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Suprema Corte: casais do mesmo sexo têm o direito de se casar em qualquer lugar dos EUA (AP)

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Conversa dentro


por Júnia Puglia ilustração Fernando Vianna*

Do lado de cá da mesa, três coroas e uma de trinta e poucos, mais ou menos respeitáveis, casadas e supostamente comportadas. Completando o círculo da mesa, três amigas pouco entradas na quarta década, algumas vezes casadas, no momento não. No espaço entre nós, delícias árabes e uma garrafa de vinho tinto que nunca esvazia.

Uma delas informa estar noiva e exibe o anel na mão direita, dando o mote para um divertido passeio pelo mundo delas, as solteiras. Reajo supreendida: noiva? Isto ainda existe? A noiva em questão responde que já foi casada três vezes, e vai encarar a quarta. É dona de um pequeno negócio de roupas, já ralou muito, e entra a filosofar sobre relacionamentos modernos. Que os homens se assustam muito quando percebem que estão lidando com uma mulher autônoma, dona da própria vida, mas que ela gosta mesmo é de se sentir protegida, espera isto dos namorados e do atual noivo, futuro marido.

Uma outra, alta e grande, de olhos azuis claríssimos, dois ou três casamentos no currículo, conta das dificuldades com a altura e dos ficantes baixinhos que já teve. Um deles foi buscá-la num Fiat 500, coitado, e ela penando pra encaixar no banco do carro. Os grandes como ela pelo menos têm um Duster, mas nenhum deles gosta de mulher muito independente, se sentem inseguros, ameaçados, desnecessários.

A terceira comenta que o último namorado reclamava por ela não estar disponível para passar todo o fim de semana com ele. Mas como, se tenho uma filha pequena, que mora comigo? Difícil de entender, né? Ele mesmo pai de vários filhos, cada um vivendo com sua respectiva mãe, claro. Faz sentido?

As três muito dispostas a se divertir ao máximo. Talvez a grande, enorme diferença em relação às gerações anteriores. Encaram a vida, casamentos e descasamentos, filhos, trabalho duro, mas quando chega a hora da balada, estão tinindo e chegam arrasando, prontas para aproveitar tudo o que se lhes ofereça. Como as bambas Dóris, Auremília, Teresinha e Marina da canção de Ana Carolina. E sabem aonde pisam, não esperam o príncipe irromper na pista montado num cavalo branco. Quero dizer, isto penso eu.

E nós, as boas senhoras, fascinadas com a conversa, que termina numa galinhagem de abrir as várias malas de roupas trazidas pela lojista, fuçar, experimentar e dar palpites. Quando nos despedimos, alguém avisa que há uma cronista no grupo, ao que a altona me pede: pode contar, mas não ponha meu nome, por favor. Claro que não, Adriana!

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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Barca dos livros, confira o ensaio fotográfico

Com o maior acervo de literatura infantil e juvenil de Santa Catarina, a Barca dos Livros é uma biblioteca comunitária que funciona na Lagoa da Conceição, em Florianópolis. Em 2014, concorrendo com 998 projetos de todo o país, a Barca conquistou o Prêmio Vivaleitura, promovido pelo Ministério da Cultura, Ministério da Educação e pela Organização dos Estados Ibero-Americanos, e foi eleita a melhor biblioteca comunitária do Brasil.

A página da Barca no facebook é esta aqui.

Ensaio Fotográfico Fernando Evangelista


Fernando Evangelista, jornalista, mantém a coluna semanal Desacato.

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Sampa

por Júnia Puglia ilustração Fernando Vianna*

Atendo alguém ao celular enquanto espero o meu ônibus, sentada no banco da parada, quando se aproxima uma pessoa visivelmente maltratada pelo dia-a-dia nas ruas de São Paulo. Um homem, com a barba crescida, vestido com o que um dia foi uma saia estampada, agora bem encardida, uma camiseta regata vários números maior que ele e chinelos. Fala alto, coisas desconexas, com gestual e entonação de bicha bagaceira, cheira mal de longe, faltam-lhe alguns dentes. Senta-se ao meu lado, falando sem parar. Um ônibus se aproxima, ele se encaminha para embarcar, o motorista fecha a porta e arranca.

