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Deslocados muçulmanos em Mianmar | Imagem: Rubén Salgado Escudero

terça-feira, 31 de março de 2015

Sorria, mantenha a linha e não se afogue


por Fernando Evangelista*

No dia 10 de junho de 1914, o capitão escocês C. H. Brown acordou às quatro e meia da manhã, fez xixi no penico, vestiu a roupa, colocou o suspensório, olhou-se no espelho e disse: “É hoje!”.

Amante das marés traiçoeiras e das mulheres perigosas, de bacalhaus e papagaios, o capitão era instrutor da Escola de Navegação de Glasgow e realizava uma pesquisa sobre as correntes marítimas da Escócia.

O método consistia em lançar garrafas ao mar, colocando no interior uma mensagem explicativa sobre a pesquisa e um pedido de devolução a quem as encontrasse. Com a informação do horário e do local onde o objeto fosse resgatado, o cientista poderia mapear a rota percorrida, identificando as correntezas. Em 1914, o capitão lançou 1.890 garrafas ao mar.

O tempo passou, apenas 315 foram achadas, o cientista morreu e a pesquisa obteve sucesso considerável, mas havia sido completamente esquecida. E seria o fim desta história não fosse um cidadão escocês de 43 anos, gordinho e careca, chamado Andrew Leaper.

Em abril de 2012, na costa das ilhas Shetland, ele pescou uma das garrafas, exatamente 97 anos e 309 dias depois de ter sido arremessada ao mar pelo capitão Brown. O Livro Guinness dos Recordes confirmou Andrew como o autor do resgate da mais antiga garrafa com mensagem no mundo.

Com o jornal nas mãos, Leopoldo - o sábio dos balcões, filósofo bêbado do Rio Tavares, - leu essa notícia em voz alta para que todos ouvissem e como estávamos só ele, o dono do bar e eu, sua missão teve êxito.

Leopoldo dobrou cuidadosamente o jornal, colocou-o sobre o balcão, olhou para o copo de cachaça na sua frente, olhou para o ventilador de teto, deu uma geral no bar vazio à sua volta, fez que ia pegar o copo, mas pegou o meu braço e disse:

– Meu rapaz, nesta história da garrafa, neste pedacinho de jornal, está a tradução da minha vida e da vida de um bocado de gente.

Farejei o início de lampejos metafísicos. Pelo espelho, o dono do bar lançou-me um olhar que dizia sem dizer: “é sempre assim”, e concentrou-se na lavação dos copos, na nossa frente.

– Eu sou – continuou Leopoldo, com seu jeitão antigo e formal – este velho capitão a jogar mensagens no oceano, com a esperança de que alguém as encontre e as compreenda. Sou aquele que espera e vai fingindo paciência, fingindo não se importar.

– Isso parece letra de samba – eu disse.

Leopoldo esvaziou o copo e prosseguiu:

– Eu sou um pedaço de papel, enclausurado numa maldita garrafa, às vezes em branco, à espera de ideias, outras vezes manchado de erros, à espera de correção. Sou também a garrafa que, mesmo não querendo, mesmo com alguma resistência, vai seguindo a correnteza, indo para direções incertas, talvez girando em círculo, como esta do jornal, achada a apenas 18 quilômetros de onde foi lançada.

– De uma forma ou de outra, quase todo mundo está em busca de um porto seguro – interveio o dono do bar.

– Exato – disse Leopoldo. – Mas aí que está o busílis porque os poucos a encontrar esse porto parecem oprimidos pela monotonia. Daí a importância de se acreditar em alguma coisa além desta vida. Nesta crença reside a esperança de que a dor da travessia faça algum sentido.

– Nada faz sentido – arrisquei.

– Ateu! – ele gritou. Apontou o copo vazio sobre o balcão para que o dono o enchesse mais uma vez e prosseguiu, comparando-se ao mar, imprevisível, marcado por naufrágios, profundezas e por outras coisas que não cheguei a compreender. Parecia mesmo letra de samba.

O dono do bar terminou de lavar os copos, enxugou as mãos num pano, jogou-o sobre o balcão e eu pensei que ele fosse dizer mais alguma coisa, mas ficou a escutar, interessado na prosa.

