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“Florida,” 1970 Joel Meyerowitz/Howard Greenberg Gallery

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Foco


por Júnia Puglia   ilustração Fernando Vianna*

 A quantidade de informação produzida durante a última campanha eleitoral deu para deixar qualquer um desorientado. Não vou sequer tentar alinhavar tudo o foi dito, publicado, impresso, compartilhado, gravado, bisbilhotado, investigado, inventado, camuflado, enfeitado, exagerado, revelado e ocultado. Ao mesmo tempo em que muita gente se pergunta qual o sentido de tudo isto e se era realmente necessário, temos que lidar com o depois, a ressaca, os ressentimentos e desavenças, as mentiras, as cobranças, o alívio de uns e a frustração de outros.

Acontece que lá, bem no centro do redemoinho, permanecem os temas que exigem ser vistos, abordados e resolvidos. São muitos, mas nem sobre eles vou me deter. Qualquer pessoa que não tenha acabado de desembarcar de Marte os conhece, lá à sua maneira, e, de resto, já tem gente demais alugando nossos ouvidos e miolos com o rescaldo da campanha e do resultado das eleições. Para mal ou para bem, não sou dada a argumentos altruístas e mensagens edificantes. Apenas penso aqui com os meus botões algumas coisas que às vezes tenho vontade de compartilhar.

Tempos atrás, fui a uma festa de casamento nos arredores de Bruxelas. A animação ia já avançando pela fria madrugada. Como criatura diurna que sou, saí em busca de um transporte que me devolvesse ao quarto quente do hotel com sua boa cama, e consegui uma carona com o casal de fotógrafos, já dispensado da tarefa. Ele vietnamita, ela belga. No trajeto de quase uma hora, conversávamos sobre a Bélgica e a secular disputa entre flamengos e valões, que estava novamente em temperatura acima do recomendável. A questão, com viés separatista, envolve poder político e econômico, um lado reclamando que o outro tem privilégios, recebe mais atenção e investimentos e tem maior presença nos mecanismos de poder. Comentávamos, ele e eu, como nos soava absurdo, quase ridículo, que ali houvesse gente brigando por eventuais desequilíbrios na divisão do muito que há para ser desfrutado na Europa central, em termos de dinheiro, oportunidades, conforto e bem estar. Ele, então, disse: a única explicação que encontro para isto é que, quando não há grandes problemas a resolver ou enormes dificuldades a superar, as pessoas as inventam.

Nós aqui não precisamos procurar, nem inventar – como esse papo de país dividido, valhamedeus! E se de enfrentar problemas como motivação para a vida se trata, o nosso cardápio é extenso, e de tédio não morreremos. Expressar a nossa indignação e colocar energia para atacar ou defender candidatos na disputa democrática é apenas o começo. Seria um enorme adianto se, contentes ou contrariados com o quadro político, colocássemos toda essa vibração na busca e na cobrança das soluções de que tanto precisamos. Vambora ajustar o foco?

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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Rubens Paiva e seu otimismo contagiante

1964 + 50
Histórias de pessoas de carne e osso – e também de personagens de papel – que viveram na roda viva da ditadura militar. Episódios quinzenais toda quinta-feira.

(Episódio 18)


por Manuel Carvalheiro ilustração Fernando Carvall

Convivi com Rubens Paiva como Engenheiro nas obras da Paiva Construtora em Santos e como seu companheiro na ação Política.

A imagem que guardo do Rubens é de uma pessoa contente com a vida, com tudo que fazia, com a família, com a profissão, com a Ação Política. Dos relatos que tenho lido a seu respeito talvez falte uma referência maior a sua liderança na ação Política do Grupo que girava em seu torno e do qual faziam parte nomes como Almino Afonso e Gasparian. Mais do que um líder, era um coordenador e orientador das prioridades a fazer.

Todas as suas ações tinham como prioridade absoluta a defesa do interesse nacional. Como Engenheiro todos os projetos e obras dos quais participou sempre priorizaram a inovação e a melhor e mais moderna técnica existente.

Sempre teve como parceiros os melhores Arquitetos e Engenheiros, ajudou a introduzir no Brasil o uso do concreto protendido pagando o estágio de dois Engenheiros que foram estudar a técnica na França e ajudou financeiramente o primeiro técnico europeu que trouxe esta técnica para o Brasil.

Os prédios construídos pela sua firma em Santos tiveram inumeras inovações e todos tem na sua entrada obras de arte. Levava para suas atividades políticas e profissionais um otimismo contagiante. O Rubens que tenho na memória é o de alguém sempre otimista e contente com o que fazia.

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Manuel Carvalheiro, engenheiro, especial para o Nota de Rodapé. Fernando Carvall é o homem da arte.

sábado, 25 de outubro de 2014

Dilemas do transe eleitoral

por Daniel Guimarães*

Não sei vocês, mas estou contando as horas pra domingo chegar e acabar logo essa eleição. Não porque conversar sobre política seja ruim, acho o contrário, gostaria é de poder falar de política sempre, mas com menos contaminação da agenda de marketing eleitoral, com mais liberdade e tempo para debater as questões estruturais e conjunturais. Com mais paciência para trocar uma ideia, desde os fantasmas conservadores até a camarada mais radical à esquerda. Mas já que o Thiago foi irresponsável/generoso o suficiente para me convidar a escrever aqui neste espaço, acho que o mais honesto é manter a irresponsabilidade e expor, pelo menos na reta final, a formação do meu pensamento sobre o que a eleição representa. Dilemas sobre formas de atuação política, coletiva ou individualmente, sobre o tipo de sociedade desejável e possível, por exemplo. Aviso desde já que um dos meus objetivos nessas eleições é não perder nenhum amigo ou amiga, nenhum camarada e nenhuma camarada. Independente do que venha a acontecer, será necessário um grande esforço de unidade entre a esquerda para lidar com um Congresso mais conservador e com este verdadeiro transe da direita que parece ter saído das caixas de comentários dos portais, dos murais do Facebook e que chegou às ruas.

