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Milhares de ciclistas em Budapeste pedem mais infra-estrutura cicloviária. (Reuters)

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Caixa de surpresas


por Júnia Puglia   ilustração Fernando Vianna*

Na área de embarque do aeroporto de Quito, entramos numa livraria e procuramos a estante de Rosa Montero, à época bem menos conhecida e traduzida no Brasil. Faz uns doze anos. Cada uma de nós três comprou um livro diferente, com o acordo de fazermos um rodízio deles. Não lembro qual era o meu. Sentamos à espera do nosso embarque, folheando os livros novos. O título do que a colega ao meu lado havia comprado me chamou a atenção e pedi para vê-lo. Era "A louca da casa", que começa com uma instigante e divertida reflexão sobre a memória, tanto a individual como a compartilhada entre pessoas, por exemplo, da mesma família. Fala da construção que cada um faz dos fatos e situações vividas, tornando-as únicas, e das enormes discrepâncias entre os registros que individualmente fazemos de um mesmo episódio. Não consegui largar o livro e nunca o devolvi à sua dona.

Dado que a memória não é absoluta, muito menos objetiva, sendo, portanto, inútil buscar nela a verdade dos fatos, fica fácil entender a diferença entre o que sempre lembraremos e o que nunca esqueceremos, nuances sujeitas, em larga medida, aos sentimentos que associamos ao que nos acontece. E lembranças não pedem licença.

Durante as férias na fazenda, que eu detestava mas nunca consegui driblar, a solidão era a minha melhor amiga. Se fosse no meio do ano, a colheita do milho verde me dava algumas alegrias, como o curau, um dos doces preferidos, e o dia de pamonha, que era um acontecimento. Sacos enormes de espigas eram colocados na varanda de trás da casa e um grupo de umas dez mulheres se organizava para a trabalheira. Descascar e limpar as espigas cuidadosamente, de maneira a preservar a palha o mais inteira possível, ralar o milho em grandes ralos feitos de folhas de latas de óleo de vinte litros furadas com pregos, costurar à máquina bolsas com as folhas de palha, que receberiam a massa de milho verde, amarrar as bolsas cheias com finas tiras da mesma palha, ferver panelões de água e neles cozinhar as pamonhas. E eu ali no meio, ralando milho verde horas a fio e aprendendo o mundo daquelas matutas no conversê que nunca parava e era pura diversão. Era muito transparente o ar nos dias de inverno na roça.

Assim, passou-me voando pela cabeça a cena do grupo ralando o milho verde, enquanto eu escrevia o primeiro parágrafo. Que emendei, por razões insondáveis, com o relato do escritor chileno Antonio Skármeta sobre sua paixão adolescente pela Dalva de Oliveira. Nossa grande estrela do rádio excursionava pelo Chile, e o rapaz de quinze anos foi assisti-la. Saiu em êxtase, teve febre, insônia, inapetência, até descobrir onde a sua deusa estaria e ir até lá, levando um ramalhete de rosas, que lhe custou a mesada inteira. Dalva se comoveu com aquela aparição e, não sendo nada boba, sacou a fornalha que o consumia. Deu-lhe um beijo e lhe escreveu na capa de um disco: "ao meu único amor chileno". Queria que você visse a expressão dele contando a história. Emende aí à vontade.

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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com

terça-feira, 19 de maio de 2015

O adesivo do Fusca


por Fernando Evangelista*

As seis letras estavam grudadas no vidro traseiro do fusca: vida ok.

Eliza estava no trânsito, viu o fusca e não esqueceu aquele adesivo. Alguns dias depois, no sofá da minha casa, já tarde da noite, ela me disse:

– O dono do carro poderia ter escolhido aquelas lições de autoajuda ou gratidões religiosas. Preferiu a simplicidade.

– Tá, e daí?

– Daí nada.

