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Mulheres acompanham um debate parlamentar no Irã | Associated Press

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Impropriedades

por Júnia Puglia   ilustração Fernando Vianna*

Qualquer pessoa que tenha um lugar de moradia para chamar de seu sabe como é: a quantidade de tralha com que entupimos nossas casas é chocante. A gente meio que finge que não vê, mas, cada vez que temos que fazer mudança e somos obrigados a encarar a realidade, constatamos, resignados, nossa capacidade de acumular coisas, independentemente da utilidade ou aplicabilidade dos trens empilhados e empaçocados em armários, estantes, gavetas ou qualquer fresta por onde passe mais que uma folha de papel. Somos acumuladores contumazes, inclusive de coisas que, se algum dia tiveram um papel a cumprir na nossa vida, como revistas, livros e CDs, atualmente desfrutam de um empoeirado sono eterno. Fora badulaques de tudo que é jeito. E um detalhe importante é que esta questão independe da metragem de que dispomos. Em quase todas as casas, por menores e mais modestas que sejam, há tralha suficiente para ocupar outra área equivalente.

O fato é que gostamos da ideia de ter, não só coisas, objetos, mas também pessoas e memórias. Ou seja, o sentimento de posse se estende àqueles por quem temos afeto e às lembranças daquilo que valorizamos na nossa experiência de vida. Daí a quantidade de fotos das pessoas queridas e dos lugares e situações que cultivamos na memória afetiva e gostamos de ter por perto, numa interminável reedição dos sentimentos que significam, mesmo guardadas em caixas ou computadores, e jamais organizadas.

Diz o dito popular, sábio como sempre, que caixão não tem gaveta. Tudo o que tiver sido importante para nós durante a nossa trajetória de vida vai ficar aqui quando já não estivermos. O máximo que levaremos conosco são as roupas que cobrirão a nudez em que todos aqui desembarcamos. Nem mesmo as pessoas que amamos poderão nos acompanhar na derradeira viagem. Já sabemos, mas não custa lembrar.

É bem por isto que tenho pensado muito em desencanar das tranqueiras, eventualmente me desfazer delas, e me dedicar a correr atrás de impropriedades, não na forma como as definem os dicionários (ou talvez sim, em certa medida), mas na maneira de ter e tratar as pessoas e coisas que me cercam e compõem o meu patrimônio imaterial. A propósito, esta expressão é um achado precioso, uma bela ideia, ao juntar duas saborosas palavras, que tinham tudo para ser inconciliáveis. Aliás, as palavras, paus para toda obra, pedregulhos e diamantes ao mesmo tempo, proporcionam fartas colheitas imateriais de bonitezas e feiúras para todos os gostos.

Os assuntos já se misturaram, mas eu estou gostando muito desse rumo e dessa prosa.

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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Em nome do filho

1964 + 50 
Histórias de pessoas de carne e osso – e também de personagens de papel – que viveram na roda viva da ditadura militar. Episódios quinzenais toda quinta-feira.

(episódio 20)

por Fernanda Pompeu     ilustração Fernando Carvall

Enquanto os foliões cariocas pulavam nas ruas a alegria do carnaval de 1974, reciclando mais uma vez homens vestidos de mulheres, pierrôs e colombinas, dois jovens  Fernando Augusto de Santa Cruz Oliveira e Eduardo Collier Filho  eram presos por agentes do DOI-CODI do Rio de Janeiro. O fato ocorreu em Copacabana, onde Fernando e Eduardo haviam marcado um encontro.

Os dois eram militantes da APML (Ação Popular Marxista Leninista). Era uma entre várias micro-organizações que tentavam enfrentar a ditadura militar instaurada dez anos antes daquele carnaval de 1974. Se atrás de uma bola vem sempre uma mãe. Atrás de um filho preso também. Foi assim que Elzita, mãe de Fernando, e Risoleta, mãe de Eduardo deram início à épica procura por seus filhos.

As duas tentaram de tudo. Falaram com carcereiros, bispos, militares. Estiveram frente a frente com o general Golbery do Couto, o todo poderoso chefe do Gabinete Civil da Presidência da República. Ele as ouviu em silêncio e em silêncio permaneceu. Informações posteriores comprovariam que Fernando e Eduardo tinham sido mortos sob torturas. De maneira bem frequente naqueles anos, seus corpos desapareceram.

