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Um jovem colono israelense no Vale do Jordão, perto da Cisjordânia (European Pressphoto)

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Roupa nova


por Júnia Puglia    ilustração Fernando Vianna

Acontecia uma ou duas vezes por ano e era um assunto muito sério, restrito a formaturas, casamentos ou grandes eventos religiosos. Em qualquer caso, "roupas feitas" (aquelas compradas prontas nas lojas) ainda eram raras e caríssimas, muito além das nossas possibilidades. Tudo o que nos cobria era produzido pelas costureiras da vizinhança ou por nossas mães e avós, até mesmo pijamas, calcinhas e cuecas. Ninguém perguntava às crianças o que queriam ou gostariam de vestir. O que saísse das máquinas movidas a pedaladas era vestido, geralmente nos maiores, e depois repassado a irmãs e irmãos menores, primas, vizinhos e uma enorme cadeia de aproveitamento, pois tudo era usado até acabar.

Com os sapatos era a mesma coisa, com a diferença de que, não podendo ser feitos em casa, eram recebidos e repassados entre a mesma cadeia ou, com muito menor frequência, comprados. Os novos eram reservados para as principais ocasiões e calçados com reverência. Pequenos acidentes resultavam de caminhar com os olhos fixos neles. Os da formatura da quarta série, de verniz em duas cores, branco e cinza, ocupam um lugar de destaque na memória afetiva.

Num certo verão, nossa tia nos levou, minha irmã e eu, a uma loja que acabara de receber uma grande novidade: sandálias de dedo feitas de borracha colorida azul, amarela ou verde, com solado branco na face em contato com os pés. Cada uma de nós ganhou um par, e até pudemos escolher a cor. Recebemos nossas primeiras havaianas dentro de sacos plásticos amarrados com barbante colorido, fascinadas, de longe o acontecimento mais importante daquelas férias.

Também ficou gravado na minha biografia o episódio do vestido pesado, de veludo vermelho, herdado de uma prima, que maravilhou mãe e tias, mas que eu detestei completamente. Além de a textura do veludo me ser insuportável, dentro dele eu ficava parecendo a gata borralheira numa roupa das meio-irmãs ricas. Recusei-me terminantemente a usá-lo, para enorme decepção das adultas.

Elas ainda nem desconfiavam, mas eu começava a odiar as roupas que me eram destinadas. Queria poder escolher e, entre as minhas preferências, não havia lugar para os invariáveis modelos desmilinguidos, lambidos, cheios de flores, rendas, fitas e laçarotes. Eu olhava comprido para algumas roupas nas vitrines das lojas, nas telenovelas e nas revistas, pois me pareciam cheias de personalidade e capazes de refletir algo ainda indefinível, que se tornaria para mim uma obsessão: liberdade, ou aquilo que para mim mais se parecesse com ela. Era eu começando a pensar em agir como eu mesma. Terremotos se seguiram.

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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Num piscar de olhos

Passados os 50 anos do golpe militar a coluna 1964+50 segue firme em 2015, mas agora com novo título: VIVOS. Afinal, mortos e desaparecidos estão vivos na nossa memória e na nossa história.


por Fernanda Pompeu ilustrações Fernando Carvall

Aurora Maria Nascimento Furtado
Nascimento: 17 de junho de 1946
Cidade natal: São Paulo - SP
Morte: 10 de novembro de 1972
Cidade final: Rio de Janeiro - RJ
Causa da morte: tortura

O que você faz com 26 anos? No mínimo, imagina ter o mundo nas mãos. Acrescente ao cenário uma ditadura militar na fase mais feroz. Acrescente ser militante de uma organização que acreditava que só balas poderiam deter outras balas. Aurora Maria, a Lola, foi parada por uma Patrulha da Invernada de Olaria. Ela estava embaixo de uma ponte do subúrbio carioca. Houve um tiroteiro e a moça matou um policial, dando cobertura para a fuga de seu companheiro. Saiu correndo, mas acabou pega. Foi torturada até a morte. Seu crânio foi lentamente esmagado por uma fita de aço que se aperta gradativamente. O torniquete é conhecido como Coroa de Cristo.

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Fernanda Pompeu é a mulher do texto. Fernando Carvall é o homem da arte.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

O Galeano morreu e isso é uma merda enorme


por Ricardo Viel, de Lisboa

Era começo de 2004. Entre vinho e churrasco planejávamos uma improvável viagem a Argentina, até que Fernando disse: “E antes passamos pelo Uruguai para entrevistar o Galeano”. Todos achamos graça, menos ele. Falava sério. “O povo da Caros [Amigos] tem o contato dele, vou tentar”. Uns meses depois estávamos sentados no Café Brasilero, em Montevidéu, diante de Eduardo Galeano.

Pode soar exagerado, mas aquela conversa e aquela viagem mudaram a minha vida. Foi ali, e também por insistência do Fernando, que comecei a pensar que talvez eu poderia me dedicar ao jornalismo. Provavelmente, eu seria um péssimo advogado mesmo, mas ser jornalista se tornou um horizonte real.