Mas mudou de ideia, tomou um gole do vinho tinto, e se corrigiu:

– Daí tudo – ela disse – porque, em primeiro lugar, é muito difícil ser objetivo e simples. A gente tem a tendência de complicar as coisas. E também porque é assim que deve ser a vida, pelo menos a vida que procuro ter: curta nas explicações e infinita nos sentidos.

Ela esticou as pernas no sofá – sempre que se põe a filosofar ela estica as pernas – e continuou:

– Uma vida ok nas miudezas da rotina, simples no banal e no desimportante e, por isso mesmo, extraordinária. Tô viajando, né?”.

A viagem dela me fez pensar nas minhas crônicas e reportagens. Queria, sempre quis, e falei isso pra ela, produzir textos como o adesivo do fusca. Certeiros, sem firulas ou truques. Nunca consegui.

Citei Drummond em Confissões de Minas: – “certos espíritos dificilmente admitem que uma coisa simples possa ser bela, e menos ainda que uma coisa bela é, necessariamente, simples”.

A partir daí, pensando em voz alta, e nem um pouco impressionada com minha memória literária, ela juntou tudo e me confundiu, como de costume:

– No fundo, por alguns anos, andei procurando um amor que me levasse e um texto que me escrevesse e que ambos – amor e texto – deixassem a minha vida mais ok.

Não sabia a qual texto ela estava se referindo, supôs que estivesse falando da própria história.

– É tudo uma maneira de ver, entende? Quando menina, li uma frase assim: ‘Não vemos as coisas como são, mas como somos'. De quem será essa frase?

Eu não sabia. Ela continuou:

– Quando parei de procurar, encontrei. Não é louco isso?

– .....

– É louco ou não? – ela insistiu

– É – respondi.

Depois de algum tempo em silêncio, perguntei se ela estava bem. Eliza encolheu as pernas, tomou mais um gole de vinho, levantou as sobrancelhas e disse, sorrindo:

–Tudo ok.

E adormeceu no sofá.

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Fernando Evangelista escreve as terças no Nota de Rodapé. Foto: arquivo do autor.

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Os fundos


por Júnia Puglia    ilustração Fernando Vianna

Os milhares de motoristas e passageiros que percorrem a W3 norte o tempo todo não veem, não têm como ver. Precisei morar vinte anos na região pra perceber.

Tem a avenida, com blocos comerciais dos dois lados, em toda a sua extensão e, atrás destes, no rumo oeste, pequenos blocos com lojas no térreo e dois ou três andares de apartamentos. Mais atrás ainda, outra linha de lojas e apartamentos. Entre estes e os conjuntos de casas, uma calçada.

Como em tudo o que se construiu aqui em Brasília, especialmente no Plano Piloto, houve uma ideia, um conceito inicial para esse estranho lugar, onde tudo parece improvisado. Ignoro totalmente qual tenha sido a proposta, mas acho que ela ficou perdida pelos caminhos gerenciais burocráticos. Um sinal disto são os endereços ininteligíveis, até mesmo para esta cronista candanga veterana.

O que se encontra, ao explorar a área, é uma calçada que começa e acaba de repente, começa e acaba de novo, sem qualquer razão aparente. De um lado, os fundos dos apartamentos, meio brutos, mal acabados e cheios de grades ⎼ sob cuja marquise às vezes se abrigam alguns moradores de rua com suas sacolas e cobertores ⎼, pessoas passeando cachorros, carros abandonados, carros estropiados, carros estacionados sobre a calçada, pneus velhos, oficinas mecânicas informais em vagas de estacionamento, lojas transformadas em igrejas evangélicas, pequenos restaurantes que servem por quilo, academias de ginástica e artes marciais e toda uma variedade de pequenos negócios. A melhor parte: como a circulação de veículos na área é complicada e desorganizada, os carros em movimento são poucos e, portanto, não tem barulho de trânsito.

Do lado oposto, as quadras residenciais, com suas casas geminadas e alguns blocos de apartamentos bem mais arrumados, cheias de gramados, belas árvores e cercas vivas. Um verde exuberante e bem cuidado, que abriga passarinhos, calangos, gatos, insetos, borboletas e parquinhos infantis onde ainda não vi criança brincando. Entre os dois territórios quase inconciliáveis, a estreita calçada que aparece e desaparece. Pouca gente circula por ela.