Em entrevista a Patrícia Negrão, no livro "Brasileiras Guerreiras da Paz", publicado em 2006, Elzita Santa Cruz Oliveira diz: "Depois que perdi a esperança de encontrar Fernando, só me restou falar, para que um fato tão triste não caísse no esquecimento". Antes da prisão do filho, Elzita já havia vivido o sufoco da prisão da filha Rosalina.

Por Rosalina Santa Cruz, ela também bateu portas de quartéis. Desafiou o arbítrio e o totalitarismo dos homens de farda: "Eu sentia medo. Mas por um filho, vou até para dentro do fogo". A mãe acabou encontrando a filha, solta um ano depois de presa. Mas com Fernando a história seria mais triste. Sem pistas, sem corpo. Apenas matéria incendiando a memória.

Fernando, nascido no Recife, em 1948, foi preso a primeira vez ao participar de uma manifestação estudantil contra os acordos MEC-Usaid. Refrescando os fatos: esse acordo era pura subserviência aos Estados Unidos. Indicava privatização do ensino, entre outras injustiças. Foi aí que Filosofia e Latim foram retiradas da grade do ensino fundamental. Por ser menor de idade, o rapaz permaneceu pouco tempo detido.

Mas em 1974, o carnaval foi outro. Havia ordens de desmantelar o maior número possível de organizações opositoras à ditadura. Ordem de torturar e matar os militantes. E, é claro, desaparecer com seus corpos. Como se nunca nada tivesse acontecido. Como se fosse super natural matar Fernando, deixando o filho Felipe, então com dois anos, órfão.

Até hoje, neste ano da graça de 2014, famílias inteiras seguem esperando por respostas. Nenhuma alimenta a ilusão de encontrar pais, filhos, irmãos vivos. O que querem é o direito básico da verdade. Não só isso. Querem também divulgar como essas pessoas morreram e quem foram seus assassinos.

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Fernanda Pompeu é escritora e redatora. Fernando Carvall é o homem da arte.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Balcão, bebiba, barra, Biro

por Carlos Conte*

O bar do Biro é o melhor que eu conheço. Baiano albino, o Biro tem esse apelido por causa do ex-volante corintiano dos anos 80, o Biro-Biro (que o presidente Mateus certa vez chamou de Lero-Lero...). O Biro me lembra um personagem sertanejo da Rachel de Queiroz chamado José Alexandre, “caboclo hercúleo” que vivia isolado numa fazendinha no Ceará e que pelo fato de falar muito pouco sua voz era sempre rouca, “como a de um bicho que aprendesse a falar”. O Biro também não é de falar muito e está sempre rouco. Algumas pessoas são roucas por natureza e acho que esse é o caso do Biro. Por isso, pra ser escutado no meio do barulho do boteco, ele é obrigado a forçar a voz: “vai uma seLEta?”, ele pergunta, com ênfase na tônica, como se levasse um susto no meio da frase.

Crônica tem um quê de conversa de bar. E tem bares que merecem uma crônica. Já escrevi sobre o Silveirinha, poderia escrever sobre o Valadares, o Biu, o bar do Paulo, o bar do finado Vavá... Esses são os meus bares. Meus bares! Com pronome possessivo e tudo. Desses todos, porém, o Biro é o meu predileto, pois no quesito mais importante que existe quando se julga um bar, o Biro vence.

Variedade de cervejas? Sem dúvida esse quesito é importante, mas o Sagarana não é o meu bar preferido, muito menos o Frangó lá da Freguesia. Petiscos? Claro, são fundamentais (aliás, descobri que tem um bar de happy-hour numa travessa da Paulista que tem rodízio de petiscos, mas nunca fui). Atendimento? Limpeza? Serviço delivery?...

Quando elejo o Biro, não me refiro a nenhum desses quesitos adotados pelos críticos dos Guias e Revistas de São Paulo, até porque o Biro perderia em todos, exceto atendimento, pois simpatia e solicitude são a marca registrada do Biro, auxiliado por seu fiel escudeiro Geladeira (porque ele sempre está atrás do balcão, de pé, parado, como uma geladeira... Apelidos de bar é um tema que daria outra crônica).

