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Feira do Cavalo em Sevilha, Espanha | Reuters

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Até 2015

O Nota de Rodapé faz um pausa. Voltará em 2015 com novidades. E muitas. Aguardem. Boas festas a todos noss@s leitores e colaboradores.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Bem vivos


por Júnia Puglia  ilustração Fernando Vianna

Mesmo que eu me esforce muito na formulação e na elaboração, sei, de partida, que será bem difícil ajustar o tom e expressar a profundidade do que quero dizer. A clássica frase dos discursos, de que “não tenho palavras”, aqui se encaixa justinha. Palavras me faltam até mesmo para começar. Mas insisto.

Durante rápida caminhada aqui perto de casa, o olhar do belo rapaz negro cravou em mim um largo e genuíno sorriso, acompanhado do melhor “bom dia” que eu poderia esperar. E despertou as borboletas dormidas no meu estômago.

Algumas semanas atrás, a seção brasileira da Anistia Internacional lançou a campanha “Jovem Negro Vivo” (https://anistia.org.br/campanhas/jovemnegrovivo/), uma iniciativa de conscientização da sociedade, anestesiada sobre a realidade do genocídio da juventude negra. Se você acha exagerado usar o termo “genocídio” para definir o que acontece, o Aurélio, em versão resumida, me acode: “destruição metódica de um grupo étnico pelo extermínio dos seus indivíduos”. O termo foi forjado no rescaldo da Segunda Guerra Mundial, para definir a eliminação sistemática de grupos étnicos praticada pelos nazistas.

Todas as pessoas que conhecem o Brasil e vivem aqui sabem do que estou falando, por mais que evitem ver. Nossa cegueira está calcada em séculos de desprezo por qualquer indivíduo que tenha ou aparente ter menos. Aqui, nascer negro ou negra define ter e ser menos, de saída. Simples assim. No rap “Haiti”, Caetano Veloso adverte sobre o cenário contemplado a partir do adro da Casa de Jorge Amado, no Pelourinho de Salvador: “a fila de soldados quase todos pretos dando porrada na nuca de malandros pretos... só pra mostrar... como é que pretos, pobres e mulatos e quase brancos quase pretos de tão pobres são tratados”. Mas só pretos se importam com pretos. Só pretos choram os milhares de jovens pretos amputados de viver e realizar seu potencial e suas habilidades em benefício próprio.

Enquanto isso, nossa capacidade de copiar gringuices esquisitas parece inesgotável. Até Halloween e Black Friday entraram na lista de eventos apreciados por jovens brancos, que falam uma língua diferente da minha, salpicada de palavras inglesas adaptadas à força de customização, blutuf, delivery e companhia. Lá na gringolândia, a segregação e a discriminação dos negros foi muito mais profunda e escancarada do que aqui, é o argumento que os tolos usam para nos fazer sentir menos responsáveis pela nossa própria tragédia racial. Porém, se os branquinhos de shopping prestassem atenção nas imagens dos protestos que vêm acontecendo por conta dos recentes assassinatos de jovens negros por policiais nos Estados Unidos, veriam que há muito deixaram de ser manifestações só de negros. E estão sacudindo o país com sua indignação e clamor.

Isto, nem lhes ocorre imitar. Deixe quieto, aqui a gente tem outras prioridades de mobilização, atividade há pouco ressuscitada na nossa vida política. No topo da lista, o inconformismo com o resultado do jogo democrático, que inclui uma bizarra vertente chamando os carrascos militares de volta, por mais incrível que possa parecer.

Eu, na minha inescapável brancura, quero todos os meninos e meninas, de todas as cores, bem vivos. Você me acompanha? Então clique no link acima e veja mais sobre o que estou tentando falar.

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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Réquiem caboclo

1964 + 50
 Histórias de pessoas de carne e osso – e também de personagens de papel – que viveram na roda viva da ditadura militar. Episódios quinzenais toda quinta-feira.

(episódio 21)

por Fernanda Pompeu   ilustração Fernando Carvall

Na manhã do 24 de agosto de 1954, Getúlio Dornelles Vargas atirou contra o próprio peito obtendo 100% de resultado, se tornando um estraga-prazeres, uma mala sem alça, uma pedra no sapato, um estorvo para militares e políticos que estavam prontinhos para surrupiar a presidência da República e sentar seus respeitáveis traseiros nas cadeiras do Palácio do Catete, no Rio de Janeiro.

