Casamento em massa durante o Festival Akshaya Tritiya em Bhopal, na Índia (European Pressphoto)

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Quelconque



por Júnia Puglia    ilustração Fernando Vianna*

Passados os cinquenta e cinco anos, a pessoa já poderia ter assunto para uma biografia, principalmente se acreditasse que “minha vida daria um livro”. Não sei se a minha daria para mais que umas crônicas, embora eu tenha vivido algumas peripécias, viajado um pouco por esse mundão, conhecido um bocado de gente, casado, parido e criado dois filhos, igual a quase todo mundo. Bem pouco para encher um livro, quanto mais uma bi-o-gra-fi-a, coisa de gente grande.

Nos últimos tempos, me meti a publicar umas mal-traçadas linhas em formato digital, aquele que existe, mas não muito, porque a gente não consegue pegar o texto, nem cheirar, rabiscar ou guardar numa gaveta ou estante. Mas existe, em algum lugar – ou será aqui neste computador? – e chega a algumas pessoas, não sei quantas. Uma tremenda ousadia da minha parte, num território ocupado por muitas feras, cuja lista nem começo a desfiar, para não me sentir ainda mais atrevida. Algumas delas rugem aqui neste mesmo blog, e eu me encolho toda.

Para fazer jus a uma biografia, a pessoa tem que preencher alguns requisitos básicos: cumprir uma longa carreira política, de preferência combinada com a autoria de livros, não necessariamente úteis ou relevantes, tanto a carreira quanto os livros; realizar façanhas incríveis como navegador, astronauta, tenista, geneticista ou alpinista; ganhar muito dinheiro como executiva ou empreendedora, e fingir que revela seus métodos de enriquecimento; ou fazer qualquer outra coisa que a torne uma celebridade, termo amplo e generoso, onde cabe de um tudo, para mal e para bem.

Porém, celebridade alguma merecerá ser biografada se não puder relatar, revirando os olhinhos, como foi sua primeira vez... em Paris. Ainda mais nos últimos anos, em que temos viajado tanto por aí, que já tem colunista com medo de encontrar o porteiro do seu prédio dando um rolé no Champs-Elysées. Désolée.

Na adolescência, quando conhecer a língua e um tiquinho que fosse da cultura francesa era sinal de inteligência e finesse, estudei meu bocadinho de francês. Não só porque o estudo de idiomas sempre me interessou, mas também porque éramos uma turma de alunos muito divertida e animada, que se tornou, para mim, o principal atrativo do curso. Paris, em todo o seu glamour, era um grande assunto entre nós, e rendia muitas fantasias e gargalhadas, pois éramos todos pobres de marré, sem qualquer possibilidade de pisar no Marais.

E, até o momento, tenho falhado neste quesito. Entra ano, sai ano, e nada. Várias pessoas já se prontificaram a me servir de cicerone, sugeriram roteiros; ouvi incontáveis relatos, encantei-me com a cidade em muitos filmes e livros, mas ir lá e verificar tudo pessoalmente, isto ainda não aconteceu. Portanto, continuo sendo quelconque, uma joana-ninguém.

Então, ficamos assim: como não conheço Paris e estou muito longe de ser uma celebridade, não serei biografada. Posso dispensar o advogado e dormir em paz.


*Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Que eu sou eu?

por Fernanda Pompeu*

Leitores consolidados sabem que o autor é diferente do narrador. Essa maravilha permite que uma escritora use a primeira pessoa de um personagem masculino e um poeta fale em nome de um eu feminino. Para ficar num exemplo doméstico, Chico Buarque se "fez" de mulher em Tatuagem, Atrás da Porta, Olhos nos Olhos.

Quando uso o eu - em poema ou prosa - não é necessariamente a Fernanda Andrade Pompeu, nascida no Rio de Janeiro, moradora de Sampa. O eu que escrevo pode ser a dona Laurinda que fumava cachimbo e passava as anáguas da minha avó. Pode ser meu pai com vinte anos ao fazer sua carteirinha no PCB.