Para mim, o principal aspecto quando se avalia um bar é tão subjetivo quanto o conceito de liberdade: cada um sente de um jeito diferente, cada um pode relatar experiências, manifestações reais, efêmeras ou duradouras, mais intensas ou menos, mas é difícil cravar “liberdade é isso”, “felicidade é aquilo”, como para mim é difícil encontrar a melhor palavra que defina essa adoração que tenho pelo bar do Biro.

Tem a ver com acolhimento. Sem dúvida. O Biro é meu refúgio. Eu procuro isso num bar. Nem sempre, é claro. Algumas vezes procuro mulheres. E cada vez mais elas estão indo ao Biro. O Biro é um bar que o Antônio Prata chamaria de “meio intelectual, meio de esquerda”, com seu balcão velho de fórmica, os bancos gastos, um enorme mapa múndi, um barrilzinho de pinga com o distintivo do Corinthians, a mesa de sinuca no fundo (onde as caçapas são tão apertadas que às vezes parece que o jogo não vai acabar nunca), mas o principal são os dois grandes painéis laterais, retratando cavalgadas e paisagens bucólicas. Esses painéis são realmente incríveis, eu não me canso de olhar para eles. A típica coisa brega/autêntica que a galera pira, e eu já me acostumei tanto com aqueles cavalos ali, me olhando, que não imagino como seria o bar sem eles. Até que um dia, dando na telha ou entrando um dinheiro extra, o Biro manda passar uma tinta, faz uma parede com textura ou algo do tipo, mais “moderno”, mais fácil de limpar, e acaba com a graça da galera hipster.

Voltando ao meu critério para preferir o Biro, refiro-me a um estado de bem-estar simples, absolutamente trivial: encostar-me ao balcão, tendo a minha frente uma garrafa de cerveja e um copo americano. Isso é o básico de um bar. O resto é acessório. Isso remonta, sem dúvida, ao primeiro bar da história da humanidade e ao seu primeiro frequentador, que certamente saiu de lá, montando em seu cavalo, satisfeito e surpreso com aquela experiência incrível, tão simples, tão fundamental: sentar-se ao balcão e beber, se possível beliscando um amendoim, mas isso já é secundário. O principal: balcão, bebida, barra. Sem pentelhação, sem encheção de saco, ninguém tagarelando na orelha. Balcão, bebida, barra – com aliteração e tudo! Sem dar satisfação, sem olhar o cardápio, sem ter que xavecar ninguém, sem ter que escolher a roupa antes de sair de casa. Balcão, bebida, barra e foda-se a menina que você tem que paquerar, que você tem que dar em cima, senão algum filho da puta incansável vai levar a melhor nessa história. Balcão, bebida, barra e não preciso me posicionar politicamente, nem falar de trabalho, nem convencer ninguém sobre nada. Balcão, bebida, barra, Biro e foda-se o mundo, amanhã eu volto a me preocupar com ele...

Tudo isso eu encontro lá, talvez você encontre em outro bar, talvez isso não faça o menor sentido pra você, e neste caso eu recomendo o happy-hour-rodízio-de-petiscos da Paulista ou qualquer lugar novo na Vila Madalena onde a gente não consegue nem escutar o próprio pensamento.

Sobre a barra, o Migue, amigo que entende de bar como poucos e que por isso adora o Biro, me contou que foi ela, a barra, que deu origem ao nome “bar”. Ela é essencial. É onde a gente apoia os pés – quer coisa mais importante do que isso? Mas não é todo mundo que tem consciência da importância dessa barra, sem a qual a gente começa a sentir desconfortos terríveis nas pernas e nas costas. Muito dono de bar não sabe disso e simplesmente manda tirar, como se não fosse fazer falta.