– Sou também a mensagem escrita no pedaço de papel – continuou o filósofo, com sua linguagem de século XIX – às vezes as mensagens são doces, como cartas de amor, outras são rudes, vulgares, estúpidas. Outras, piores ainda e mais cotidianas, são contratos, despachos, protocolos.

– Bêbado é quase tudo igual – brinquei, dirigindo-me ao proprietário.

– Com exceção dos metidos a sabichão, – ele respondeu – estes são piores. Rimos. Leopoldo não perdeu a pose, nem a linha de raciocínio:

– A vida, meus caros amigos, é uma garrafinha largada no mar. Dentro da garrafa vamos nós, com nossos sonhos e pesadelos, nosso lado nobre, nosso lado obscuro e, claro, o lado do meio, que é o autêntico.

Com um discreto balançar de cabeça, Leopoldo agradeceu mais uma dose servida pelo dono da bodega, deu outra espiada no ventilador de teto e seguiu a ilação:

– Nosso grande medo é ficar à deriva, sem alguém para nos acolher, é ver o mar nos engolindo e não dar conta do que nos exigem e eles exigem a mesma coisa em todo lugar: “sorria, mantenha a linha e não se afogue”.

Fez uma pausa e seu rosto ficou iluminado.

– Duas coisas, porém, duas coisinhas o marzão não vai me levar, porque são minhas e delas não abro mão.

E mantendo o tom grave e teatral, concluiu:

– Ninguém tasca a minha liberdade e a minha lucidez.

Sorriu, secou mais um copo de cachaça e se foi, sem pagar a conta.

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Fernando Evangelista é jornalista e documentarista. Trabalha na biblioteca comunitária Barca dos Livros em Florianópolis. Esta crônica, publicada ano passado aqui no Nota de Rodapé, foi reescrita e fará parte do livro O Piano de Casablanca (Editora Insular), que será lançado em maio.

sexta-feira, 27 de março de 2015

Insignificância


por Júnia Puglia   ilustração Fernando Vianna

 "Como brilha a insignificância das pessoas quando as coisas começam a dar errado." Comentário ácido e certeiro da escritora espanhola Rosa Montero, a propósito de um funcionário sindicalista que quer se aproveitar do assassinato de uma líder para emplacar sua carreira política. Pulou do papel enquanto eu lia o romance de ficção científica "Lágrimas na chuva", cujo bem tramado enredo gira em torno da uma detetive androide, contratada para investigar uma série de mortes de semelhantes seus, num futuro situado no ano de 1109.

Com a criatividade e a competência que lhe sobram, e tendo como ponto de partida a cena final do filme "Blade runner" (quando o protagonista replicante, antes de morrer, diz: "vi coisas nas quais vocês não acreditariam… todos esses momentos se perderão no tempo como lágrimas na chuva"), Rosa coloca humanos e androides numa convivência complicada, permeada por situações que remetem às crenças supremacistas e práticas racistas que conhecemos tão bem. No futuro imaginado por ela, o caráter e o comportamento humanos continuam intactos, bem como a recorrente ênfase da autora na empatia e solidariedade entre os marginalizados e os esquisitos, uma das características mais cativantes da sua escrita. Para o grande prazer de seus leitores, ela já escreveu sobre um bocado de coisas.

A frase é tão bem sacada que dá a sensação de ser, simultaneamente, uma bela surpresa e uma velha conhecida. Isto acontece sempre que alguém consegue dar uma forma exata a algo que captamos ou sentimos, mas não conseguimos ou não nos detemos em formular. Tive que compartilhá-la.