Quem é leitor de boa data dirá: isso é óbvio! Mas esse óbvio não é tão cristalino para os novos leitores - particularmente os jovens que xeretam histórias em blogs. Observo pelos comentários postados que a maioria acredita que autora e narradora são uma única persona.

Talvez o Facebook e o Twitter contribuam para essa confusão. Uma vez que nas redes sociais a escrita é sempre em primeira pessoa, acompanhada de uma fotinho de cada eu. Curto, comento, compartilho, escrevo. Isso cria a ilusão de que o eu que escreve é o ego.

Longe de mim dizer que as pessoas usam a primeira pessoa para contar mentiras. Elas recorrem ao eu para contar uma parte da verdade. Ou a verdade daquele momento. Pois o eu é entidade líquida, mutante. É de um jeito às oito da manhã, de outro às treze horas.

O eu que escrevemos é um eu linguagem. Eu que mostra e que esconde. Que lembra e inventa. Que esquece. Um eu tentando editar a vida. Por que não? um eu louco para consertar o que sai errado. Um eu Pinóquio.

Qual eu - da galeria dos meus - escreve essa notinha? O eu bom? O eu ruim? O eu inteligente? O eu burro? O eu feminino? O eu masculino? O mascarado, ou sem máscara? Mais sincero dizer: o eu múltiplo. Meio fictício, meio realidade. Eu escrevinhadora.

*fernanda pompeu, webcronista do Yahoo e do Nota de Rodapé, escreve às quintas.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Pelos olhos de um cão (guia)


por Thiago Domenici   ilustração Caco Bressane*

São oito da manhã de uma sexta-feira de abril. Àquela hora já passaram pela plataforma de embarque do metrô Palmeiras-Barra Funda, no sentido Corinthians-Itaquera, algumas milhares de pessoas. Na minha distração sonolenta, observando o vai e vem de uma escada rolante, o trem se aproximava. No mesmo momento, senti um solavanco leve nas costas.

Na esquiva instintiva, virei e topei um cego e seu cão-guia. Dei licença o mais rápido que pude, enquanto os dois, bem jovens, se falavam apressadamente sobre o destino. “Direita, para a plataforma de embarque”, pediu o rapaz, roupa social esportiva bem cortada. A cadela, uma beleza de labradora de pelo curto caramelo o olhava de soslaio como quem diz, “eu sei chefe, mas isso aqui tá uma bagunça”.

Com sua coleira adaptada para a situação, ela decifrou o caminho com seu jeitão apaixonante. O vagão lotou em segundos assim que a porta se abriu. Uma senhora pequena dessas com cara de avó, já sentada na cadeira azul clarinha – das que são reservadas por lei para idosos, grávidas, mulheres com crianças de colo e pessoas com deficiência – ficou confusa com aquele rapaz que, de surpresa, surgia com uma cachorra diante dela.

Após um vai não vai de segundos, ele solicitou com gentileza que ela sentasse na cadeira imediatamente ao lado, ao que foi atendido com um sorriso largo, benevolente, que diz tanta coisa sem dizer em verbo. Não tinha capricho nenhum naquele pedido, mas uma questão simples: quanto mais perto da saída, menos enrosco.

Acomodados, ele sacou do bolso um petisco que a cadela engoliu num piscar de olhos. Em seguida, ele fuçou um celular com teclado que puxou do bolso, colocou fones de ouvido brancos e se confortou ao som de alguma música que se iniciava. Na ligeireza habitué, o metrô corria pela estação Santa Cecília, a segunda da linha vermelha, a partir do nosso ponto de partida. Eu os observava de perto, num misto de admiração e encantamento.

Jogada no chão com seu focinho rente ao assoalho, ali no meio da passagem, com ar clássico de cachorro que deixa a gente babando e com vontade de fazer uma carícia, as pessoas desviavam de sua dócil cabeça, enquanto ela acompanhava com olhar de pouca importância.

Desci na estação República e os dois seguiram em frente. A cena ficou em mim. Coincidentemente, eu havia lido na Folha de S. Paulo no dia anterior um texto que dizia das dificuldades dos deficientes visuais em conseguir um anjo de quatro patas. Logo, conclui sem esforço, que a batalha foi árdua para aqueles dois estarem no metrô naquele dia.