Aviso também que esse texto não foi feito pensando nas questões que os conservadores estão atravessando, nem para pensar sobre como a direita se relaciona com as instituições. Estas instituições foram desenhadas à imagem e semelhança dos vencedores desta etapa histórica mala que é o capitalismo. Neste pequeno texto penso a partir do lado esquerdo, em especial o lado esquerdo não institucional. No limite é um texto sobre como eu lido com este dilema, ok. Não irei dissecar a experiência petista no governo federal, nem defender uma proposta que se pretenda hegemônica para lidar com a questão. Estou dando um passo atrás e pensando na posição subjetiva diante do dilema, não em como resolvê-lo.

Acho prudente desde já deixar claro que minha perspectiva utópica de sociedade é uma sociedade sem classes, na qual os trabalhadores e as trabalhadoras tenham a posse dos meios de produção; em que as pessoas possam manifestar seus desejos, que as relações entre diferentes gerações não precisem reproduzir o modelo familiar nuclear ainda hegemônico, que haja equilíbrio nas relações entre gêneros, raças; e que a organização social e política produza formas substitutivas para o Estado, dando conta das tarefas de infraestrutura, segurança, justiça, distribuição da produção, mas sem a centralização e o autoritarismo deste, que acentuam a alienação política dos sujeitos. Com sorte isso nos conduziria a um tipo de cidade, de espaço, de subjetividade menos enclausurada. Talvez nos leve a uma circunstância em que a responsabilidade e a liberdade de decidir quais inibições são importantes para nossa vida em sociedade façam sentido a todos e todas.

O problema é que esta minha utopia talvez nunca venha a existir. Meus pensamentos não são tão poderosos a ponto de transformar e moldar a realidade e realizar a mágica de deslocar as relações estruturais da minha própria psique para o mundo exterior (Freud). Como parêntese, recomendo a leitura do terceiro capítulo de Totem e Tabu (Animismo, magia e onipotência do pensamento), o mito fundador freudiano da civilização – ponto de apoio para o cara pensar uma origem da nossa organização social, comparando-a a “estrutura” neurótica. Cito um trecho como aperitivo:

“A possibilidade de uma magia contagiosa baseada na associação por contiguidade nos mostra, então, que o valor psíquico atribuído ao desejo e à vontade estendeu-se a todos os atos psíquicos que se acham à disposição da vontade. Há uma superestimação geral dos processos anímicos, ou seja, uma atitude para com o mundo que, em vista do que sabemos sobre a relação entre realidade e pensamento, só pode nos parecer uma superestimação deste último. As coisas recuam para segundo plano ante as ideias das coisas; o que se faz a essas tem de suceder àquelas. As relações existentes entre as ideias são pressupostas igualmente entre as coisas. (...) Na época animista, a imagem reflexa do mundo interior torna invisível aquela outra imagem do mundo que acreditamos perceber. (...) O princípio diretor da magia, a técnica do modo de pensar animista, é o da ‘onipotência dos pensamentos’”.

Não bastasse o limite da minha própria capacidade de transformar utopia em realidade, ainda existem muitas outras utopias para ela se relacionar. Ainda bem, diga-se, porque nesta relação as minhas tiranias inconscientes teriam maior chance de serem inibidas. À minha utopia se somam/divergem as utopias dos meus camaradas mais próximos, da organização que pertenço, que por sua vez não é única organização no mundo. Ela também se relaciona com projetos de outros atores, aliados ou inimigos.

Por fim, todas essas utopias passarão necessariamente por um teste de realidade, terão de lidar com as forças que disputam o espaço, os recursos, as demandas objetivas e subjetivas. Nunca teremos certeza sobre o que serão os resultados das nossas ações, portanto desconfio sempre de quem apresenta planos que preveem o que será da sociedade se tomarmos certo tipo de decisão, se nos mantivermos fieis a determinada cartilha; desconfio dos projetos que não incluam no cálculo político as tramas da vida cotidiana – coisas que parecem insuficientes diante do projeto utópico de sociedade, mas que dão cor e sentido a este curto período da vida de uma pessoa: ter mais ou menos conforto, morar em condições melhores ou piores (ou pior, ter ou não um lugar para morar), ter ou não um pedaço de chão para plantar, poder se deslocar no espaço ou ficar restrito ao que a especulação imobiliária determina, poder ou não ter satisfações sexuais próximas dos seus desejos mais profundos, poder ou não fantasiar uma ocupação profissional interessante, poder ou não criar filhos e filhas em condições saudáveis e criativas; ter ou não ter acesso a cuidados de saúde física e psíquica, se alimentar bem ou mal (ou pior, ter ou não ter como se alimentar), ter ou não proteção diante de ataques ou estruturas machistas, ter ou não proteção diante de ataques ou estruturas racistas. A lista é extensa e considero pilar da esquerda esta solidariedade essencial à classe trabalhadora, aos dominados, excluídos. Fazer um exercício de não enxergar o povo como um objeto de experiências políticas, mas um objeto investido do nosso amor e, no limite, sujeito de sua própria existência, a quem não se deve negar o direito de fazer uso das conquistas que a beneficiem, mesmo que não sejam equivalentes ao “fim da história” revolucionário.