Antes do tiro, a oposição tinha razão em acreditar que havia encurralado o pai-dos-pobres, a esfinge-dos-pampas, o velho, a raposa. Carlos Lacerda, o Corvo, não dava trégua. Acusava Getúlio de ser o mandante do atentado contra sua vida, que matou o major da aeronáutica Rubens Vaz. Este fazia a vez de segurança de Lacerda. O episódio ficou conhecido como o Atentado da Rua Tonelero, em Copacabana.

A oposição ao Raposa, liderada pelo Corvo, investigou parentes, auxiliares, e principalmente o chefe da guarda pessoal de Getúlio, Gregório Fortunato, que por seu cargo e cor da pele era chamado de o Anjo Negro. Os interrogatórios aconteciam na base área do Galeão, melhor dito, na República do Galeão - por conta do poder concentrado.

Também pipocaram denúncias de corrupção e arrepios da lei. Irmão, filho, genro, dono de jornal foram para a frigideira. É claro que o alvo era o presidente, mas no final não conseguiram provar sua participação em nada. Ao menos, não diretamente. Porém o estrago estava feito.

Hoje, há quem analise que a grande carta do jogo era a recém-criada Petrobras e o projeto da Eletrobras. Evidente que Getúlio Vargas queria uma petrolífera estatizada. Já altas patentes militares, grandes empresários, o Corvo, vários políticos desejavam um modelo aberto ao capital privado e, principalmente, ao capital americano. Argumentavam: “Tupiniquins não são capazes de gerir empresas complexas”.

O Brasil é complicado, mas sua elite política é simples. Ela sempre esteve dividida entre entreguistas e nacionalistas, pró-americanos e pró-cubanos, Miami e Paris, esquerda e direita. Sendo que em todos os governos, com variação de grau, o povo raramente é consultado para as grandes mudanças.

Aliás, no dia seguinte ao suicídio de Getúlio e após a divulgação de sua carta-testamento, finalmente o povo subiu ao palco. Sem pedir licença. Uma multidão chorou a cântaros a morte do três-em-um: revolucionário, ditador, democrata. Rapidamente o clima político favorecendo um Golpe se desfez. O presidente se tornou mártir. Com mitos não se brinca.Os golpistas tiveram esperar por dez anos.

Nesse ínterim, tiveram JK e Brasília, Jânio e a renúncia, Jango e as reformas de base. Até que, num quartel em Minas Gerais, um general tocou a corneta da alvorada de 1964. Tempo que voa. Todas as personagens dessa crônica: corvo, anjo, raposa, generais, presidentes, ditadores estão mortos. O único que segue vivo é a nossa vontade de saber e de contar.

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Fernanda Pompeu é escritora e redatora. Fernando Carvall é o homem da arte.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

O barbeiro machão

por Carlos Conte*

Esperava sentado numa cadeira escolar, quieto no meu canto, enquanto o Barbeiro (vou chamá-lo assim) cortava o cabelo de um homem velho, narigudo e careca – aqui na Vila Romana é um tipo clássico – até que, me olhando pelo reflexo no espelho, o Barbeiro ordenou:

– Não lê essa revista aí, meu! Tenho coisa melhor. Claro: pra quem gosta de mulher!

Sem largar a tesoura, abriu uma gaveta e tirou dali uma pilha de revistas de mulher pelada.

– Lá no armário tem mais! – jogou as revistas no meu colo. – Depois me fala qual é a melhor. Minha preferida é a Patrícia Jordane. Esse Neymar é um cara de sorte, você não acha?...

Patrícia Jordane, ex-affair do Neymar. Essa não conhecia. A edição era recente mas o exemplar estava tão surrado que não pude evitar um princípio de nojo. Muitos pares de mãos masculinas já tinham virado aquelas páginas, só espero que ninguém tenha lido no banheiro (sabemos que isso é quase impossível).