Ele grita sua indignação e senta de novo ao meu lado. Continuo ao celular. Uma senhora, com pinta de moradora do bairro, chega e me pede uma informação. Peço-lhe que espere um minuto, por favor, ela insiste. Interrompo a conversa para atendê-la, e ela me diz: na verdade, eu só queria te advertir que não fique falando ao celular aqui, é muito perigoso; mantenha-o bem guardado na bolsa. Retomo a conversa.

Jantando com a amiga que me hospeda, ela me conta uma história fascinante. Na primeira metade do século vinte, viveu nesta cidade uma milionária, única herdeira de grande fortuna em dinheiro e propriedades, com hábitos refinados e atitudes avançadas. Ainda bem jovem, dirigia automóvel e tirava fotografias, para espanto das pessoas de boa família. A certa altura, começou a apresentar sinais de doença mental. Uma de suas casas foi, então, transformada numa espécie de manicômio exclusivo, por ordem do seu tutor legal. Não tendo deixado herdeiros, seu patrimônio foi entregue à Universidade de São Paulo, que recentemente realizou um primoroso trabalho de restauração dessa casa e instalou nela os escritórios da faculdade de arquitetura.

Fui visitar a bela Casa da Dona Yayá, que é também um espaço cultural. Os detalhes são um tanto inquietantes, como as estreitas janelas pivotadas, que impediam a moradora de escapulir por uma delas, as aberturas nas paredes por onde lhe serviam a comida, e o solarium, ladeado por muros tão altos, que só mesmo voando ela poderia ultrapassá-los. Ali ela viveu confinada até morrer, prisioneira em sua própria casa. Como muitas outras, antes e depois dela, com mais ou menos recursos, mas igualmente submetidas às determinações de quem as considera sua propriedade.

Os drinks e a conversa fiada saboreados numa deliciosa espelunca da Praça Roosevelt, seguidos do macarrão com vinho tinto na cantina do Bixiga, proporcionam aquela indispesável conexão com as melhores coisas de São Paulo. Num súbito ataque de nostalgia e adolescência, peço "Dio, comme ti amo" ao cantor que se oferece à mesa, acompanhado por violão e acordeon. Tenho quinze anos de novo.

Ínfimas amostras das infinitas possibilidades paulistanas. Obrigada, São Caetano Velloso, por ter forjado um nome para todas elas.

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 Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com

quinta-feira, 25 de junho de 2015

22 anos e 34 lesões

Passados os 50 anos do golpe militar a coluna 1964+50 segue firme em 2015, mas agora com novo título: VIVOS. Afinal, mortos e desaparecidos estão vivos na nossa memória e na nossa história.


por Fernanda Pompeu ilustração Fernando Carvall

Gastone Lúcia Carvalho Beltrão
Nascimento: 12 de janeiro de 1950
Cidade natal: Coruripe - Alagoas
Morte: 22 de janeiro de 1972
Cidade final: São Paulo - SP
Causa da morte: dilacerações por tortura

Hoje sabemos que os órgãos de repressão da ditadura militar encenavam teatrinhos para mascarrar mortes por tortura. A farsa mais comum era óbito em violento tiroteiro. Os jornais aceitavam a versão oficial e legitimavam a fanfarronice sangrenta. Integrante da ALN, com treinamento em Cuba, Gastone Lúcia foi mais uma que teve a causa de morte adulterada. Também foi enterrada como indigente no Cemitério de Perus, São Paulo. Passaram-se anos até que um perito criminal ampliou a foto do cadáver de Gastone e constatou que além de tiros à queima-roupa, havia facadas, fraturas, ferimentos, equimoses. Conclui A moça não morreu em tiroteio. Aliás não houve tiroteio nenhum. Mais um assassinato na conta de Sérgio Paranhos Fleury.