Do outro lado do balcão, está o Biro, solícito, honesto, atento (qualidades que lembram o seu Zé, o garçom que fez tanta fama que acabou dando nome ao bar das empanadas chilenas. Que fim ele teve?). Ali está o Biro e toda vez eu tenho vontade de dizer pra ele como eu gosto do seu bar, como para mim é bom estar ali olhando os cavalos, o mapa, o Geladeira, as bolas numeradas correndo pra lá e pra cá, escutando os frequentadores da velha guarda combinando seus churrascos de aniversário, suas caravanas para o litoral... Enquanto isso, amigos de facebook fumam seu cigarro na calçada. Enquanto isso, eu medito, e bebo.

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Carlos Conte, sociólogo, é também resenhista e cronista. Mantém a coluna mensal Casa de Loucos, uma homenagem aos mestres João Antônio e Lima Barreto.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Agradecida

por Júnia Puglia     ilustração Fernando Vianna*

De tempos em tempos, aparece em alguma revista semanal um longo artigo sobre os avanços da medicina no tratamento de bebês prematuros. Falam sobre como evoluíram o conhecimento sobre o assunto, os equipamentos e a capacidade de fazer sobreviverem prematuros cada vez mais prematuros e menores. As matérias incluem testemunhos de pais, médicos e outros profissionais sobre as complicações e situações-limite, e também sobre a satisfação com os resultados obtidos, pois muitas dessas crianças – mas não todas – superam as dificuldades iniciais e vivem sem qualquer sequela importante.

Se bem que tudo depende das circunstâncias. Acabo de ver uma reportagem na televisão sobre o fato de a prematuridade ter sido alçada ao topo da lista mundial de causas da morte de crianças com até cinco anos de idade, um posto até recentemente ocupado pela pneumonia. Este fato pode ser um reflexo da tendência de tentar salvar bebês cada vez menos amadurecidos, e em condições extremamente precárias, além de trazer embutidas as dificuldades de atendimento em lugares que carecem de recursos médicos, econômicos e educacionais adequados.

Eu nasci prematura, na segunda metade da década de 1950, no interior de São Paulo. Segundo a informação que me chegou, uma bebê bastante frágil, com baixo peso e estranhos sintomas, que ora me parecem uma síndrome respiratória típica, ora “petit mal”, dependendo da ênfase de quem relata. Até onde sabemos, não houve um diagnóstico definitivo.

Com alguns meses iniciais na incubadora, e depois muitas idas e vindas ao hospital, meu primeiro ano foi bem atribulado. Entretanto, dos tais sintomas, não restou nenhuma sequela. Embora tenha demorado um pouco para cumprir as primeiras etapas de desenvolvimento psicomotor, por volta do segundo aniversário eu já era uma menina perfeitamente ajustada ao ritmo da infância considerado normal.

Mas não foi bem assim. Levei muitos anos para perceber que aquela sombra que eu sentia me encobrindo desde que me entendia por gente tinha um nome: dor. O frio interno, a sensação de abandono, aquela ferida que me fazia sangrar por dentro o tempo todo, e que não tinha razão compreensível, atendiam todos pelo nome de dor. Hospital, solidão, luz artificial, tristeza, desconforto, e sabe-se lá que outras experiências parecidas, que hoje considero superadas, deixaram suas marcas.

Fotos de super-prematuros acomodados na palma das mãos dos adultos me dão pânico. Tenho vontade de gritar, de sair correndo. As revistas têm um prazer todo especial em exibi-las nas suas capas. As façanhas médicas fascinam e estimulam mães e pais a buscar, compreensivelmente, que seus bebês vivam, não importando as dificuldades implicadas. Os médicos têm aí oportunidades preciosas de exercer e exibir suas habilidades, técnicas e competências. Felizmente, pelo que tenho lido nos últimos tempos, tem havido uma crescente preocupação com tratamentos e abordagens menos invasivas e agressivas e mais voltadas para proporcionar acolhimento adequado, conforto e bem-estar às criaturinhas que chegam ao mundo antes da hora.

Viver vale a pena, sempre. Eu não preferiria ter aberto mão da experiência vital, mesmo porque aquilo tudo ficou bem lá atrás, mas talvez sobreviver pudesse ter envolvido menos dor e sofrimento. Naquele tempo, acho que isto não teria sido possível, e sei que recebi o melhor que estava ao alcance. Por mais distante no tempo que esteja a minha experiência, é alentador saber que a neonatologia está indo além da garantia da sobrevivência física e tem cada vez mais voltando seus esforços para o alívio do desconforto, tensão e dor dos prematuros. Agradeço de coração, profundamente, qualquer esforço neste sentido.