Ao mesmo tempo, desconfio de propostas de transformação que não passem pela organização política coletiva, que também vejam o povo como objeto de benefícios pelos quais deveriam ser gratos e transferir seu protagonismo para a vanguarda, para a liderança, para o partido, para um outro que saberá melhor como conduzir as coisas que dizem respeito a todas e todos. Discordo tanto por questões políticas como duvido de sua eficiência. A consistência das conquistas e das transformações passa pela consciência, mais do que pela aceitação. Diante de um ataque conservador contra estas mesmas conquistas, que resposta seria mais forte: a de quem as tem como suas, ou a de quem apenas as recebeu, com uma certa dose de alienação?

Por isso sempre optei pelo caminho da organização independente em coletivos e depois movimentos. Nunca fui filiado a partido e nunca serei. Não por ojeriza, mas por discordância da forma de organização hierárquica. Se pudesse escolher, gostaria que a maior parte da esquerda dedicasse seus esforços e tempo disponível para a construção dessas organizações independentes, porque são elas que terão liberdade de tocar sua luta sem estar subordinada à agenda eleitoral. Aliás, a gênese do Movimento Passe Livre (MPL) é essa. Foi necessário o rompimento de boa parte dos militantes que tocavam a Campanha pelo Passe Livre de Florianópolis (fundada em 2000 e fortemente vinculada a uma corrente de esquerda dentro do PT) para que se transformasse em um instrumento de luta para a juventude. Livre para organizar a si própria de acordo, exclusivamente, com os interesses de seus integrantes e, principalmente, da pauta que justificava sua existência. Obteve grandes vitórias e transformou-se no MPL, que se expandiu Brasil afora.

As eleições nos fazem retomar debates antigos: reforma ou revolução? Estar dentro ou estar fora? Não o repetirei. Para mim não são necessariamente excludentes. Assim com individualmente o Eu do sujeito necessita de certa elaboração até produzir desfechos diferentes para antigas inibições, também o corpo social não parece ser capaz de tolerar mudanças bruscas sem antes uma boa dose de pequenas modificações. Nesse sentido concordo com Freud quando argumenta, em A dissecção da personalidade psíquica, que traços inconscientes das gerações anteriores, a tradição, se reproduzem nas gerações vindouras. “Provavelmente as concepções históricas chamadas de materialistas pecam por subestimar esse fator. Elas o põem de lado com a observação de que as ‘ideologias’ dos homens nada mais são do que produto e superestrutura de suas relações econômicas atuais. Isso é verdade, mas muito provavelmente não é toda a verdade. A humanidade não vive inteiramente no presente; o passado, a tradição da raça e do povo prossegue vivendo nas ideologias do Super-eu, apenas muito lentamente cede às influências do presente, às novas mudanças, e, na medida em que atua através do Super-eu, desempenha um grande papel na vida humana, independentemente das condições econômicas”.

Uma interpretação certeira de um analista pode não fazer efeito algum para um paciente cujo Eu não esteja “pronto”, não tenha trabalhado o suficiente as condições para chegar por si só ao lugar onde o analista imagina estar um dos eixos do sofrimento. Faço aqui um paralelo entre política e psicanálise. A análise esclarecida das organizações mais críticas não será suficiente para superar marcas milenares, ou de pelo menos 500 anos, do psiquismo do povo brasileiro. Há um trabalho de elaboração até o sentido interno alcançar uma nova posição. Busco Noam Chomsky para expressar melhor o que estou tentando dizer, mais especificamente na sua “Teoria da Jaula”. Tomo emprestado de Felipe Corrêa uma boa definição sobre: “A sociedade contemporânea estaria trancafiada dentro de uma jaula. O objetivo daqueles compromissados com a luta pela liberdade, pela igualdade e contra a opressão deveria ser, portanto, aumentar o chão dessa jaula até que as barras se quebrem e que o povo pudesse se ver livre da opressão – da jaula, cerceadora de suas liberdades.” Nas palavras de Chomsky: “Minhas metas de curto prazo são defender e até mesmo reforçar elementos da autoridade do Estado que embora sejam ilegítimos de maneira fundamental, são decisivamente necessários neste momento para impedir os esforços dedicados a atacar os progressos que foram conseguidos na extensão da democracia e dos direitos humanos.”

Na entrevista Reforma e Revolução (que pode ser lida na íntegra aqui), publicada no Brasil no livro Notas Sobre o Anarquismo, Chomsky nos explica melhor o que pensa (a citação é longa, mas valiosa):

 “Os trabalhadores brasileiros tinham algumas escolhas. Uma delas era simplesmente se subordinar a um poder absolutamente brutal. A outra era tentar expandir, em alguma proporção, a estrutura na qual poderiam atuar, e, então, mudar e conseguir algo mais – reconhecendo que estavam numa jaula, o que significa um sistema de opressão. Ora, algum anarquista sério veria um problema sobre qual escolha fazer? Digo, você deveria permanecer sob um sistema de opressão muito mais duro, ao invés de conquistar alguns direitos, utilizando essas vitórias como base para algo além, descobrindo como são possíveis as vitórias, e continuar a partir disso? Eu acho que não. E nem acho que isso seja uma questão. Agora, uma lei sobre o salário mínimo digno é uma lei. Ela passa por alguma organização governamental. Por isso, é errado lutar pelo salário mínimo digno? Eu acho que não. De fato, lutar por esse salário é também um modo de fazer as pessoas entenderem: ‘Olhe, nós podemos vencer. Nós não temos que aceitar o que acontece conosco. Existem formas de agir. Podemos agir juntos e conquistar coisas.’ Isso nos leva à questão das alternativas. Podemos construir alternativas? Sim, se soubermos que é possível fazer alguma coisa. Se as únicas opções disponíveis forem simplesmente seguir as ordens sendo você mesmo, ou tentar distinguir da melhor forma possível num ambiente opressor, você também não estará criando alternativas.” 