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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com

quinta-feira, 26 de março de 2015

Sem depois

Passados os 50 anos do golpe militar a coluna 1964+50 segue firme em 2015, mas agora com novo título: VIVOS. Afinal, mortos e desaparecidos estão vivos na nossa memória e na nossa história.



por Fernanda Pompeu ilustrações Fernando Carvall

Wilson Silva
Nascimento: 21 de abril de 1942
Cidade natal: Taubaté - SP
Data do desaparecimento: 22 de abril de 1974

No dia anterior ao seu desaparecimento e de sua mulher Ana Rosa Kucinski, Wilson Silva havia completado 32 anos. Certamente no aniversário dele, e da morte de Tiradentes, deve ter lembrado de Taubaté - onde nasceu e viveu até os 19 anos. Depois, repassou sua vida de estudante de física na USP. Certamente pensou na sua paixão pela militância política, primeiro na Polop, agora na ALN. Ele e Ana estavam na ação por um país diferente do da ditadura militar. Uma terra melhor para todos. O que ele não sabia é que não haveria outros aniversários.

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Fernanda Pompeu é a mulher do texto. Fernando Carvall é o homem da arte.

terça-feira, 24 de março de 2015

A luta de classes, essa velha senhora, não morreu

por Celso Vicenzi*

Que fique claro, desde o início. Toda corrupção precisa ser combatida e punida. Apesar de redundante, cabe frisar: isso vale para corruptos e corruptores. E o rigor que vale para uns, deve valer para todos.

A corrupção está presente em todas as esquinas e praças do cotidiano brasileiro, nas esferas pública e privada, religiosa e filantrópica. Em todos os poderes, inclusive no Judiciário, onde é mais difícil pôr a mão. Basta lembrar que membros desse seleto grupo de “justos”, quando pegos cometendo arbitrariedades, raramente são punidos. Costumam ganhar como "pena" uma aposentadoria precoce. Ou seja, geralmente são "punidos" com férias eternas e um ótimo salário pago por todos nós.

Já houve casos de juízes vendendo sentenças. Qual a extensão desse tipo de irregularidade ou crime, se considerarmos que são milhares de ações que tramitam em juízo, envolvendo, diariamente, enormes quantias? Teriam alguns juízes a necessária isenção para investigar seus pares ou o corporativismo falaria mais alto? Fácil imaginar o quanto de tráfico de influência pode transitar em decisões que, apesar de sustentações técnicas, podem esconder, às vezes, interesses muito particulares. Numa sociedade permeada pela corrupção, difícil imaginar que o Judiciário seja uma ilha distante e imune ao que acontece no país, onde parte de seus magistrados participa, inclusive, de festas com os donos de boa parte do PIB brasileiro volta e meia envolvidos em escândalos de corrupção ou negócios que terão que ser decididos em diferentes instâncias judiciais.

No Brasil, no entanto, onde a cultura da corrupção teceu fortes raízes, elege-se apenas meia dúzia para pagar a conta desse "banquete de justiça". Coincidência ou não, isso acontece justamente quando o Estado brasileiro passa a investir mais em políticas públicas que reduzem a desigualdade social. Que integrantes do PT envolvidos com corrupção precisam ser alcançados pela lei, nenhuma discordância. Assim como os do PSDB, PMDB, PP, DEM...

Mas esse é apenas o efeito colateral das investigações. O que, parece, se busca, é deslegitimar a vitória de Dilma nas urnas, porque o partido teria recebido dinheiro de empresas envolvidas na Operação Lava Jato. Pouco importa se o dinheiro foi legalmente declarado ao TSE. Ou se as mesmas empresas financiaram todos os principais partidos. O foco é o PT. Única e exclusivamente o PT. As exceções apenas disfarçam a regra.

Teriam alguns integrantes desse partido desviado mais recursos do que outros? Estaríamos, como querem os principais comentaristas de jornais, rádios, web e tevês, principalmente da Rede Globo, diante “do maior caso de corrupção do país”? Difícil dizer, porque não houve, no passado, empenho semelhante para investigar outros escândalos. E também porque agora, quando surge a oportunidade de retroceder a governos anteriores aos do PT, há um indisfarçável desinteresse. Tanto que a CPI da Petrobras, no Congresso, não aceitou estender as investigações para o período dos governos de FHC, embora o mesmo doleiro que denunciou o PT tenha dito que já havia corrupção na Petrobras em 1997.