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Fernanda Pompeu é a mulher do texto Fernando Carvall é o homem da arte

terça-feira, 23 de junho de 2015

Uma morena e um acaso


por Fernando Evangelista*

No colégio-católico-apostólico, o professor de redação, culto e sisudo como um lorde inglês, disserta sobre enredos, personagens e elipses. É uma segunda-feira de ventania, raios e trovões. Há algo de cinematográfico nessas tempestades.

Apesar do dilúvio, a aula prossegue sem grandes imprevistos ou complicações. E então a porta se abre: “Professor, desculpe interromper” – diz uma voz feminina, “eu gostaria de fazer uma pergunta para a turma. Posso?”

É a professora de artes, recém-contratada. Bonita e misteriosa, vestindo sempre roupas leves e esvoaçantes, mesmo em dias frios, ela seria descrita pelo meu tataravô Córis, corsário poliglota, como um “pezzo di gnocca”.

- Alguém perdeu alguma coisa? – pergunta a mulher.

A turma faz cara de ponto de interrogação, como quem diz sem dizer: do que você está falando? Perdeu o quê? Onde? Quando? A princípio, ninguém sente falta de nada e a morena vai embora.

A morena vai, mas a pergunta fica. Prevendo que o falatório acabaria em desordem, o professor desafia os alunos a escreverem um texto curto, respondendo à pergunta: O que você perdeu?

Isso aconteceu em 17 de agosto de 1987.

Eu era um dos alunos e cursava o ensino fundamental. Lembro-me do fato e do dia porque guardei o texto e, principalmente, por causa de uma coincidência estranha. Transcrevo a composição com alguns retoques de estilo e com as vírgulas nos seus devidos lugares:

Perdi muita coisa na vida. Perdi um rolimã, várias pipas, um álbum de figurinha da seleção brasileira de 1982, dois jogos do Atari, uma mochila de escoteiro, a chave de um baú, que vai ficar eternamente fechado, um autógrafo do Zico, maior herói brasileiro de todos os tempos. Perdi a paciência com a minha irmã e acertei-lhe um violão na cabeça. Perdi um amuleto da sorte, que só me dava azar, e duas cartas da Eliza, minha primeira namorada. Primeira e única, registre-se. Por enquanto, registre-se isso também. Perdi ainda duas amígdalas e um apêndice.

A coincidência vem agora. Naquele dia, a pedido de minha mãe, eu havia ido à biblioteca da escola à procura do recém-lançado O Nome da Rosa, de Umberto Eco. Mas peguei por engano um chamado A Rosa do Povo, do Carlos Drummond de Andrade, de quem nada sabia, apenas que tinha sido expulso de um colégio de padres na infância, acusado de “insubordinação mental”, o que lhe garantia um lugar de honra no meu pantheon imaginário.

Para parecer culto e sensível e ganhar elogios do professor, citei um verso que encontrei no livro do poeta. O verso falava sobre perdas.

Naquela noite, montando um quebra-cabeça no tapete da sala de estar, assustei-me quando ouvi a musiquinha do Plantão da Globo, prenúncio de todas as tristezas e tragédias dos anos 80. Sérgio Chapelin anunciou: “Carlos Drummond de Andrade, maior poeta brasileiro de sua geração, morreu às 20h45 desta noite, de insuficiência respiratória, exatamente 12 dias depois de enterrar sua única filha. Drummond tinha 84 anos”.

Foi só uma coincidência, obviamente, mas gostaria que não tivesse sido. Seria bom acreditar numa ligação entre o poeta e aquele menino franzino e assustado, metido a filósofo, apaixonado por morenas e vestidos esvoaçantes.

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Fernando Evangelista, jornalista, mantém a coluna semanal Desacato. Da série Republicando.
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