Com a boa companhia de Chomsky, defendo que a luta independente pelo fortalecimento da esfera pública, de melhores condições de vida para os debaixo com protagonismo destes, não impede que tenhamos a clareza de que governos como os de um Aécio Neves (representante puro sangue da elite brasileira) não signifiquem o mesmo que o governo petista. Quanto mais próximos da utopia capitalista, pior estaremos. Um caminho bom, para mim, é a completa independência dos movimentos, com a habilidade de se relacionar (pela pressão e negociação por ampliação de direitos) com as instituições. Não é porque somos contra que elas deixarão de existir. Mas já estou saindo do tema. O que estou propondo é deslocar o significado das eleições. Não se trata de um plebiscito pela organização social ideal. Não se trata de uma afirmação de identidade de cada indivíduo. Não é um cheque em branco para ninguém. Para mim é puramente uma escolha entre formas de gerir o capital mais ou menos agressivas para os debaixo, os que realmente ficarão com o ônus desse resultado. Essa menor agressividade petista não significa que seja igualmente dividida entre todas as partes, é verdade, mas não deveríamos temer lidar com a contradição, ela é que nos move, coletiva e individualmente.

E as contradições deste governo não são poucas, para usar de eufemismo. Repressão aos movimentos sociais (ainda há petista que insista na patética tese de que junho de 2013 foi um movimento de direita, tucano, de perseguição ao governo!), aos povos indígenas e aos moradores das favelas, as demissões dos grevistas do IBGE; alianças com representantes do atraso, favorecimento ao agronegócio, à indústria do automóvel, forte inclinação do viés predatório-ambiental de desenvolvimento etc. Ao mesmo tempo foi o projeto de governo que barrou a Alca (imagino o desastre que viveríamos em especial após a crise de 2008), inverteu as relações diplomáticas e econômicas com ênfase na América Latina e África, permitiu a criação da Comissão da Verdade (cujos resultados serão fundamentais para a transformação da violência estrutural de interesse de classe do estado brasileiro), e produziu o pacto social “lulista” para tirar o Brasil do mapa da fome e incluir a parcela mais pobre da sociedade no mercado de consumo, para colocar parte da juventude pobre e negra na universidade, e sem entrar em conflito com o capital (sugestão: Lulismo, carisma pop e cultura anticrítica de Tales AbSaber, pela editora Hedra). Recomendo a leitura do texto de Luciana Oliveira, advogada que participou desde o início dos trabalhos de criação do Bolsa Família, do qual destaco um trecho aparentemente pouco significativo, mas forte demais: “O objetivo era claro, alcançar as famílias pobres, as excluídas por mais de 500 anos, as que nunca haviam sido, de fato, vistas por ninguém, as que nem “existiam” no mundo jurídico porque estavam alijadas até mesmo do processo de identificação de pessoas – muitas delas não tinham sequer certidão de nascimento.” (o texto na íntegra aqui).

Naturalmente não imagino nenhum dos conservadorismos da “era PT” sendo redesenhados de forma progressista em um retorno tucano. Pelo contrário, e não preciso mencionar a linha dura neoliberal do partido da burguesia puro sangue para convencê-los de que até mesmo as “poucas” melhorias de vida estariam sob risco. Retrocesso não é só uma palavra, o significado é real e pesará nas costas dos debaixo.

Diante deste cenário, que se encerra amanhã, alguns setores da esquerda não-petista decidiram por não apoiar a continuidade deste governo, outros decidiram apoiar com mais adesão, outros decidiram apoiar com menor adesão. Estou entre os dois últimos. Confesso que não consigo entrar no Transe Coração Valente, nem ceder parte do meu narcisismo e me identificar com o governo. Considero esta adesão acrítica nociva e permissiva para um projeto que, sem pressão pesada à esquerda, se venderá cada vez mais como algo que não é. Não estamos na utopia, não são esses os nossos sonhos de igualdade política, social e econômica. Adoraria que os militantes do voto se lançassem na militância também no período entre eleições. O perrengue que o PT passou nesta eleição tem relação direta com este abandono. Mas não quero dar ideia errada: se vierem pra luta, que não a burocratizem ou subordinem à agenda eleitoral. O movimento funciona melhor se estiver a serviço da vida.

Compreendo os setores que optam pelo voto nulo (e são diferentes os votos nulos, dos tradicionais anarquistas aos “marineiros”) tanto por não conseguirem aceitar a própria existência deste sistema ou pelos conservadorismos deste governo. Mas adoraria que pensassem em como isso pode parecer insensível diante daqueles que testemunharam melhores condições de vida. Será que isto ajuda a dialogar com a classe e criar relação de confiança? O “excesso” de solidariedade não pode parecer pouco caso? Essa impossibilidade de lidar com pragmatismo não revelaria também um traço sutil, inconsciente, de esperança por um governo não-degenerado, combativo e imune às correlações de força da “política grande”? O pessimismo completo com relação às transformações profundas via instituições é que impulsiona meu pragmatismo.