O empresário Ricardo Semler, filiado ao PSDB, afirmou em artigo na Folha de S. Paulo (21/11/2014) que “nunca se roubou tão pouco” e que já nos anos 70 sua empresa deixou de fornecer equipamentos para a Petrobras porque “era impossível vender diretamente sem propina” . A empresa da qual é sócio também tentou fazer negócios nos anos 80, 90 e até recentemente, mas desistiu porque o esquema sempre foi o mesmo. Nos últimos 40 anos, disse ele, só mudaram os percentuais da corrupção, que “caíram”. Ou seja, na contramão do que boa parte das emissoras de rádio e tevê, jornais e web tenta induzir, a corrupção na Petrobras vem de longa data e já foi bem maior. Nem vamos imaginar o que pode ter ocorrido no período da ditadura, quando ninguém ousaria investigar algo semelhante.

Há, portanto, um indisfarçável show de cinismo e hipocrisia. A justiça, em tese, deveria ser igual para todos. Não é e não tem sido assim, infelizmente. Derrotado quem se quer derrotar, alguém tem alguma dúvida de que o zelo do Judiciário e as denúncias dos principais meios de comunicação não terão mais o mesmo ímpeto contra outros corruptos e corruptores? Isso já acontece neste exato momento, quando alguns notórios corruptos e corruptores são poupados enquanto outros são massacrados. Muitos desses cidadãos envolvidos em escândalos, aliás, participaram das manifestações sem que a mídia tentasse ao menos desmascará-los. É um jogo de aparências, de mais sombra ou mais luz conforme as conveniências da mídia e de outros atores interessados. O que a sociedade brasileira deveria exigir é a equidade no tratamento das investigações, seja da justiça, seja da mídia.

Resultado de uma deturpação de nossa democracia, graças a abusos que não são coibidos, os veículos de comunicação inverteram o principal alicerce do Direito: agora todos são culpados até que se prove o contrário. E basta divulgar nos meios de comunicação os nomes dos acusados para a população condenar, antes que seja concedido o direito de defesa. Resultado de anos e anos de um jornalismo sensacionalista, substituímos a democracia por uma midiocracia. De nada resolve dizer que a mídia não condena quando ela promove uma superexposição do(s) acusado(s), sem o mesmo espaço para a defesa. Se, depois, o Judiciário vier a absolver, como algumas vezes acontece, pouco importa. Os denunciados já foram condenados à execração pública para o resto de suas vidas.

Claro que os meios de comunicação são fundamentais ao exercício da democracia, desde que não se especializem – como ocorre, não raro, no Brasil – em dar sustentação a partidos de oposição ou de situação, conforme a conveniência, ou, ainda, para dar suporte ou desestabilizar governos que não atendam a seus interesses ou de seus "clientes" (os donos do capital). Pra quem confunde justiça com vingança, tá ótimo! E se alguém achar que não tem a mão da CIA e dos EUA em todos os movimentos de desestabilização de governos latino-americanos que não se alinharam com Washington, ganha um doce, por sua ingenuidade.

Portanto, combater a corrupção, sim. Derrubar um governo com um golpe jurídico-midiático (militar parece uma hipótese mais remota), para abrir caminho para os interesses de classe e das grandes potências, NÃO.

Aperfeiçoar a democracia, sim. Fazer do combate à corrupção, nas ruas, uma escada para a ascensão de grupos fascistas e totalitários, NÃO.

Punir com o mesmo rigor todos os que se envolvem em corrupção, sim. Eleger apenas alguns para pagar essa conta, NÃO.

Investigar e punir quem tem culpa em cartório, sim. Usar as investigações para quebrar empresas brasileiras que garantem milhares de emprego, NÃO.

Fazer manifestações contra os escândalos de corrupção (todos!!!), sim. Achar perfeitamente normal caminhar lado a lado com fascistas, sexistas, sociopatas, homofóbicos, religiosos fanáticos e pessoas que pedem intervenção militar e não respeitam os Direitos Humanos, NÃO.

Ir às ruas gritar contra a corrupção, sim. Utilizar-se de "jeitinhos” – bem brasileiros! – para obter vantagens para si, familiares, amigos ou parentes, NÃO.

Desejar um Brasil melhor (para quem, para quantos?), sim. Dissimular o ódio às transformações sociais com o álibi de combater a corrupção, NÃO.