***

De fato, somente 80 deficientes visuais têm cães-guia no país, num universo que, segundo o IBGE, passa dos 2 milhões. É uma dificuldade atender a demanda de quem deseja um companheiro de quatro patas. Primeiro, por ser muito custosa a formação e treinamento, em média entre 20 e 40 mil reais fora do país. E a maioria dos bichos vem justamente do exterior, principalmente dos EUA, pois aqui, diz a matéria da FSP, a formação esbarra “na falta de boas linhagens e treinamento correto”. Do que pesquisei, posso dizer que o trabalho de quem busca dar conformo ao deficiente visual por meio de um companheiro cão é louvável. As iniciativas, como em tantas outras questões que merecem atenção pública, vem dos particulares que se organizam.

Também é recente (de 2005) a Lei que “Dispõe sobre o direito do portador de deficiência visual de ingressar e permanecer em ambientes de uso coletivo acompanhado de cão-guia.” Ou seja, todo restaurante, shopping, teatro, supermercado, casa noturna e meio de transporte não pode negar acesso sob risco de multa.

Mas o que significa ter um cão-guia? A parte do fato de ajudar o cego a desviar de obstáculos, atravessar a rua com segurança, encontrar caminhos mais simples e dar, sobretudo, autonomia e liberdade, o bichano faz companhia – é amor que se constrói –, traz aprendizado e desperta sorrisos gratuitos.

Outra vantagem é em relação à bengala, pois o cão-guia ajuda a desviar de objetos que estão acima do chão. Um deficiente visual, numa declaração que pesquei na internet, explica que com a bengala ele tem domínio de um metro e meio à frente o que torna mais difícil perceber um orelhão ou um galho de árvore, por exemplo.

Paciência na fila de espera de uma ONG por tempo indeterminado, ou tentar comprar o cão em outro país é, por enquanto, o principal caminho. Essa espera, no entanto, no Instituto IRIS – De Responsabilidade e Inclusão Social, chega a 4 mil pessoas, todas na expectativa de voltar a enxergar pelos olhos de um cão.

***

E AOS INTERESSADOS: o site do Instituto IRIS, entidade sem fins lucrativos, fundada em 2002 em São Paulo, das poucas que trabalha na formação de cães-guia, traz mais detalhes sobre o assunto. A sua fundadora, a advogada Thays Martinez, também deficiente visual, contou sua experiência com o cão-guia Bóris no livro - e áudio livro - "Minha vida com Bóris". Bóris (que já faleceu) em 2004 foi o pioneiro ao abrir caminho na Justiça para deficientes visuais terem o direito de entrar no Metrô de São Paulo.

Além do IRIS, outro projeto, Cão Guia Brasil, treina cães para guiar pessoas com deficiência visual. E a escola de Cães Guia, Helen Keller, também está na rede. Para saber mais sobre deficiência visual vale se informar na Fundação Dorina Nowill para cegos.


*Thiago Domenici, jornalista, é editor e coordenador do Nota de Rodapé. Ilustração de Caco Bressane, arquiteto e ilustrador, especial para o texto

terça-feira, 14 de maio de 2013

O Grande Mala da Província



por Fernando Evangelista*

Hoje acordei de mau humor, com dor de cabeça, garganta inflamada, nariz congestionado e um maldito cisco no olho esquerdo. Baixo-astral completo. Que vocês me desculpem, mas não há outro jeito: preciso compartilhar este sentimento de amargura. Vou falar mal de alguém, vou destilar meu veneno. Mas contra o quê? Contra quem?

Surpreendo-me ao perceber que minha lista de antipatias é pequena. Pequena, porém incômoda. E no topo da lista maligna está o Nóia, o publicitário sem escrúpulos, também conhecido como o Grande Mala da Província.

Nóia é vingativo. Ele não perdoa quem sabe o que ele é por dentro. Nóia é cínico, mas se considera apenas uma pessoa cética. É oportunista, mas se julga um empreendedor destemido. Faz pose de sofisticado, embora sua visão do mundo seja tão rasa quanto uma piscina inflável para crianças.