Não acredito que os não-petistas que torçam, como eu, pela vitória de Dilma, sejam favoráveis às contradições acima exemplificadas, assim como não acredito que “marineiros” de esquerda defenderiam pra valer a política econômica neoliberal do que seria o governo dela caso eleita. Prefiro acreditar que estes dois grupos venham a trabalhar juntos nas lutas pelas pautas populares, as reformas urbana e agrária popular, a democratização dos meios de comunicação, a revisão da Anistia para os torturadores e responsáveis pelos anos de chumbo, as demarcações de terras indígenas, ampliação dos direitos trabalhistas etc. Ficar demasiado preso a posições obsessivamente coerentes pode engessar o indivíduo, tornar o sujeito ativo num ambiente político radical, mas endógeno, hermético, pouco saudável além de tudo.

Aos petistas puro sangue recomendo uma “reciclagem” política. A denegação do fenômeno de junho de 2013 é absolutamente sintomática. Para começar, essa verdadeira miopia faz com que o partido não consiga compreender como aquele processo é fruto das transformações reais que empreendeu (pequenas, do ponto de vista do longo prazo e enormes, do ponto de vista do cotidiano, do tempo presente). Mexeu com a estrutura de classes no país, expôs muitas contradições. Ainda não deu tempo para que surjam novas sínteses, novas referências sobre como viver num Brasil diferente do que estávamos habituados. Meu receio é que diante de um cenário de incertezas, as forças políticas de esquerda radicais ou institucionais não estejam conseguindo oferecer respostas, apontar caminhos. Não desejo o fim do PT, gostaria que os espaços de poder político fossem ocupados por pessoas mais à esquerda. Acho que o PT tem uma responsabilidade imensa de, ao tirar boa parte do país da miséria e da fome, oferecer não apenas a saída das soluções individuais, de consumo, do estilo de vida pequeno burguês pouco generoso. É preciso disputar também os corações da “nova classe média”, com um ideal mais coletivo, menos competitivo, menos aberto para o transe de direita, essa loucura que não é apenas antipetista, mas antiesquerdista, antipopular, violenta e protofascista, extremamente regredida.

Além disso, é fundamental que desta reciclagem saia uma auto-crítica sobre como o partido perdeu (e isso é bom) a hegemonia sobre a esquerda. Aí estão o MPL, os garis do Rio de Janeiro, a luta indígena, os motoristas e cobradores de São Paulo. Junho de 2013 teve como legado a redução das passagens de ônibus em quase 200 cidades brasileiras, num montante de economia para a classe trabalhadora perto do valor de um ano de Bolsa Família, mas também o incentivo a trabalhadores e trabalhadoras a se organizar independente das direções de seus sindicatos, por exemplo. Uma cultura de luta dos debaixo se abriu no país, depois de sei lá quantos anos. Irão ignorar isso e arriscar perder ainda mais terreno aqui no chão?

O dia 26 de outubro de 2014 me faz pensar numa curiosa ironia. Foi num dia 26 de outubro, há dez anos, que o Movimento Passe Livre ocupou a Câmara dos Vereadores de Florianópolis para arrancar a aprovação da Lei do Passe Livre Estudantil (pauta principal do MPL antes de adotarmos a tarifa zero). Diante da ameaça dos vereadores em não votar o projeto, preparamos camisetas com a sugestiva pergunta: “Votação ou Revolução?” O projeto foi aprovado. Meses depois, com uma nova prefeitura conservadora, a Lei do Passe Livre foi derrubada pelos seus aliados no judiciário. Saudades de 26 de outubro de 2004. Que passe logo o 26 de outubro de 2014.

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Daniel Guimarães: Florianopolitano exilado em São Paulo, ex-jornalista em atividade. Anti-editor do site TarifaZero.org e integrante do Movimento Passe Livre. Acompanhante Terapêutico, estudando para ser psicanalista e, principalmente, acima de tudo Rubro Negro. Esse texto é a estreia de sua coluna mensal intitulada EM TRANSE

Desse vermelho

por Aleksander Aguilar*

Não me diga que conheces esta cor.
Se queres vista-a, calce-a, enrola-te em bandeira,
faça fotos, poses e publique-as na rede com essa cor que pretendes,
cobre-te o calvo pelas conveniências que te esgueiras.
Mas não te atrevas a dizer que a conheces.
Porque é sangue, poeira da terra, queimadura do sol, queimadura de gelo, vergonha, digna raiva.
É tudo o que ouvistes contar, e não entendes.
É triste hoje te ver pela rua
com essa estrela que em ti não brilha, decora; essa cor que em ti é fantasia, revolta.
Fiques certo: essa cor que vestes, assim, é quase escárnio.
Essa cor que vestes não é tua.

Primeira coisa: “Voto na Dilma é veto contra o Aécio”, parafraseando o deputado federal Marcelo Freixo (Psol). Um mote que deve ser levado muito a sério na atual conjuntura, mas sem descuidar da reflexão cuidadosa que se exige sobre esta eleição 2014 no Brasil – a mais disputada e interessante dos últimos anos, de forma a amenizar os perigos do maniqueísmo construído na narrativa desse pleito e a falta de juízo crítico diante das estripulias, digamos assim, do Partido dos Trabalhadores (PT).

“Tá serto”, PT. Votaremos em vocês outra vez, mas entenda este voto-veto como um marco, definitivo, porque também é preciso humildade para o reconhecimento e autocrítica para a ação. A esquerda do país, mesmo a de discernimento e principalmente a deslumbrada, fisiológica ou acrítica, considera que o senador Aécio Neves (PSDB) na condução do Estado hoje representaria um dos maiores retrocessos da história da república brasileira, e por isso, pese a existência e o fundamento da campanha pelo voto nulo, há uma aliança tácita entre alguns, e barulhenta entre muitos, para apoiar mais um mandato petista, em que se cria uma atmosfera de terror maniqueísta, supostamente justificada, novamente, pela urgência eleitoral, que tergiversa nossa conjuntura. No entanto, a realidade deve ser, inadiavelmente, pontuada de forma assertiva e clara.