Nas primeiras caminhadas, eu ia imaginando como seria se aquela passarela intermitente fosse transformada num bulevar para pedestres, bem pavimentado e ajustado a caminhantes de todas as idades e diversas condições físicas. Em linguagem moderna, que tivesse acessibilidade, iluminação e sinalização adequadas, talvez uns bancos de praça e alguns lugares de descanso e encontro. Imaginar não paga imposto, inclusive porque desconfio que este lugar deve ocupar a milésima posição na ordem de prioridades do governo local.

Além de mais bonito, atrairia o uso dos moradores, que, no entanto, parecem não estar nada interessados. Minha sensação é de que demos as costas para este lugar, porque fica nos fundos de uma área comercial nada elegante, algo que a vizinhança despreza e não quer nem ver.

Pensando melhor, podia ficar tudo como está, só que com uma calçada contínua e lisinha, onde ninguém estacionasse seus malditos carros, pra que a gente pudesse percorrer a pé, sem interrupções, esse furdunço urbano inesperado no coração do Plano Piloto, cidade bem arrumada, feita para pessoas sobre rodas. Plano é bom, mudar o plano pode ser melhor.

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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Única

Passados os 50 anos do golpe militar a coluna 1964+50 segue firme em 2015, mas agora com novo título: VIVOS. Afinal, mortos e desaparecidos estão vivos na nossa memória e na nossa história.


por Fernanda Pompeu   ilustração Fernando Carvall

Inês Etienne Romeu
Nascimento: 1942
Cidade natal: Pouso Alegre - MG
Morte: 27 abril de 2015
Local final: Niterói - RJ

Dizem que morrer dormindo é dádiva. Talvez tenha sido uma espécie de agradecimento a Inês Etienne Romeu, morta no último 27 de abril, aos 72 anos, na graciosa Niterói. Não fosse ela com sua memória e coragem, provavelmente pouco ou nada saberíamos da tristemente hoje famosa Casa da Morte, Petrópolis, Rio de Janeiro. A Casa era um centro clandestino de interrogatórios com torturas. A exceção de Inês, todos os hóspedes de Petrópolis foram “desaparecidos” depois de assassinados.

Ela conseguiu se safar em troca de ser uma delatora. Papel que jamais cumpriu. Acabou condenada à prisão perpétua. Foi solta após a Anistia de 1979. A última presa política a ser libertada e única sobrevivente da Casa da Morte revelou nomes de algumas das vítimas, apelidos dos torturadores e narrou seus métodos de interrogatório. Descanse em paz, Inês Etienne Romeu!

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Fernanda Pompeu é a mulher do texto Fernando Carvall é o homem da arte

terça-feira, 12 de maio de 2015

Loira Gina

por Fernando Evangelista*

Para Marcelo, Vitor, Beatriz e Catarina

A mãe foi chamada para uma reunião do outro lado da cidade. Não tinha como pegar as crianças na escola e apelou para seu irmão, que morava perto. As crianças adoravam aquele tio, contador de histórias e um compulsivo comprador de chocolates, chicletes, balas e outros venenos deliciosos.

Tinha 30 anos, o tio. O sobrinho mais velho oito e o outro cinco. Foram numa lanchonete próxima ao edifício dos meninos, “lugar imundo, onde só se vende porcaria”, segundo a insuspeita opinião da mãe. No meio do lanche, comendo hambúrgueres e batatas fritas, unidos como os três mosqueteiros, o tio comentou:

– A Gina é muito velha.

– Quem é Gina? – quis saber o sobrinho de cinco anos.

O tio mostrou a caixinha de palitos de dente, com a foto da loira Gina, escondida entre a bisnaga de mostarda e o porta-guardanapo. Os dois meninos observaram cuidadosamente a caixa. Foi o sobrinho maior quem disse:

– Não parece velha, essa mulher é nova.