Talvez fosse apenas sua maneira de receber bem um cliente, pondo à sua disposição toda pornografia disponível a fim de agradá-lo. Mas fico com a hipótese de que ele queria me provar alguma coisa, marcar posição, com sua exibição testosterônica exagerada e sem sentido, além de muito constrangedora. Acho que na cabeça dele funciona assim: pelo fato de tocar um salão de beleza masculino – afinal, barbearia não deixa de ser isto: um salão de beleza masculino, sendo barbearia só o nome “macho” para distingui-lo dos salões femininos –, o Barbeiro precisava provar aos clientes que não jogava no “outro time”. Atitudes como a dele, afobadas, atrapalhadas, escondem na verdade um medo terrível. Medo de passar por “cabeleireiro”.

Ao mesmo tempo em que provava sua “macheza”, ele me testava. Notei que o Barbeiro, entre uma tesourada e outra, ficava me olhando pelo espelho enquanto eu folheava a revista. Dependendo da minha reação diante da Playboy, ficaria provado se eu jogava ou não no “time” dele.

– E aí, aprovou?

– Nada mal...

Quando perguntada pelo repórter se vale tudo entre quatro paredes (já que no futebol existem regras bem definidas), a Maria Chuteira não titubeou: “com certeza!”.

O problema dessas revistas é que as fotos são ruins e cheias de photoshop. Um pouco de olhar crítico já faz você perder o tesão. Tem que entrar no jogo, abstrair. Tipo futebol. Se você começa a pensar um pouco, já era. Por isso que na adolescência eu gostava tanto de revista de sacanagem. Hoje não sinto a menor emoção. E a Playboy já foi uma revista melhor.

– Viram a polêmica da Viviane Araújo? Lembrei disso agora porque o cara que aparece no vídeo é careca...

O cliente e eu nos entreolhamos pelo espelho.

– Não viram? Não acredito! Dá uma olhada nisso aqui... – e me empurrou o iPhone.

Eram imagens de uma câmera de vigilância, dessas que nos filmam pra lá e pra cá o dia todo. Um carro estaciona numa rua deserta, um homem e uma mulher saem do veículo, abrem a porta traseira, ela se debruça no banco de trás, ele fica em pé atrás dela, e então, sem desconfiar de nada, começam a fazer sexo ali mesmo. Tem uns 2 minutos. O homem é calvo. A mulher, de fato, é bem parecida com a garota do Fantástico 94. Nunca vou me esquecer dela apagando a lousa na Escolinha do prof. Raimundo.

Claro que no dia seguinte ela negou tudo. No Instagram, descolou um álibi: no mesmo dia e no mesmo horário, cumpria compromisso com uma escola de samba. Abri a edição do mês seguinte e comecei a ler uma entrevista com o deputado Jean Wyllys, em que ele conta da sua experiência com maconha, diz que já ficou com meninas e admite que é um cara feio. Já pensou se o Barbeiro descobre que eu estou lendo a entrevista do Jean Wyllys? Ia ser divertido. Corrijo: ia ser pavoroso. Mas nunca, nunca mesmo, se deve arrumar encrenca com um barbeiro. Caso você brigue com um, nunca mais ponha os pés lá. Quem está com a navalha é ele, não você. O pescoço é o seu, não o dele. Enfim, essas coisas do dia a dia às quais precisamos estar sempre atentos. E com garçom é a mesma coisa.

Chegou minha vez. O de sempre: diminuir o volume e fazer um corte “normal” (seja lá o que isso signifique), mas não tem muito o que inventar na minha vasta cabeleira.

– Gostou da Viviane? – ele insistiu.

– Gostei.

– Lembra quando o professor Raimundo chamava ela pra apagar a lousa?

Só queria dizer a ele que não precisava forçar tanto a barra para provar sua heterossexualidade. “Já entendi, cara. Você gosta de mulher, parabéns! Eu também. Mas isso agora não importa. Corta meu cabelo e dá um tempo!”.

Claro que não foi isso que eu disse. Melhor não contrariar quem está com a navalha na mão. Afinal, o pescoço é o meu, não o dele.