Nóia é super-egocêntrico. Ele só pensa no seu próprio bolso e no seu próprio umbigo; nada importa, apenas o dinheiro e a vaidade. Por algum motivo não identificado, ele se acha “o cara”.

Nóia é um sacana. Se promete uma coisa hoje, fará outra amanhã. Ao mesmo tempo em que abraça, afia o punhal. Quando surpreendido em flagrante delito, se faz de vítima, se diz perseguido, incompreendido e inventa mentiras sem pé nem cabeça. E o pior: ele acredita nas próprias mentiras. Ele não percebe os próprios erros.

Nóia é autoritário. Ele gosta de todos que lhe dizem amém, mas desgosta de quem o questiona ou contraria. Qualquer discordância de ideia é encarada como provocação, e qualquer crítica é entendida como ofensa pessoal. Nóia leva tudo para o lado pessoal.

Nóia se acha cult. Ele leu algumas orelhas de livros e não aprendeu nada; viajou por alguns lugares e isso só fez reforçar seus complexos e sua soberba – porque as duas coisas, como se sabe, caminham juntas.

Nóia é desequilibrado. Vive com o peito estufado, mas a alma, em algum momento distante, num tempo distante, encolheu. Ele anda pelas ruas como se fosse um Michelangelo, mas ele é apenas o Nóia, o publicitário sem escrúpulos. E mesmo que um dia ele tenha uma ideia brilhante, que ganhe os maiores prêmios da publicidade, ele vai continuar sendo o Nóia, o Grande Mala da Província.

Feito o desabafo, verdade seja dita: quem de nós nunca foi, alguma vez na vida, ou várias vezes, ou infinitas vezes, um Nóia? Atire a primeira pedra quem nunca agiu como sacana, desequilibrado, vaidoso ou vingativo. O problema é ser Nóia a vida inteira. Entretanto, nem mesmo o Nóia é Nóia sempre.

O curioso desta história é que, no fundo, bem no fundo, eu gosto dele. Nóia amplia a minha visão sobre o ser humano. Suas loucuras e chatices me comovem, me fazem refletir e me ensinam. Pensando bem, com calma e alguma frieza, ele não é má pessoa. No fundo, bem no fundo, Nóia é um sujeito fascinante.

Vida longa ao Nóia. Vida longa a todas as almas atormentadas.

*Fernando Evangelista é jornalista, trabalha na Doc Dois Filmes. Mantém a coluna Revoltas Cotidianas, publicada todas as terças-feiras.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Futebol e “jornalismo do apocalipse”: tudo a ver


por Moriti Neto  ilustração Victor Zalma*

O que se faz, aproveitando o reforço das escassas inteligências e do quase zero de seriedade constantes no meio do jornalismo esportivo, é apostar maximamente no descartável, mola essencial da sociedade de consumo.

Deparei-me com exemplo disso no último dia 1º de maio, à tarde, um feriado, quando assistir ao jogo de volta entre Barcelona e Bayern Munique, disputado na Espanha, pelas semifinais da Liga dos Campeões da Europa, parecia boa opção. Parecia. Com a partida transmitida em sinal aberto pelas emissoras Bandeirantes e Globo, o que vi foi uma exibição de mau jornalismo, total descompromisso com a informação.

A vitória do time alemão por 3 x 0 e a incontestável classificação (o time bávaro já havia vencido a primeira partida pelo placar de 4 x 0) transformou o Bayern em novo xodó da mídia esportiva internacional, brasileira incluída. Mais do que isso, expõe a irresponsabilidade das equipes “jornalísticas” que transmitem competições esportivas de alto nível, já que alcançam – e influenciam – tantas pessoas.

O modelo do time a ser admirado nem é o problema. Isso vai de gosto pessoal. A questão é a falta de embasamento. O que leva narradores e comentaristas a afirmarem que “um gigante surge” e “o fim de uma era”?

