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Kitty Phetla, solista sênior do Ballet Joburg em Soweto, África do Sul (Getty Images)

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

No DNA

por Júnia Puglia  ilustração Fernando Vianna*

Eram pelo menos quinze horas de estrada. Na rodoviária do Plano Piloto, eu embarcava no ônibus que me deixaria em Ribeirão Preto, Campinas ou São Paulo, às vezes Rio ou mesmo Porto Alegre, do outro lado do mundo. Neste último caso, como não havia uma linha direta regular, o jeito era ir até a capital paulista, descer no Glicério e tomar outro ônibus, para mais umas vinte horas de chão até o destino final. Assim cheguei a Buenos Aires e Assunção. Mas eu não reclamava de nada, qual o quê? Aos vinte anos, a energia é infinita. Ah, e nessa época, para mim o Brasil rumo norte ainda era uma total abstração.

Mal o ônibus arrancava, eu me enfiava na cabine do motorista, sempre que nela houvesse uma poltrona adicional, privativa de funcionários da empresa, e perguntava: posso viajar aqui? Foram muitas noites comendo asfalto naquela vitrine invertida, de olho na estrada, ouvindo as modas de viola que faziam companhia ao motorista solitário, em sua dura tarefa de não dormir e nos entregar inteiros muitos quilômetros à frente. Viajar sozinha jamais me incomodou, bem ao contrário. E, talvez pelo espanto que causava meu atrevimento de me aboletar por minha conta na poltrona da cabine, nunca nenhum motorista, aliás, ninguém, me disse qualquer inconveniência, ou tentou uma aproximação abusiva.

Numa dessas, saí de Araraquara rumo a Ribeirão Preto, para de lá embarcar até Brasília, às dez da noite. Não existia essa história de reservar passagem, nem compra antecipada. Quando cheguei ao guichê da companhia, em Ribeirão, fui informada de que o ônibus que eu pretendia tomar estava lotado. Bateu o desespero. Engoli o pânico e perguntei qual seria a opção, pois passar a noite sozinha, naquela rodoviária (mais de trinta anos atrás, nem te conto como era), me parecia aventura demais, veja só. Você pode ir para o trevo da Anhanguera, de táxi, fazer parar e tentar embarcar no ônibus que vem de Campinas, sugeriu o funcionário. Topei na hora, e consegui, totalmente alheia aos riscos, e talvez por isso protegida deles. Mais uma cabine para a minha coleção.

As luzes de Catalão e Araguari nas madrugadas me sugeriam a enormidade do mundo à minha espera. E eu o ia perseguindo, nas paradas tristes e sujas dos cafundós de Minas e Goiás, cruzando o cerrado de árvores encarquilhadas, que o pasto e a soja já engoliram faz tempo. Quando não conseguia viajar na cabine, eu ia junto com os outros passageiros, e rapidinho rolava um papo. Assim percebi que muita gente adora ouvir a narrativa da própria vida, especialmente quando contada à “vítima” da poltrona ao lado, uma total desconhecida. Sempre com ênfase nas dores e injustiças, mas também nos causos engraçados. Para quem estamos vendo aquela única vez, a nossa versão sempre será a única, verdadeira e definitiva. O curioso é eu mesma nunca ter embarcado nessa viagem, ficava só ouvindo.

Quilômetro vai, quilômetro vem, a vizinha, que devia ter uns vinte e cinco anos, me contou que se casaria no fim de semana, com o amor da sua vida, que ele havia terminado o noivado com uma amiga dela poucas semanas antes, a tempo de se livrar do compromisso herdado numa pequena comunidade rural e ir ao encontro da paixão, que ferveu quando olhares se encontraram numa festa religiosa. Uma grande história, e eu nem respirava, com medo de perder algum detalhe. Ficamos amigas de infância, naquelas poucas horas de noite fechada sobre rodas, nos despedimos como velhas conhecidas, ela me convidando para a festança, e pronto acabou.

As viagens de ônibus ficaram para trás. Os aviões e, de vez em quando, os deslizantes trens do tal de primeiro mundo, são totalmente outra coisa. E eu também, mas com o DNA da BR infiltrado.