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Carlos Conte, sociólogo, é também resenhista e cronista. Mantém a coluna mensal Casa de Loucos, uma homenagem aos mestres João Antônio e Lima Barreto.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Lina Bo Bardi: a arquiteta-antropóloga

CENTENÁRIO: autora de projetos famosos, como os do Masp e do Sesc Pompeia, Lina Bo Bardi, que ainda na Itália juntou-se à resistência antifascista e se dizia “stalinista”, alcança um nível de reconhecimento que não teve em vida.

por Marcos Grinspum Ferraz
[texto originalmente escrito para a revista Retrato do Brasil]

Lina Bo Bardi, nascida em Roma, na Itália, em dezembro de 1914, não só escolheu o Brasil como pátria, como foi apaixonada por este país, suas paisagens e culturas. Como ela mesma escreveu: “Naturalizei-me brasileira. Quando a gente nasce, não escolhe nada, nasce por acaso. Eu não nasci aqui, escolhi este lugar para viver. Por isso, o Brasil é meu país duas vezes, e eu me sinto cidadã de todas as cidades, desde o Cariri ao Triângulo Mineiro, às cidades do interior e da fronteira”. Mas, se a arquiteta escolheu o Brasil com tamanha convicção, o Brasil não parece tê-la aceitado, ou compreendido, do mesmo modo. Hoje celebrada como um dos maiores nomes da arquitetura mundial da segunda metade do século XX, sendo tema de exposições, livros, artigos de jornais e estudos acadêmicos, Lina não teve o mesmo reconhecimento em vida.

Na verdade, de 1946, quando desembarcou no Brasil, até sua morte, em 1992, a arquiteta enfrentou uma série de dificuldades na carreira, passou por longos períodos de ostracismo e deixou, ao todo, não mais de dez obras construídas. Entre elas estão algumas das mais notáveis edificações do Brasil moderno, como o Museu de Arte de São Paulo (Masp), o Sesc Pompeia (ambos na capital paulista) e o restaurado Solar do Unhão (em Salvador), mas poderia ter deixado mais. E, se é difícil explicar com precisão os motivos de tantas adversidades – que passam pelos fatos mais óbvios de ser mulher em uma sociedade machista, ser “estrangeira” em tempos de nacionalismo ou, ainda, ser casada com um sujeito polêmico, como Pietro Maria Bardi –, há algo notável sobre a arquiteta que se relaciona à maioria de seus fracassos e sucessos: Lina não seguiu padrões, modelos prontos e modismos, nunca escolheu os caminhos fáceis e não hesitou em experimentar, subverter e ir contra os discursos hegemônicos na política ou na cultura. Sem se enquadrar – mesmo dentro do modernismo ou da esquerda –, ela fez da arquitetura sua arma para a transformação do mundo em um lugar mais igualitário e “humano”. Incomodou e por isso pagou preços, mas deixou, ao fim, um valioso legado para a arquitetura e para o País.

“Hoje as pessoas veem a obra dela com certa esperança, com grande frescor, algo que não houve à época”, diz Zeuler Lima, professor da Washington University em Saint Louis (EUA) e autor de extensa pesquisa sobre Lina. “O discurso modernista também não abria espaço para certos experimentos, e acho que a obra dela foi bastante experimental, não só do ponto de vista tecnológico, prático, mas também na maneira como ela pensava.” O pesquisador costuma dizer que Lina foi uma arquiteta moderna, mas não modernista, já que não perseguia uma linguagem específica nem seguia determinadas regras formais em sua produção – ao contrário, por exemplo, de outros grandes, como Oscar Niemeyer. “A Lina constrói com tijolo, concreto, ferro, pedra, barro, palha, com qualquer tipo de coisa”, diz o arquiteto André Vainer, que trabalhou com Lina por cerca de 13 anos, entre 1977 e 1992. “Você olha a cobertura da Casa do Benin [Salvador, 1987], de barro, e compara com o Masp [São Paulo, 1957–1968], são coisas diametralmente opostas, e isso é um sinal de liberdade enorme, de abertura para projetar.”