Aceitar as regras da democracia e lutar para que os Três Poderes e a sociedade façam os ajustes necessários ao desenvolvimento do país e ao combate à corrupção, sim. Disfarçar preconceitos de classe para pedir a derrubada de um governo legitimamente eleito e que, com todos os defeitos, permitiu a ascensão das camadas mais pobres, NÃO.

Entre o sim e o não, caminharemos para um Brasil com menos desigualdade, mais Direitos Humanos, que reafirme a sua soberania diante dos interesses das grandes potências. Ou para um Brasil novamente (mais) excludente, concentrador de renda e subserviente aos poderosos donos do capital internacional, como quase sempre aconteceu, ao longo da história.

Combater a corrupção é fundamental, mas isso não pode servir como uma cortina de fumaça para permitir que as maiores conquistas sociais do povo brasileiro, atestadas por idôneos organismos nacionais e internacionais, sejam golpeadas por ações jurídico-midiáticas com o intuito de desestabilizar um governo e aniquilar os avanços obtidos nessa área nos últimos anos.

As consequências podem perdurar por décadas, como aconteceu com a ditadura, que ainda mantém influências na vida da população. E há risco de haver um grande retrocesso: político, econômico e social. Isso deveria ser o mais importante e conduzido com mais responsabilidade. A prisão de uma dúzia ou mais de pessoas não deveria ser feita sem medir as consequências, com os exageros apelativos de uma superexposição dos fatos na mídia, geralmente em tom sensacionalista, o que contribui para criar um clima de instabilidade e quase-histeria entre a população. Inclusive porque donos dos principais veículos de comunicação, dessa mesma mídia, e vários de seus colaboradores também estão envolvidos em um escândalo de contas secretas no HSBC na Suíça, fato que pode indicar crimes de sonegação, lavagem de dinheiro e informação privilegiada para auferir lucros no mercado financeiro.

 A luta de classes, essa velha senhora – para usar a metáfora do momento –, está nas ruas, novamente. Pode ser que a maioria não saiba, mas é disso que se trata, principalmente quando a justiça e a mídia parecem operar com dois pesos e duas medidas.

Se antes eram as camadas mais pobres que tomavam as ruas para reivindicar direitos. Agora, majoritariamente, são as camadas de maior poder aquisitivo, que não aceitaram a quarta derrota eleitoral seguida e clamam por impeachment ou intervenção militar. Sim, há o álibi de “varrer toda a corrupção”, eu sei. E sei também que há muita gente bem intencionada, críticos de um mau governo. É possível encontrar cidadãos e cidadãs, com razão, indignados com um partido que elegera a ética como uma de suas bandeiras. Há também muitos ingênuos e desinformados, incapazes de perceber outras intenções por trás de quem lidera os protestos. E há, ainda, não poucos, querendo enganar a outros ou a si. O que sei, também, é que o jogo que se joga neste momento é bem maior do que o necessário e desejável combate à corrupção.

Cidadãos e cidadãs estão convidado(a)s a assumirem suas responsabilidades nessa jornada por um Brasil melhor. Mas é preciso definir desde já: melhor para quem, para quantos? O combate seletivo e parcial à corrupção, com ares de solução para todos os males, é apenas pretexto para ocultar onde se quer chegar. A luta de classes está aí, mais viva do que nunca.

Que tenhamos boa sorte!

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Celso Vicenzi, jornalista, ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina, com atuação em rádio, TV, jornal, revista e assessoria de imprensa. Prêmio Esso de Ciência e Tecnologia. Autor de “Gol é Orgasmo”, com ilustrações de Paulo Caruso, editora Unisul. Escreve humor no tuíter @celso_vicenzi. “Tantos anos como autodidata me transformaram nisso que hoje sou: um autoignorante!”. Mantém no NR a coluna Letras e Caracteres.

segunda-feira, 23 de março de 2015

Washingtonianas

por Nina Madsen*

Viver em um país diferente do seu é reaprender a vida cotidiana todos os dias. Um exercício de alteridade e de desautomatização que sempre me pareceu dos mais estimulantes e, ao mesmo tempo, inquietantes. O familiar, o que se faz já sem sequer pensar, os códigos incorporados nas pequenas rotinas diárias – é tudo novo. No detalhe. Atravessar a rua, entrar e sair do supermercado, subir e descer escadas, cumprimentar os vizinhos, relacionar-se com prestadores de serviços... enfim, a lista é longa.

