistas e cariocas, por exemplo, fazem 19 jogos – o que, além de prejudicar o calendário, proporciona uma série enfadonha de partidas, como a modorrenta primeira fase do estadual de São Paulo.

Cruzeiro e Atlético são acostumados a decidir o estadual, já o fizeram em 19 campeonatos. Vantagem para a Raposa, que faturou 12 destes canecos. Em 2014, entretanto, o placar não saiu do 0-0, fazendo com que o Cruzeiro fosse campeão por ter a melhor campanha. Ano passado o Galo levou a melhor, ganhando no Independência por 3-0 e perdendo no Mineirão por 2-1. Em competições nacionais, todavia, é a primeira vez que o duelo acontece em uma final. Aliás, é somente a terceira vez que a dupla mineira se encontra em fases decisivas de torneios nacionais. O último encontro foi em 1999, pelas quartas de final do Brasileirão; duas vitórias do Galo (4-2 e 2-3) no Mineirão sobre o Cruzeiro então treinado por Levir Culpi, atual comandante alvinegro. Antes, pelo Brasileiro de 1986, dois empates (0-0 e 1-1), também pelas quartas, levaram o Atlético à semifinal.

Nos cinco clássicos promovidos em 2014, foram três empates sem gols no estadual e duas vitórias atleticanas no Brasileiro, 2-1 no Independência e 2-3 no Mineirão. O fator casa foi explorado pelos presidentes, e os dois duelos terão torcida visitante. É legítimo realizarem-se uma partida em cada campo, mas o que eu gostaria de ver é um Mineirão lotado, com 30 mil para cada lado, tal qual o clássico que lá assisti há alguns anos. É triste, muito triste, ser isso for coisa do passado, sobretudo pela nossa incapacidade de lidar e combater a violência no futebol. Resta torcer para que haja o mínimo de confusões possível, e que Belo horizonte nos brinde com mais um espetáculo futebolístico à altura que equipes e torcedores merecem. Com um cafezinho com pão de queijo para acompanhar.

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*Pedro Mox, jornalista e fotógrafo, especial para o NR
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