O tio explicou que aquilo era uma foto, tirada há muitos anos e que o tempo passa rápido e era bom eles aproveitarem porque assim, de repente, quando menos se espera, a gente vira adulto e assim, também de repente, o adulto fica velho e os velhos morrem, sem mais nem menos.

– Mas tem gente que vive bastante – disse o menino de cinco. – A bisa Rosa viveu 101 anos.

– A bisa Rosa é uma exceção – contrapôs o tio. – Poucos chegam a essa idade.

– Conheço uma coisa que durou muito mais – comentou o sobrinho mais velho. – O cajueiro de Natal.

E contou que na véspera havia escrito uma redação sobre esse cajueiro, de quase 130 anos. Disse que pesquisara na Wikipédia, trocara informações com amigos por e-mail, comparara com outros textos do Yahoo e produzira o texto para o seu blog, “só para passar o tempo, entre um episódio e outro do Sítio do Pica-Pau Amarelo”. E completou:

– É o maior cajueiro do mundo, foi plantado por um pescador no final do século XIX. O pescador morreu velhinho, deitado na sombra da árvore.

– Mas cajueiro não é gente – retrucou o sobrinho pequeno, enquanto limpava com guardanapo a boca suja de mostarda.

– Esse cajueiro de Natal foi tema da escola? – quis saber o tio.

– Não – respondeu o mais velho. – Fiz por conta própria porque gosto de ler e escrever sobre a natureza. A natureza nos ensina um bocado de coisas.

Tentando não demonstrar surpresa, porque demonstrar surpresa nessas horas é coisa de adulto inexperiente, o tio ficou com aquela sensação (ou seria constatação?) que atinge e atormenta os adultos ao conversarem com as crianças: elas são infinitamente mais espertas e inteligentes do que nós, adultos. Alguma coisa fundamental ocorrera nos neurônios desses pequenos seres. Ou isso é verdade, e ele esperava de coração que fosse, ou ele era, na infância, um completo retardado. Talvez as duas hipóteses fossem corretas, reconheceu.

Como que se defendendo daqueles dois espantos humanos, o tio pegou um jornal esquecido numa mesa ao lado e esbarrou os olhos na manchete: “Envelhecimento terá cura daqui a 25 anos”. Leu duas vezes para ter certeza. Era isso mesmo.

Achou estranha a notícia, fazendo crer que envelhecimento é uma doença à espera de cura, e considerou ainda pior a ideia de que será possível, de acordo com a reportagem, viver até os mil anos. Segundo o jornal, os cientistas estão desenvolvendo um remédio para bloquear o envelhecimento. Viver mil anos?

Mil anos são 365 mil dias ou 55 mil domingos. Se o tio, com 30 anos, já se considera um ancião idiota em frente das crianças, o que aconteceria se vivesse dez séculos? E então ele passou a vislumbrar os grandes pepinos à vista: Mil anos encarando filas de banco e engarrafamentos intermináveis, mil anos lavando louça no frio e fazendo tratamento de canal, mil anos desencravando unhas e indo a reuniões de condomínio, mil anos sendo obrigado a assistir propaganda eleitoral, mil anos recomeçando a dieta na segunda-feira.

Mil anos descascando abacaxis e andando em ônibus lotado, mil anos vendo o PFL mudar de sigla e o Renan Calheiros mudar de ideologia, mil anos esperando ganhar na loteria, mil anos vendo a cara jovem da velha Gina, a loira do palito.

Mesmo com o tal remédio no mercado, o tio decidiu que jamais, em hipótese alguma, viveria mil anos. Se 100 anos pode parecer pouco, mil é exagero.

Os meninos, alheios a essas reflexões, devoraram os lanches como se o mundo fosse mesmo terminar em breve. Pediram mais batatas fritas e, de sobremesa, dois enormes crepes de doce de leite com queijo.

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Fernando Evangelista é jornalista. Escreve toda terça-feira no Nota de Rodapé. Esta crônica faz parte da série republicando.
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