Felizmente entre os críticos esse apoio não se dá sem polêmicas ou desconfianças, algo que se entende observando três grandes traços do pleito e da dinâmica política do país que se arrasta há anos sobre os quais podemos apontar:

1- O crescimento da direita e da bancada ruralista no congresso nacional no primeiro turno – a chamada Frente Parlamentar da Agroindústria, como aponta o professor Nildo Ourique, da UFSC, tem hoje 257 deputados e senadores, metade do parlamento, e está comprometida com as estruturas atrasadas da propriedade da terra e do latifúndio. Um quadro conservador que fez relevo e expressa os extraordinários benefícios que esse setor obteve nos governos petistas, notoriamente amarrado a suas contradições. Ao ponto de uma das principais lideranças desse grupo, a senadora Katia Abreu (PMDB), figura notória da direita do país, ter declarado apoio a Dilma, além, claro, do apoio de outros personagens esdrúxulos da política brasileira, como Fernando Collor, ex-presidente por impeachment, que nunca deveria ter saído do ostracismo, mas que o PT acolhe sob a empáfia retórica do aclamado pragmatismo político.

2- O discurso entre o bem e o mal – o maniqueísmo com que foi construída a narrativa do processo eleitoral, supostamente representado, respectivamente, pelo PT e pelo PSDB, que ignora, convenientemente, as bizarras contradições políticas, principalmente petistas, e a difusão ideológica que caracteriza os partidos políticos brasileiros atualmente, encarcerados, com gosto ou não, pela pressão da governabilidade. Essa é uma reflexão fundamental para evitar o voto acrítico em Dilma, impulsionado pela retórica dos militantes, ou dependentes, do partido que propositalmente deixam de lembrar que o atual modelo não consegue fugir da equação que associa qualidade de vida e crescimento econômico segundo a lógica do capital.

3- Os atuais desafios do PT e da esquerda – ganhando ou perdendo estas eleições, o PT terá que se reavaliar. Durante vários anos os governos do PT tiveram índices elevados de popularidade, e houve acomodação do partido. Depois das “jornadas de junho de 2013”, o quadro se alterou, deixando várias perguntas em aberto e tensão no debate eleitoral. Se ganhar, o partido será pressionado a não mais se contentar com sua ortodoxia econômica com alguma preocupação social, e deverá avaliar seus compromissos com a classe trabalhadora, deverá se esforçar mais para sair do modelo de capitalismo de mercado. Se perder, haverá uma interessante e pesada avaliação do seu papel, e erros, na experiência democrática brasileira com importante repercussões na reorganização das forças políticas de esquerda do país.

OS PROJETOS EM DISPUTA  – Mesmo considerando essas generalizações, pode-se ainda afirmar que há, guardadas suas grandes e inegáveis semelhanças, dois projetos brasileiros em disputa: um social-desenvolvementista, baseado em alguma preocupação com inclusão social e distribuição de renda; e outro neoliberal, baseado em ajuste fiscal, redução do papel do Estado e radicalização do tripé macroeconômico liberal (meta de inflação, superávit fiscal e câmbio flutuante).

O primeiro projeto é incompatível em larga medida com o modelo macroeconômico exercido pelo PT, que é, essencialmente, o mesmo desde o governo Fernando Henrique Cardoso. De modo que o PT, aferrado a sua tese de gradualismo, usa, em uma forma especifica, o mesmo slogan de governos autoritários do passado do Brasil de “ transformação lenta e gradual”, agora, porém, em lugar do objetivo de democratizar as instituições nacionais sem afetar a ordem nem apontar culpados, busca avançar em políticas públicas que favoreçam os mais pobres, mas mantendo e ampliando o poder do capital.

O Partido dos Trabalhadores em 12 anos de governo sequer tentou mudar os marcos institucionais e constitucionais dos governos neoliberais que o antecederam – a exemplo do que fizeram outras nações latino-americanas com governos progressistas – e se contentou em fazer o que chama de “governo do possível”. Mesmo com a retórica progressista, o PT nunca prescindiu do capital transnacional que lhe dá suporte e acesso a mercados, e em troca o Estado facilita créditos e recursos a grandes empresas em detrimento de investimento social, algo que Frei Betto chamou de “processo exportador-extorsivo”. Esses recursos são de ordem energética, agrária e financeira e caracteriza a contradição desse modelo neodesenvolvementista que, ao fim e ao cabo, anula as diferenças estruturais entre esquerda e direita, fazendo com que o chamado processo pós-neoliberal, em tese em curso, aceite a hegemonia capitalista. Mas o segundo projeto, representado por Neves, é ainda pior, porque a economia funcionará atendendo ainda mais os interesses do capitalismo financeiro, diminuindo, por exemplo, o papel dos bancos públicos no funcionamento da infraestrutura social em favor de bancos privados. O condicionamento fiscal que se dará para atender promessas de redução da meta de inflação restringirá o gasto público em políticas sociais, gerando desemprego e recessão, aumentando as desigualdades. E as desigualdades são o centro nevrálgico dos problemas de um Brasil que não precisa focar em fazer mais riquezas, senão distribuir a existente, radicalmente.