E no topo da minha, tem estado, ultimamente, o manter-se informada e situar-se em um novo contexto político. E olha que é dos EUA que estou falando, nada assim tão distante da nossa americanizada gramática política e cultural. Mas o fato é que ler os jornais todos os dias tem sido como ler um mapa ao caminhar pelas ruas de uma nova cidade. Primeiro, você mal consegue se situar no miúdo das ruas mais próximas (bem, talvez não você, orientada/o de nascença, mas eu sou assim, ligeiramente perdida nos espaços concretos da vida), para então começar a adquirir alguma noção de sentidos, bairros, movimentos urbanos. Até se sentir no domínio do espaço leva algum tempo. E até se sentir no domínio do contexto político de cada notícia também. Não tenho visto noticiários na televisão – hábito que já não tinha no Brasil e que decidi manter afastado da minha rotina por aqui. Então, converso com as pessoas, leio o jornal e escuto o rádio. E que instituição, o rádio! Nada empoeirado, nada envelhecido, o rádio é fresco e revigorante. São muitas as estações, algumas com alto grau de engajamento político.

Foi no rádio que ouvi, no dia 11 de março, que Obama declarou a Venezuela uma ameaça à segurança nacional. À segurança nacional dos EUA, veja bem. E que Maduro respondeu dizendo que, oras, ameaça à segurança nacional são os EUA! E depois ouvi as análises dos especialistas convidados, todas destacando o equívoco de Obama ao jogar lenha nessa fogueira. Ouvi que estão substituindo Cuba pela Venezuela como bode expiatório na América Latina. Que a Cúpula das Américas está chegando e as manifestações se farão sentir, comprometendo inclusive a recente reaproximação entre EUA e Cuba. Que a dureza das declarações sobre a Venezuela não são nada coerentes com o retardo e a quase negligência das declarações e ações a respeito do que tem acontecido no México, por exemplo. Ouvi uma representante da Casa Branca sendo descascada por repórteres em uma coletiva, ao afirmar que os EUA há muito tempo não se envolvem com mudanças de poder e de governo inconstitucionais. “Como assim, não se envolvem?”. “A senhora poderia definir o que considera muito tempo?”. “A senhora poderia definir o que o governo considera inconstitucional?”.

Tenho ouvido também, desde o início da semana, que em Ferguson a luta pelo enfrentamento ao racismo continua com força. As pessoas seguem nas ruas, fazendo muita pressão. Especialmente depois do julgamento que inocentou o policial que matou Michael Brown. O Departamento de Justiça divulgou um relatório que traz dados sobre o racismo institucional e seu impacto nas ações da polícia (confira aqui). Logo depois, vieram a público trocas de e-mails entre policiais com expressões bastante explícitas de racismo (leia mais aqui). Resultado? Departamento de polícia em crise, com pedido de renúncia de policiais e, mais recentemente, do chefe da polícia. Que, aliás, demorou demais, como afirmaram manifestantes à repórter da rádio. [A rádio a que me refiro é a WPFW, que você pode conhecer e ouvir online, aqui].

E assim vão compondo meu mapa político as notas washingtonianas capturadas a cada dia. Um mapa tão parecido e, ao mesmo tempo, tão diferente daquele ao qual me acostumei no Brasil. Parecido o suficiente para reconhecer, por exemplo, em Ferguson, nossas racistas cidades e polícias brasileiras. Diferente o suficiente para me inquietar ainda mais diante de sua violenta resistência a toda e qualquer evidência de que o racismo segue matando muito, todos os dias.

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Nina Madsen. Escreve por gosto e necessidade desde que se lembra. Formada em Letras, caminhou pelos campos da educação até que se fez feminista e socióloga, por azar ou sorte. Desde janeiro de 2015, vive em Washington, DC – novo cenário de aventuras e leituras pelo avesso do mundo.
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