Construir sem regras técnicas e formais não era algo gratuito, mas parte de uma concepção de que o arquiteto deve entender os contextos sociais e humanos de cada local para poder projetar. Para Lina, cada caso era um caso, e a arquitetura deveria ter como protagonista o ser humano, não o espaço, como ela mesma disse certa vez. “Ela olhava o espaço não como os arquitetos geralmente definem, que é um espaço vazio cartesiano geométrico, mas como os antropólogos definem, que é o espaço vivido”, diz Lima. “Iniciava um projeto com o que ela tinha, seus princípios, mas recebia do mundo e das situações, e esse diálogo criava-se na própria obra.” Quando, num fim de semana, foi pela primeira vez à velha fabrica instalada no bairro paulistano da Pompeia – que seria transformada em uma das sedes do Serviço Social do Comércio (Sesc) – e viu famílias comendo e conversando, com seus filhos brincando, Lina afirmou: “É essa a atmosfera que quero manter aqui”. Nesse sentido, diz Vainer, “a Lina representa um tipo de arquitetura que tem um respaldo com a realidade muito grande, o que é raro hoje. Ela sempre trabalhava a partir de ideias que não eram de arquitetura, mas de relacionamento humano, de sociedade, de justiça entre os homens e de comportamento”.

Se não teve tantas obras construídas, Lina foi incansável em sua produção em diferentes áreas. Foi também designer, cenógrafa, editora de revistas, curadora de museus e exposições e até “estilista” – chegou a desenhar roupas e joias, principalmente nos primeiros anos no Brasil. Mas, na verdade, tudo para ela era arquitetura. As coisas se misturavam, de modo híbrido, e tudo estava dentro de um jeito maior de pensar a profissão, o mundo e o ser humano dentro dele. “Arquitetura, para mim, é ver um velhinho, ou uma criança, com um prato cheio de comida atravessando elegantemente o espaço do nosso restaurante à procura de um lugar para se sentar, numa mesa coletiva”, disse certa vez no Sesc Pompeia. Lina trazia de sua formação em Roma, influenciada pelo professor Gustavo Giovannoni, uma ideia do “arquiteto total”. “Para ela, o arquiteto deve vestir a ‘pele do lobo’: ser cozinheiro para projetar uma boa cozinha, ser aluno e professor para projetar uma boa escola, ser ator e espectador para projetar um bom teatro”, escreve Marcelo Ferraz, arquiteto que trabalhou por 15 anos com Lina.

Para poder se propor a fazer uma arquitetura tão diversa e experimental e conseguir transitar com tamanho êxito por variados campos do conhecimento, ainda mais sendo mulher em meados do século XX, Lina precisava de conhecimentos e ferramentas poderosos. E os tinha, como relembra Vainer: “Uma capacidade de desenho e de síntese impressionante, um entendimento da história da arquitetura, uma postura ideológica muito bem definida e construída e uma postura de liberdade”. Para entender um pouco como isso foi criado, é preciso voltar à vida de Lina desde os primeiros tempos.

Os anos de infância e juventude de Achillina Bo (nome de batismo) na Itália não transcorreram em período tranquilo da história do país. Muito pelo contrário. Se a Primeira Guerra Mundial (1914–1918) acabou quando ela tinha apenas quatro anos, a ascensão do nazifascismo e a tensão do período entreguerras foram vividas de perto pela garota, que, em seus anos de formação, já demonstrava talento excepcional para a pintura e o desenho.

Após se formar na Faculdade de Arquitetura da Universidade de Roma, em 1939, Lina mudou-se para Milão e foi trabalhar no escritório do célebre arquiteto Gió Ponti. Enquanto aprendia com a prática diária da profissão, Lina logo teve que lidar com a eclosão da guerra, o que a marcou de modo profundo. “Entre bombas e metralhadoras, fiz um ponto da situação: importante era sobreviver, de preferência incólume. Mas como? Senti que o único caminho era o da objetividade e racionalidade, um caminho terrivelmente difícil quando a maioria opta pelo ‘desencanto literário e nostálgico’. Sentia que o mundo podia ser salvo, mudado para melhor, que essa era a única tarefa digna de ser vivida. (...) Entrei na Resistência, com o Partido Comunista clandestino.” Em período pouco propício para a arquitetura – quando prevalecia a destruição, não a construção –, Lina intensificou o trabalho como ilustradora de revistas e jornais e como editora. Foi também aí que assimilou algumas das bases do que seria sua arquitetura até o fim da vida. “Quando as bombas demoliam sem piedade a obra e a obra [sic] do homem, compreendemos que a casa deve ser para a ‘vida’ do homem, deve servir, deve consolar, e não mostrar, numa exibição teatral, as vaidades inúteis do espírito humano. A guerra destruiu os mitos dos ‘monumentos’. Também na casa. (...) Os móveis devem ‘servir’, as cadeiras para sentar, as mesas para comer, as poltronas para ler e repousar, as camas para dormir, e a casa assim não será um lar eterno e terrível, mas uma aliada do homem, ágil e serviçal, e que pode, como o homem, morrer.”