As lembranças daqueles dias são confusas, embaralhadas. São, provavelmente, um acumulado das versões que fui contando, ao longo do tempo, sobre essa nossa viagem e essa nossa entrevista. Não tem importância nenhuma. O que importa é que guardo a recordação de um Galeano amável e gentil, que nos encheu de boas histórias e de afeto. Era uma entrevista, mas era sobre tudo um grupo (éramos quatro) a fazer perguntas a um escritor que admirávamos – e não há mal nenhum nisso porque nunca acreditamos que o jornalista pode ou deve ser imparcial.

“Como dicen los mexicanos, nos estamos viendo", foi o que ele, nessa primeira vez, disse ao se despedir da gente. E nos vimos, meses depois, em Curitiba. Mais abraços e palavras bonitas. E ainda o vimos uma vez mais, em Porto Alegre, naquele janeiro de 2005 que nos fez acreditar que o outro mundo estava mesmo muito próximo.

Eduardo Galeano continuou conosco. Nas muitas vezes que falamos sobre aquela entrevista; nos seus livros, que lemos e relemos; nos textos que mandamos aos nossos amigos e amadas. Nas lembranças, nas muitas lembranças.

Galeano foi uma espécie de embaixador dessa sonhada república da América Latina livre de fronteiras e preconceitos, esse espaço que alguns de nós – que muitos de nós – acreditamos ser possível de construir. Ensinou-nos a amar esse continente tão maravilhoso e desgraçado; mostrou-nos que a indignação não é incompatível com a poesia, o sonho e a beleza. Fez-nos enxergar o encanto das pequenas coisas e ver que as histórias banais, dos esquecidos (os ninguéns, os que custam menos que a bala que os mata), podem ser mais interessantes e grandiosas que a história oficial. Escreveu sobre futebol de maneira única, e disse o que todos nós tentamos dizer e não conseguimos.

A minha geração, a dos Fóruns Sociais Mundiais de Porto Alegre, teve Galeano como um de seus grandes porta-vozes. Com beleza e ternura – e com aquela capacidade de síntese invejável – ele expressou o que sentíamos, as nossas dores e amores.

Quando Saramago morreu – outro dos nossos mentores intelectuais –, Galeano disse que suas palavras continuariam vivas por meio dos seus livros, e isso era uma maneira de existir. Agora, chegou a vez do uruguaio partir. Os livros respiram, ele dizia. Seus livros continuarão respirando enquanto nós estivermos por aqui, enquanto tivermos a curiosidade de aproxima-los aos ouvidos, para escuta-los, e senti-los.

Tudo isso é verdade, mas também é verdade que a presença física, esse abraço que possivelmente nunca aconteceria (ou se repetiria), mas que poderia um dia acontecer, já nunca mais virá. Já não será possível dizer obrigado, pedir-lhe um autógrafo, ou escutá-lo falar as belezas que o caracterizam. Seus livros ainda respiram, e é esse o único conforto que resta num momento tão triste. Benedetti, Saramago, Gelman, Gabo e Galeano. São muitas mortes em pouco tempo. Muitas perdas para administrar. Certa vez perguntaram ao Luis Fernando Verissimo o que ele pensava sobre a morte. “É uma sacanagem, sou contra”, rebateu certeiro. Somos todos contra, Verissimo, ainda mais quando se trata da morte de uma figura como Galeano.

“Foi-se o Eduardo Galeano, que bosta”, escrevi ao Fernando assim que soube. Depois, já à flor da pele com a notícia, o agradeci por ter me empurrado para o jornalismo. Mas é isso, o resumo da história é este: o Galeano morreu e isso é uma merda enorme, uma sacanagem gigantesca.

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Ricardo Viel, jornalista, atualmente mora e trabalha em Lisboa, Portugal. Especial para o Nota de Rodapé

terça-feira, 14 de abril de 2015

Sete dias entre a vida e a morte

por Fernando Evangelista*

Quando acordei no hospital, depois de sete dias em coma, não conseguia me lembrar do que havia acontecido.
Não recordava do chute, nem do impacto da bola contra a minha cabeça, nem da cabeça batendo no chão de cimento. Era maio de 1987.

Eu cursava o sexto ano do ensino fundamental e, como boa parte dos adolescentes, achava o colégio uma perda de tempo e de imaginação. Suportáveis mesmo só as duas aulas de educação física em sequência, porque o professor era boa gente e ensinava esportes ao ar livre. Com três diplomas universitários – educação física, teologia e filosofia – ele unia essas formações na aula de futebol, exclusiva para meninos. As meninas faziam atividades na quadra ao lado.

“Vamos treinar cobrança de pênalti”, orientou o professor. “Antes de chutar, cada um dos senhores pegará um papel dentro deste copo plástico e vai ler bem alto, o mais alto possível, a palavra sorteada. Dentro do pote, vocês vão encontrar os sete pecados capitais, entre outras coisas. Ficou claro?”