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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Uma estrada de Natal a São Paulo


por Nina Madsen   ilustração Marcelo Martins Ferreira*

A história de Seu João foi um desses presentes inesperados que algumas corridas de taxi nos oferecem. Estava em Natal, a caminho do aeroporto para voltar para Brasília. Dirigindo o taxi, um senhor de mais de 60 anos, animado e falante, louco para me contar sua história. Ela foi se desdobrando no decorrer do longo caminho rumo ao novo aeroporto da cidade, noutra cidade – São Gonçalo do Amarante.

Seu João foi dirigindo e me contando que por ali nascera e vivera a infância. Naqueles tempos, a distância era ainda maior, não em chão, senão em horas e dificuldades de percurso. A cidade de sua infância era um vilarejo feito na areia e por ela João caminhava todos os dias, descalço, fazendo o caminho de casa para a escola, da escola para casa. A caminhada, tão longa quanto nosso trajeto de carro até o aeroporto, era ato de resistência e insistência – aquela mesma teimosia da qual já falei por aqui.

Pois Seu João era teimoso nisso de ir à escola. E teimoso também na ideia de fazer crescer seu mundo. De modo que aos dezessete anos, decidiu subir em um ônibus e tentar a vida em São Paulo, terra prometida de então, numa época em que a seca e a falta d’água eram chagas nordestinas exclusivas.

Disse que preparou a marmita na lata de leite e se foi. Logo no início da travessia, Seu João foi reconhecido por um primo distante que não via há muitos anos. Contou da sua corajosa aventura e recebeu do parente o endereço de seu irmão, que morava em São Paulo, e uma foto, para que ele pudesse ser identificado como família.

E seguiu viagem, certo de que em não mais que sete horas estaria na grande cidade. E eis que aquelas sete horas começaram a se multiplicar em dias – três no total – e João, faminto, sem tostão que fosse para enganar o vazio do corpo. Quando chegou a São Paulo, foi em busca da casa do parente. Quem abriu a porta foi a mulher do primo, que nem de longe conhecia Seu João. Mas ao olhar a foto do marido mais novo, deixou entrar o garoto, dando-lhe logo de comer. Ele me contou com detalhes o banquete de pão com manteiga e carne com que apaziguou sua fome. E como em seguida saiu para passear pela cidade, deparando-se com um cartaz de Precisa-se de cobrador, em frente à parada de ônibus. Apresentou-se. O motorista pediu que fizesse umas somas – ele era bom de matemática – e o contratou.

E Seu João assim se instalou em São Paulo. Casou-se, teve filhos e foi fazendo por lá a vida. Quando pôde, voltou para sua terra de origem. Seus filhos, hoje adultos, nunca precisaram caminhar descalços em chão de areia para ir à escola.

Seu João não me contou das desventuras que viveu por lá pelo sudeste. Não me contou das discriminações, do preconceito, do ódio. Não precisou. Eu imaginei mesmo assim.

A história dele era a de sua satisfação e de seu orgulho com a vida vivida. Orgulho que logo virou meu também, orgulho por tabela, orgulho por emoção. De ver gente assim, que acredita na vida em qualquer circunstância. Gente que sabe caminhar seu caminho, que entende que entre Natal e São Paulo é uma terra só (sempre bom lembrar...), toda pronta para ser desbravada. Por mais que nos digam o contrário.

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Nina Madsen escreve por gosto e necessidade desde que se lembra. Formada em Letras, caminhou pelos campos da educação até que se fez feminista e socióloga, por azar ou sorte. Integra o colegiado de gestão do Centro Feminista de Estudos e Assessoria, o CFEMEA, e colabora com a Universidade Livre Feminista. Aventura-se pelo avesso do mundo quinzenalmente, na coluna Crônicas do desmundo. *Desmundo aqui faz referência ao romance de Ana Miranda, uma lindeza literária que nos conduz pelas fronteiras entre o real e o onírico. Marcelo Martins Ferreira, ilustrador, design e músico, especial para o texto
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