CAMINHOS DA JUSTIÇA SOCIAL – Para realmente mover-se em direção a um futuro focado na libertação dos nossos povos e na conquista de uma sociedade pós-capitalista verdadeiramente emancipada, dois pressupostos básicos sãos necessários: separar crescimento de igualdade e reinventar a democracia. O primeiro exige superar o estruturalismo econômico, ir além dos instrumentos econômicos tradicionais que, por vezes, quando combinados com vontade política, permitem redução de assimetrias. A luta por igualdade não pode depender de crescimento econômico, porque crescer hoje significa aumentar também o uso de energias poluidoras, como petróleo e carvão, que está concretamente extinguindo o planeta. O crescimento não é infinito porque os recursos e o planeta são finitos. O crescimento, sem ser pensando criticamente, produz e reproduz pobreza. De forma que a transição social é inseparável da transição ecológica.

As desigualdades aumentaram em todo o mundo nos últimos 30 anos com a hegemonia neoliberal, e esse tipo de capitalismo destruiu a capacidade humana de viver como iguais, e força-nos a viver como consumidores. O neoliberalismo destrói nossas liberdades e nos deixa refém de um sistema financeiro que capta a renda produzido pelo trabalho. Igualdade já não pode ser entendida apenas como uma questão de distribuição de riquezas, mas como uma filosofia de ação social, como afirma o intelectual francês Pierre Rosanvallon.

O segundo pensa a democracia, como regime, que tem progredido em todo o mundo, mas degradando-se como forma de vida em sociedade. Ou seja, cresce o sufrágio universal e a liberdade liberal, mas se retrai a ideia de bem-viver comum. A democracia liberal foi capturada pelo poder econômico e distanciou-se da cidadania. A democracia está descolada das aspirações da sociedade e, no caso do Brasil, o sistema eleitoral vigente impõem um presidencialismo de coalizão que gera alianças de interesses fisiológicos, e degradação ideológica, portanto descolada de real emancipação social, em nome da governabilidade. A reforma política, assim, é um tema essencial desta eleição brasileira porque nos dá uma chance, mesmo que institucional, de “democratizar a democracia”, que deveria passar não apenas por tópicos eleitorais, mas por aumento da participação cidadã na gestão pública, garantia do acesso público à informação, extinção do Senado, reavaliação do sentido de representação e discussão da relação justiça versus controle democrático.

UM CRITÉRIO CLARO – Entre o jogo das semelhanças/diferenças, o projeto de política externa é o que deixa mais claro marcações entre Dilma Roussef e Aécio Neves. Enquanto a maioria dos analistas internacionais sérios defendem a continuidade da integração latino-americana que o Brasil promoveu na última década, o programa de Aécio fala em “flexibilizar o Mercosul”, ou seja, atacar uma das mais importantes iniciativas de integração na América do Sul, e que não se limita ao comércio.

O PSDB, defendendo a velha lógica da integração apenas pela via comercial, quer se alinhar com a Aliança do Pacífico, de países com governos atualmente de orientação conservadora, e regressar ao alinhamento assujeitado às potências tradicionais como Estados Unidos, Japão e União Europeia, que não deixa margem para o questionamento da arquitetura internacional, que deve fortalecer os relacionamentos Sul-Sul. O Brasil precisa aprofundar o seu compromisso político e econômico com a região e sua presença no Sul Global e não ignorar as relações Norte-Sul, relacionar-se com esses países como igual.

Já o PT pretende avançar na projeção internacional “ativa e altiva”, como definiu certa vez o ministro Celso Amorim, e isso se expressa na promoção de uma identidade terceiro-mundista, mas com participação entre grandes atores emergentes, como o BRICS, a defesa do multipolarismo, a reforma do multilateralismo, a ênfase na Unasul e na Celac – opções contra as quais o PSDB e seus seguidores se manifesta reiteradamente.

AVANÇAR É SUPERAR  –De modo que há hoje no Brasil, mais do que nunca, uma disputa entre elites, com a diferença que no PT, por conta do seu DNA, ainda há quem queira continuar expandindo salários reais, direitos sociais e bens públicos, enquanto que o PSDB considera que o “peso” democrático gera irracionalidades econômicas que acabam prejudicando o cidadão.

Um dos grandes traços problemáticos é que governo viável, segundo o que as lideranças petistas e seus seguidores não cansam de repetir e executar, só se dá quando assentado nessa ladainha monotemática que celebra o “pragmatismo”, e a “governabilidade”, relevando, propositalmente, sua indisposição para que o parâmetro da universalização da cidadania que, a melhor juízo, tentam promover, não fosse apenas o do cidadão-consumidor, que acaba introduzindo na sociedade valores de mercantilização de diversas dimensões da vida e da natureza e, em última análise, reforçando o conservadorismo. Concretamente é isso o que ocorre hoje, em lugar de projetar alternativas ao capitalismo, em largo prazo e, em curto prazo, ao menos combinar certas medidas inegavelmente assistencialistas em vigência – necessárias porque urgentes – com processos de formação e organização políticas que evitassem a acusação de má-fé com a criação de redutos eleitorais que reforçam esse ciclo vicioso.

Na lógica histórica da esquerda latino-americana nunca se materializou a ideia de superação etapista do capitalismo. Essa suposta realidade de hoje exige muito cuidado para impedir que os avanços, tímidos mas reais, sejam revertidos pela restauração conservadora e para que a desesperança não se imponha definitiva e irreversivelmente. O PT, como governo, tem mais uma oportunidade de fazer valer o seu vermelho, mas o desafio também abrange outros partidos e movimentos sociais, no jogo da pressão, e comprometidos com a ampliação da nossa imaginação emancipatória.