Sim, o Bayern é ótimo. Apresenta valores individuais de excelente nível e bom jogo coletivo. Ganhou o último campeonato alemão de forma notável. Contudo, o que exatamente serve de parâmetro para guindá-lo ao gigantismo internacional promovido pelos Galvões da vida?

Os reis das obviedades tomam como fundamento duas partidas. Absolutamente nada que escape às duas derrotas impostas ao Barcelona, este, de fato, o gigante da história do futebol contemporâneo tanto pela qualidade técnica como por grandeza de títulos conquistados (vale ressaltar que, no momento, o Barça está claramente em declínio, motivado por diversos itens que vão muito além da ausência, na ocasião da partida, do contundido Lionel Messi).

Nem mesmo é possível classificar a recente alçada midiática do Bayern à condição de time mais forte do mundo como resultado de anos de construção. O projeto que colocou o clube em três finais da Liga dos Campões nas quatro últimas competições disputadas não é considerado. Está longe de ser o parâmetro para a conclusão dos gênios da cobertura esportiva, já que mal citado é.

Sai o Barcelona, entra o Bayern Munique. Numa simples operação que não leva em conta nenhum fator a não ser a busca de audiência e a venda da publicidade. Aqui entra a aposta no descartável. Mexe-se na prateleira, substitui-se um produto por outro e esquece-se a missão de informar.

Não estou aqui a defender o mau humor, mas a seriedade. São conceitos bem diferentes. O futebol, esporte mais popular do planeta, não é só diversão. É patrimônio cultural da humanidade. Merece precisão e responsabilidade na transmissão da informação, que é bem de interesse público.

No entanto, na ânsia pela venda do produto, o que prevalece são as bobagens ditas por falsos profetas, principalmente os do apocalipse. Eles adoram gritar fins e surgimentos. Amam antever os rumos do mundo. Triste. Ainda mais entristecedor é que isso vá bem além de uma transmissão esportiva. Invade as várias áreas do jornalismo. Sem piedade, a irresponsabilidade informativa vista em Barcelona x Bayern Munique atravessa a vida de quem acompanha as editorias de cada dia.

Precisão? Que se dane!

Só para reforçar o quanto o futebol serve de referência sobre a falta de competência na apuração e o quão são irresponsáveis as coberturas jornalísticas atuais, vale lembrar casos envolvendo os jogadores Neymar e Paulo Henrique Ganso, hoje no Santos e no São Paulo, respectivamente.

No limite da irresponsabilidade, tem veículo de comunicação que reforça o erro de outro, site que aposta em astrologia para fazer “jornalismo” e interesses nada nobres em jogo.

-- Ganso troca Santos por Corinthians

-- Astrologa prevê lesão de Ronaldo, alcoolismo de Neymar e queda do Vasco

-- A cruzada da mídia contra Neymar


*Moriti Neto, jornalista. ilustração de Victor Zalma, especial para o texto, faz sua estreia no time de colunistas do NR

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Atalho furta-cor



por Júnia Puglia ilustração Fernando Vianna*

Decidi pegar uma carona no bonde do dia das mães, que partiu já faz tempo, tão logo os ovos de páscoa encontraram seus donos. Mas fique tranquilo, não vou começar mais uma ladainha sobre essas criaturas lindas, sorridentes, perfeitas e prontas para renunciar a qualquer coisa pelos filhos, criadas pela mitologia religiosa e alegremente assumidas pela publicidade e o comércio. Pego a carona e mudo o itinerário.

Todo mundo conhece alguém que adotou filhos, ou que foi adotado por mãe, pai ou uma família inteira. Independentemente das muitas razões que levam ao abandono de um filho ou filha, o primeiro destino dessas crianças quase sempre é a aridez dos abrigos mantidos pelo Estado ou por instituições de cunho social. Por mais que os profissionais da área se esforcem e se dediquem, serão sempre pessoas desempenhando uma função, não têm como proporcionar uma vivência familiar, em todas as suas nuances.