Após chegar ao Rio de Janeiro, em 1946, Lina e Pietro (marchand, crítico de arte e jornalista) foram convidados por Assis Chateaubriand, magnata das comunicações, a ficar no Brasil para criar aqui um museu de arte. Encantada com o novo mundo, terra onde as coisas poderiam florescer livres das amarras do passado – feudal, monárquico, burguês ou de grandes guerras –, Lina convenceu Bardi a ficar. No Museu de Arte instalado na rua 7 de Abril, em São Paulo (sede do grupo Diários Associados, controlado por Chateaubriand), onde o excepcional acervo trazido pelo marido foi acomodado, Lina começou a desenvolver suas primeiras ideias de museu e expografia, que radicalizadas culminaram nos polêmicos cavaletes de vidro do Masp, hoje brutalmente banidos do local. O museu não deveria ser um recanto de memória, um túmulo obsoleto ou um depósito de obras humanas, dizia Lina, mas um lugar vivo e dinâmico, onde devem entrar “luz e ar puro”. Mais do que isso, o museu deveria ser popular, voltado a todos, em uma concepção que pautou todos os seus projetos para espaços coletivos até o fim da vida. “Tirar do museu o ar de igreja, tirar dos quadros a ‘aura’ para apresentar a obra de arte como um trabalho, altamente qualificado, mas trabalho; apresentá-lo de modo que possa ser compreendido pelos não iniciados”, escreveu Lina certa vez.

Inédito: a prisão preventiva de Lina revogada
Após a experiência no museu, para o qual também projetou uma série de móveis, e a criação da revista Habitat, Lina teve sua primeira obra construída em 1951, mesmo ano em que se naturalizou brasileira. A Casa de Vidro, erguida no bairro paulistano do Morumbi, residência construída para morar com Pietro, trazia ainda grande influência da arquitetura racionalista europeia, com a qual Lina tinha tido mais contato até ali. Após ser recusada – em concurso anulado – para dar aula na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da Universidade de São Paulo e com o projeto do Masp, construído na avenida Paulista, já em curso, Lina viajou para sua primeira grande estada na Bahia, o que representa talvez a grande transformação em suas ideias e obra.

Convidada para dar um curso e, posteriormente, criar o Museu de Arte Moderna da Bahia, no teatro Castro Alves, a arquiteta entrou em contato com outro Brasil, com a cultura popular e com realidades que desconhecia em São Paulo e no Rio. Lá também projetou a restauração do Solar do Unhão, um importante conjunto arquitetônico de Salvador, e conheceu o cineasta Glauber Rocha, o etnólogo Pierre Verger e outros importantes intelectuais.

Em 1964, de volta a São Paulo, já com as tensões geradas pelo golpe militar, Lina continuou tocando as obras do Masp, inaugurado finalmente em 1968. No entanto, mais engajada com a contracultura e com a luta contra a ditadura, Lina passou a apoiar a guerrilha nos chamados anos de chumbo, num capítulo pouco conhecido de sua vida. Sabe-se que a arquiteta sediou em sua casa reuniões da Ação Libertadora Nacional (ALN), grupo de Carlos Marighella, e foi perseguida pelos agentes da repressão. Com os bons contatos que tinha, principalmente o apoio do marido – homem bem relacionado e não engajado na luta política –, Lina se exilou na Itália por cerca de uma ano, enquanto um processo de prisão corria na Justiça Militar brasileira. Lina voltou em 1971, quando os militares revogaram sua prisão preventiva (imagem ao lado). A posição política da arquiteta, aparentemente bastante à esquerda e engajada quando se analisam episódios como esse, é relativizada por alguns pesquisadores de sua vida, que enxergam uma série de contradições em suas posições ao longo da vida. Lina foi amiga de figuras conservadoras e trabalhou com políticos de direita em certos momentos, ao mesmo tempo em que foi próxima de artistas libertários e chegou a afirmar, mais de uma vez, ser “stalinista”.