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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Egoísmo à direita e à esquerda

por Celso Vicenzi*

Há dois tipos básicos de egoístas: o de Direita e o de Esquerda.

O egoísta de Direita não suporta a igualdade, quer sentir-se superior. É um cidadão que obteve muitos privilégios ao longo da vida, mas acha que tudo que conquistou é mérito.

O egoísta de Direita costuma dar o nome de “meritocracia” à falta de oportunidades iguais na sociedade.

Para o egoísta de Direita, quanto mais pobres, melhor. Assim, ele pode pagar menores salários, ter mão de obra farta e barata, e sentir-se vitorioso diante de quem pouco tem.

Para o egoísta de Direita, pobre não vence na vida porque é vagabundo e não quer trabalhar, embora trabalhe desde muito cedo e ajude a enriquecer muitos daqueles que mais se utilizam de sua mão de obra.

O egoísta de Direita acredita que as melhores coisas da sociedade não são para repartir entre todos, mas destinadas apenas a um grupo qualificado, a nata da sociedade.

Para o egoísta de Direita, pobre não precisa de muita instrução, afinal, quem precisa estudar muito para ocupar empregos de baixa qualificação? O egoísta de Direita acha absurdo investir meio por cento do PIB em Bolsa Família e beneficiar 50 milhões de brasileiros. Mas é favorável ao Bolsa Empresário, que abocanha generosas fatias do orçamento da União, Estados e Municípios, com isenção de impostos por vários anos na construção de indústrias, doação de terras para erguer fábricas, empréstimos a juros e taxas subsidiadas, cancelamento de dívidas que nunca são pagas, contratos superfaturados e realização de obras públicas que beneficiam empreendimentos privados – entre outras benesses muito comuns em todo o país.

O egoísta de Direita não gosta de dividir espaço com o povo. Prefere ser tratado com regalias, como se fosse um predestinado a viver em opulência. Para o egoísta de Direita, não há racismo no Brasil, o feminismo é movimento de mulheres feias e mal amadas, e o homossexualismo é uma doença que precisa ser tratada... na porrada!

O egoísta de Esquerda é diferente. É a favor dos pobres, da luta de classes. Organiza os trabalhadores contra a exploração. Sai em defesa dos mais fracos. Está presente nos movimentos sociais, nos sindicatos, nos espaços políticos onde, acredita, a luta pode avançar. O egoísta de Esquerda tem fortes convicções políticas, combate o capitalismo e acredita numa sociedade sem classes.

Mas, no entanto, o egoísta de Esquerda, quando estão em jogo questões ideológicas, não costuma ser muito solidário com o povo. Quando confrontado a decidir, em momentos decisivos da história, costuma ajudar a luta dos egoístas de Direita. Prefere lavar as mãos, indiferente ao que isso poderá significar para milhões de pessoas. Prefere ficar em paz com a sua consciência.

Alguns egoístas de Esquerda, no entanto, vão além e costumam fazer um percurso de médio e longo prazo até tornarem-se autênticos egoístas de Direita. Vários intelectuais, jornalistas e, especialmente, comentaristas de veículos tradicionais da mídia, que emprestam seus conhecimentos para, sob os mais disfarçados argumentos, deter todos os avanços sociais, no passado já estiveram ao lado dos mais pobres, dos mais fracos – e alguns até militaram em partidos de Esquerda.

O egoísta de Esquerda diz que no segundo turno das eleições vai votar em branco ou nulo porque nenhuma das candidaturas aponta para avanços na sociedade. Para o egoísta de Esquerda, tanto faz Aécio ou Dilma.

Para o egoísta de Esquerda, se não for exatamente um governo do seu jeito, ele permanece insensível, mesmo consciente de que hoje há milhões de brasileiros que comem onde antes havia milhões passando fome.

Para o egoísta de Esquerda, melhorar de vida, no sistema capitalista, não tem nenhum sentido. Não importa se antes o cidadão pagava aluguel e hoje tem casa própria, se pode investir em um pouco mais de conforto ou se o filho de um trabalhador de salário mínimo agora pode sonhar com uma universidade e uma profissão em que poderá ganhar melhor e quebrar o ciclo de pobreza que se perpetuava há gerações em sua família.