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Aleksander Aguilar é jornalista, doutorando em Ciência Política e Relações Internacionais, candidato a escritor, e viajante à Ítaca, especial para o Nota de Rodapé

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Os motoristas e a família negra de carroceiros

por Cidinha da Silva*

A eleição de 2014 me teletransportou para a de 1989 por motivos pessoais e pelo que vi nas ruas. No primeiro plano, me senti compelida a apresentar minha alma e armas petistas, mais do que dilmísticas apenas. Além de garantir direitos e conquistas fundamentais via reeleição da Presidenta Dilma, não admito que queiram me coagir com falácias e discursos marqueteiros de "mudança", contrários aos princípios e valores que me orientam. Assim, os mandatários de sempre tentaram pongar nas manifestações de junho 2013, mas deram com os burros n'água.

Tenho um lado, sempre tive. Esses discursos ufanistas e acríticos de "união de todos" (venham de quem vierem) nunca ecoaram em meus ouvidos. A mim não é possível o argumento semi-ingênuo de que a diferença entre Aécio e Dilma, é que o primeiro é mais sorridente e um pouco mais liberal. Não, não é possível. Aécio é a velha raposa mimada que nunca arrumou a própria cama, foi alimentada com os melhores iogurtes, filé mignon, ovas de peixe e muita coisa inominável nas baladas, protegido por carteira falsificada de policial civil. Não suporto disputa política sem argumentos. Eu os tinha, os tenho e me vi motivada a colocá-los para jogo.

No plano da ação coletiva, eu e tantos milhões de pessoas quisemos sair às ruas e engrossamos fileiras do batalhão que experienciou mudanças positivas concretas no país desde que o governo dos trabalhadores foi eleito. Mudanças pelas quais muita gente morreu, foi torturada, desapareceu, enlouqueceu e nós, de diferentes gerações, também lutamos, sobrevivemos e cá estamos vivendo num país menos desigual e vislumbramos o aprofundamento das mudanças necessárias, a principal delas, a concretização de uma política de estado de combate ao racismo. Quisemos mostrar que sonhamos, mas temos juízo!

Quem é pobre e nasceu em 1989, provavelmente está concluindo a universidade pelo PROUNI, pelas cotas raciais, em 2014. Teve pais preocupados em não perder o emprego, em comprar quantidades significativas (dentro do orçamento limitado) dos produtos que estivessem em oferta no supermercado. Hoje, a preocupação deles é com o desempenho dos filhos no vestibular. Preocupam-se também em voltar a estudar porque querem acompanhar os filhos universitários, querem continuar a aprender e o cotidiano da universidade tornou-se papo frequente das famílias isentas de declaração de imposto de renda.

Diferente de 1989, vejo em 2014 um mosaico de pessoas negras defendendo conquistas sociais, das quais são beneficiárias diretas. Não só as que estão nas universidades, cada vez mais, compostas por trabalhadoras-estudantes, mas também aquelas que estão defendendo as conquistas desfrutadas pelos filhos e netos. É tão bonito vê-los conscientes de que este país é deles, lhes pertence, lhes deve uma vida melhor e os primeiros passos nessa direção estão sendo dados.

As pessoas que estão em cena, desempenhando papel protagonista, são gente como o motorista negro que abandona o ônibus no trânsito engarrafado pela manifestação política pró-Dilma no Recife velho, escala as janelas do coletivo até o teto, veste uma bandeira vermelha sobre o uniforme da empresa de transporte urbano e grita: eu faço faculdade pelo PROUNI! E a multidão aplaude o super-homem. Na Cinelândia, outro motorista faz o mesmo. Na Faria Lima, em São Paulo, o terceiro motorista negro entro em ação. Enquanto observa a passeata do PSDB transcorrendo em um dos centros comerciais mais ricos e ostentatórios da América Latina, cruza os braços sobre o volante e perscruta as centenas de pessoas. Vê um jornalista tomando notas e puxa conversa com ele: boa noite jovem jornalista! Ainda não, amigo, responde o rapaz, sou estagiário. É isso mesmo, já está se preparando. Mas me diga uma coisa, jovem, tá vendo algum preto aí nessa passeata? Quase nenhum! E pobre, gente com cara de pobre, roupa de pobre, tá vendo? Quase nada também, dois ou três. Pois eles estão ali, moço (aponta com os lábios para o ponto de ônibus lotado), estão ali detonados pela exploração diária, esperando essa porcaria de ônibus enquanto os patrões desfilam de terno, chamam a Presidenta de vaca e dão vivas à polícia me mata a juventude negra na periferia das cidades. As patroas? Olha lá, ostentam joias cercadas por guarda-costas e carregam aqueles cachorrinhos-quase-gente no colo. É ridículo! Só falta a espuma do banho de champanhe para fechar a festa.

Mais à frente, ainda em São Paulo, no Largo da Batata, passa um carrão daqueles que não sei o nome com uma placa enorme "Fora Dilma!" Ao lado dele, uma carroça puxada por um cavalo esquálido carrega três pessoas negras, uma mulher, um homem e uma criança. São magros, não parecem ter muita comida disponível, mas não têm a cara da fome. Vestem-se de maneira simples, mas as roupas estão inteiras, devem ser catadores de material reciclável. São portadores de uma tristeza curtida, como couro velho que de tanto apanhar fica maleável à dor. Estão cansados, foram 115 anos da Lei Áurea ao Programa Bolsa-Família, mais dez anos para chegar à PEC das Domésticas, em 2013. Na parte de trás da carroça, bem discreto, vejo um adesivo, "Dilma 13!" A esperança deles me contagia. Seremos maioria política e eu que já vi tanta mudança, viverei para ver essa.

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escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna semanal Dublê de Ogum.
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