Pecados capitais? Não, a molecada estava confusa, mas deixou por isso mesmo e eu fui para o meu lugar cativo, o gol. Eis uma lei futebolística imutável: Todo perna de pau que se preze, a não ser que seja o dono da pelota, será escalado para o gol. Ou fica na zaga dando bico pra frente.

 “Você” – continuou o professor, apontando o dedo pra mim, “deve defender cada uma destas bolas-palavras com gana e seriedade”.

Alguns anos depois, quando assisti ao filme Sociedade dos Poetas Mortos, tive certeza de que o meu professor inspirou a criação do sensível e sábio John Keating, interpretado por Robin Williams. Como no filme, os garotos tiravam os papeizinhos, gritavam o que estava escrito e chutavam as bolas em direção ao gol. Entre um chute e outro, o mestre declamava trechos de um livro do Ferreira Gullar, seu poeta favorito.

 Papel, palavra, chute, defesa, poesia. Modéstia à parte, defendi tudo. “Avareza”, gritava alguém antes de chutar. E eu defendia a avareza. Defendi também a inveja, a gula, a preguiça, a luxúria e a inveja. Os pecados estavam misturados entre os capitais e os outros, que os meninos supunham menos graves. Uma por uma das cobranças – no canto direito, no esquerdo, no alto, no ângulo – eu pegava. O vento desviava para longe os chutes indefensáveis.

O último tiro coube ao Rômulo, o brutamonte. Seu apelido era Escadinha, em referência a um famoso bandido daquele tempo. Como já tinha repetido dezenas de vezes cada um dos sete pecados capitais, o professor deu a ordem, sem sortear a palavra. “Vai, Rômulo, chuta a vida”.

Rômulo Escadinha era um sujeito revoltado com a vida. Ele tomou uma distância exagerada, pegou de bico na bola e ela voou como uma pitomba no meio do gol, diretamente contra a minha cabeça. Meu reflexo falhou e os braços permaneceram imóveis ao lado da cintura.

A bola bateu um pouco acima da testa e voltou na direção do meio-campo. Ela, a bola, não entrou – fato que considero importante registrar. Desabei para trás, provavelmente já desmaiado. Minha cabeça chocou-se contra o chão de cimento. Fiquei sete dias em coma e nunca mais me recuperei. Desisti do futebol e me apaixonei por Ferreira Gullar.

Com força, a bola da vida bateu em mim e continua batendo, insistentemente. Por mais que tente, não consigo segurá-la ou compreendê-la. Ela me confunde e escapa e então volta, sem aviso, sem cerimônia e sem manual de instruções.

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Fernando Evangelista é jornalista. Escreve às terças-feiras no Nota de Rodapé. Esta crônica, publicada aqui ano passado, foi reescrita e fará parte do livro o Piano de Casablanca (editora Insular), a ser lançado em maio.

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Caras


por Júnia Puglia    ilustração Fernando Vianna

 Quem nunca folheou uma Caras atire a primeira pedra! Revista feita de fotos e comentários ligeiros, mostra celebridades – em toda a amplitude da palavra – lindas, sorridentes, ryyykhas e felizes. A bíblia das salas de espera e dos salões de beleza, onipresente, oferecendo distração para os olhos naqueles momentos em que conteúdo é o que menos importa. É só abrir e se atualizar sobre festas, casamentos, descasamentos, passeios de iate, estações de esqui, casas de praia, bebês, roupas, modelos, decoração, almoços e jantares frequentados por pessoas portadoras de cabelos lisos e louros, olhos azuis e muita maquiagem.

À parte a nossa curiosidade intrínseca sobre a vida alheia, sabemos que os felizardos retratados estão dando tudo de si para nos confirmar, naquelas expressões e frases soltas, como são satisfeitos e perfeitos. Sim, porque ninguém fala ali do quanto deseja mandar pras cucuias o marido que sai tão bem na foto, e se jogar de vez nos braços do bombeiro do condomínio. Ou do medo de ficar pobre ou cair da fama, que impede o galã de novelas de dormir e até mesmo de usufruir da sua tão prezada virilidade. Mas para nós, espectadores/leitores mortais, o que importa é a foto, sempre produzida com muita luz, cor e sorrisos, de modo a sequer sugerir interpretações.

Talvez o que realmente nos atraia nessas fotos é a sensação de que aquelas pessoas estão mesmo felizes e realizadas, por muito que saibamos o quanto tudo aquilo é falso e fabricado. Você me pergunta o que é ser feliz? Desconfio que seja, em escassas palavras, viver um grande amor e realizar com ele o seu projeto de vida, mesmo que seja um projetinho de dois meses, ou mesmo de um fim de semana. E, principalmente, nunca, jamais envelhecer. Tem Caras nova nas bancas.

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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com
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