Sesc Pompéia, SP: espaço público igualitário e democrático 
“É uma pessoa muito complexa”, diz Vainer. “Às vezes eu fico tentando enquadrá-la, mas a verdade é que não dá. Quando ela dizia que era ‘stalinista’, isso estava muito mais ligado ao papel que Stalin teve durante a Segunda Guerra Mundial, que possibilitou que os Aliados vencessem os nazifascistas, do que a qualquer outro sentido atribuído ao termo, como os relacionados a expurgos, matanças. Ela era mais ligada a uma esquerda mais moderna, desligada do ‘partidão’, da União Soviética. Era heterogênea.” O documento da revogação do pedido de prisão na época da ditadura , por exemplo, foi dado por Lina à Vainer e Ferraz nos anos 1980, em uma pastinha que continha também uma foto de Che Guevara e outra de Lenin. “Ela tinha uma vida burguesa, afinal o Bardi tinha muito dinheiro”, diz Vainer. “E por isso também fez gratuitamente os projetos do Masp e da Igreja de Uberlândia. E acho que isso é também uma espécie de distribuição de renda, uma postura socialista de certa maneira. Algo como: ‘Eu não preciso desse dinheiro, mas quero doar meu conhecimento’.” Seja como for, com suas contradições e coerências – Lina também gostava de chocar, o que deve ser levado em conta –, o fato é que sua arquitetura sempre foi de propósito social, acessível e humanizada. O Sesc Pompeia, para o qual a arquiteta foi chamada após longos anos “colocada de escanteio” pelo poder político e também pela arquitetura dominante, talvez seja a experiência mais bem-sucedida de Lina no sentido de utilizar a arquitetura para criar um espaço democrático e igualitário. Nos anos seguintes, entre 1986 e 1990, já bastante madura e calejada, Lina pôde, em seu segundo período na Bahia, fazer uma série de projetos, como Casa do Benin, Casa do Olodum e Ladeira da Misericórdia – o qual viu ser abandonado e parcialmente destruído ainda em vida. Ali levou ao máximo sua experiência como arquiteta-antropóloga, se assim podemos dizer, investigando e vivenciando intensamente a cultura popular baiana e afro-brasileira.

“Lina tinha um grande idealismo. E isso é diferente de utopia, pois era um idealismo de pensar não o impossível, mas o possível. Pensar um futuro melhor não abstratamente, mas no que existe, no aqui e no agora”, diz Lima. “Ela era uma pessoa extremamente generosa com a arquitetura, com a ideia de que a arquitetura tem um propósito e que ele tem que ser social, humano”, conclui. Com a visão de alguém que conviveu de perto por tanto tempo, com uma experiência não só profissional, mas afetiva e de amizade, Vainer ressalta que a generosidade ia para muito além da arquitetura. “Tanto que ela deu para mim e para o Ferraz isso tudo que temos. Ela nunca regulou conhecimento, sempre nos ensinou, exigiu que a gente tivesse uma postura em relação ao trabalho, às ideias. Quando a gente se conheceu, ela tinha 63 anos, eu 23 e o Ferraz, 22. E acho que ela pensou: ‘Vou pegar esses dois caras, porque eu preciso de alguém para fazer os desenhos e tal, mas também vou pegar para ensinar’.”

Em tempos de arquitetura monumental e extremamente cara, por vezes pouco conectada às realidades e contextos locais, Lina ressurge como outro modo possível de se pensar e fazer. Se isso ocorre um tanto tardiamente, o que importa é que a arquiteta é cada vez mais lembrada e difundida, especialmente no ano de seu centenário. “A obra da Lina não era como essa arquitetura ‘do espetáculo’, que é basicamente um exercício de técnica e virtuosismo, tão distante da realidade do homem”, diz Vainer, referindo-se a uma arquitetura de obras faraônicas que predominou nos anos 1990 e 2000. Na mesma linha, Lima conclui: “A arquitetura de Lina é espetacular, não é ‘do espetáculo’. É de propósito à vida”.

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Marcos Grinspum Ferraz, jornalista e saxofonista da banda Trupe Chá de Boldo mantém a coluna mensal Verbo Sonoro, sobre cultura, música e afins. Crédito da imagem de abertura: Arquivo Joaquim Guedes
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