E acho que ainda não inventaram um ambiente mais adequado para o acolhimento e desenvolvimento das crianças do que as famílias, nas suas mais diferentes conformações – se bem que, em algumas delas, há mais motivos de sofrimento que de crescimento e preparação para a vida. Mas este é um outro assunto.

Vou ficar com o lado que conheço dessa história, aquele das pessoas com quem me relaciono, que adotaram ou foram adotadas.

Elas me comovem. De um lado, os filhos, que, como todos os bebês de todos os tempos, não pediram pra nascer, mas nasceram, e, a partir de certo momento, foram privados do aconchego de quem os trouxe ao mundo, porém encontraram outros colos e braços ávidos por acolher e nutrir. Do outro, mães e/ou pais que decidiram compartilhar a existência no sentido mais profundo e recebem os filhos dentro de si, naquele exato lugar onde eu guardo os meus, lugar que dispensa nome e desconhece palavras. E constroem uma vida juntos.

Sim, há histórias de adoções mal sucedidas, assim como existem tantas famílias biologicamente constituídas que dão errado, por assim dizer. Em todo caso, todo mesmo, é impossível prever o desenrolar da vida, a começar por não termos como saber o que qualquer outra pessoa sente. Levantar um edifício sobre estas incógnitas é tarefa para mais de uma vida, e dá sentido a esta única que temos.

Acho que o desvio do bonde deu num atalho pra lá de complicado. Tomara que alguém me entenda.

*Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Higienópolis


por Cidinha da Silva*

A Veridiana parece uma avenida, é larga que só, até cansa atravessar. Esperávamos o sinal verde para pedestres no cruzamento com a General Jardim.

Do lado oposto ocorria uma cena bastante comum na região, uma dondoca acompanhava um daqueles cachorros artificiais, de pelo desenhado, unhas pintadas, maria chiquinha, óculos escuros, cachecol e outras firulas. Inusitada era a presença de uma garotinha dourada de uns três anos ou pouco mais. Filha da mulher, soubemos depois.

O sinal abriu para nós, finalmente. A mãe do cachorro rearranjou as sacolas de shopping no antebraço, de forma a deixar a mão livre para ajudá-la a colocar o animal no colo. Ainda teve tempo de dar um beijinho nele, antes de dizer para a menina, “vem filha, vem. Segue a mamãe.”

Desceu da calçada para o asfalto, deu três ou quatro passos e olhou para trás para certificar-se de que a filha a acompanhava. A menina não se movia. Ela, carinhosa: “vem filhinha, vem com a mamãe, vem, vem.” A menina olhava para a mãe, para o cachorro que devia ser dela também, para os carros, para a imensidão à frente e ficava do mesmo jeito, empacada.

A mãe andou mais uns cinco passos e disse: “Olha, filhinha a mamãe ta indo. Vem também, fofa!” A menina então abriu o berreiro e começou a sapatear. A mãe compreensiva, explicou à filha e aos passantes que estava com as duas mãos ocupadas, não poderia carregá-la. Ela precisava colaborar, ser boazinha e andar.

Os passantes pareciam estar em choque. Nós estávamos. Ninguém foi despachado o suficiente para oferecer ajuda à senhora. O guarda de trânsito da outra esquina, atento, veio andando e ofereceu a mão para a menina. Ela não aceitou, queria colo. Ele ofereceu o colo. Ela rejeitou. O guarda, paciente, explicou à mãe que a menina parecia querer o colo dela e que talvez fosse bom colocar o cachorro no chão e puxá-lo pela corda.

A mulher, meio brava, argumentou que o cachorro tinha trauma de buzina e havia gente sem coração que parecia ler a mente do bicho e buzinava só para assustá-lo. De mais a mais, ele tinha tomado uma vacina e estava sonolento. Disse ainda que a filha estava ficando muito cheia de vontades. Será que o guarda não poderia ajudá-la carregando as sacolas, ela morava no quarteirão abaixo. O guarda assentiu. A mãe fez um carinho na cabeça da menina e deu-lhe a mão.

O guarda aconselhou à mulher que acelerassem o passo, pois estava juntando gente e multidão, sabe como é...

*escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna quinzenal Dublê de Ogum
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