Para o egoísta de Esquerda, Aécio ou Dilma, tanto faz, é tudo igual. Reconhece que as forças políticas representadas por Dilma são um pouco melhor, mas não o suficiente para contribuir com o seu voto, solidariamente, para que tantos brasileiros que deixaram a pobreza para lá não retornem tão brevemente. O egoísta de Esquerda, no seu egocentrismo, não consegue ser solidário com milhões que hoje, apesar dos pesares, podem esboçar um sorriso por ter conquistado mais dignidade.

O egoísta de Esquerda, tão politizado, estranhamente pouco se importa se haverá um governo com uma política externa mais solidária com a América Latina e países menos desenvolvidos ou outro mais atrelado com os Estados Unidos e às forças mais reacionárias do capital internacional. Para o egoísta de Esquerda, as suas convicções ideológicas são mais importantes do que as esperanças de milhões de brasileiros. Pouco interessa ao egoísta de Esquerda o quanto foi duro e difícil conseguir o pouco – que para quem nunca tinha nada representa muito – de avanço na sociedade brasileira. Porque, afinal, para os egoístas de Esquerda e de Direita, não importa o quanto a realidade concreta tenha mudado para a imensa maioria do povo brasileiro. Ambos, por razões opostas, estarão juntos para ajudar a derrotar o que foi tão difícil de conquistar. Mesmo com todos os erros, mesmo com todos os desacertos.

O egoísta de Direita, numa eventual vitória da Direita, irá comemorar muito, ao mesmo tempo em que irá destilar todo o seu ódio, preconceito, discriminação e arrogância pelos próximos anos – que podem durar muitos, muitos anos.

Já o egoísta de Esquerda, em paz com a sua consciência, voltará tranquilo para a sua residência, para o bar, para o sindicato, para a sua corrente política, onde o aguarda uma certeza histórica de que a revolução, se um dia vier, terá que ser à sua imagem e semelhança. Embora, até lá, tudo indique que milhões de brasileiros voltarão a não ter casa, a não ter oportunidades de estudo, a não ter uma boa formação, a ficarem desempregados e terem salários arrochados novamente por uma Direita que sempre soube se unir nos momentos fundamentais da história.

Ao contrário de parte da Esquerda, que sempre desenvolveu uma enorme capacidade de fazer exatamente o que a Direita quer.

Neste momento crucial da história do Brasil, decidir por não decidir pode levar a consequências graves e imprevisíveis. Nunca se sabe onde está o “ponto de retorno”. Pode-se trilhar um caminho sem volta e condenar gerações a pagarem o preço. Omitir-se, diante do que está posto, caracteriza, no mínimo, egoísmo ideológico.


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Celso Vicenzi, jornalista, ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina, com atuação em rádio, TV, jornal, revista e assessoria de imprensa. Prêmio Esso de Ciência e Tecnologia. Autor de “Gol é Orgasmo”, com ilustrações de Paulo Caruso, editora Unisul. Escreve humor no tuíter @celso_vicenzi. “Tantos anos como autodidata me transformaram nisso que hoje sou: um autoignorante!”. Mantém no NR a coluna Letras e Caracteres.

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Tempo de luta

por Nina Madsen*

O vento faz a curva e me sopra a saia, que seguro ligeiro para não passar por nenhum desnecessário constrangimento. Os cabelos emaranhados me entram na boca e nos olhos, que já ardem pela poeira levantada. Resisto ao impulso de praguejar e reconheço aquela presença forte que não pede passagem, anunciando tempos de luta.

Subo as escadas, passo pelo comitê eleitoral do candidato que não foi eleito. Fechado. Na foto, já sendo arrancada, ele aparece ao lado do outro candidato, que também não foi eleito. Sentada na soleira da porta fechada, uma senhorinha que todos os dias pede uma ajuda pelo amor de deus. A outra, mais jovem, negra também e mãe de um bebê de colo, hoje não estava.

Sigo. Atravesso a rua e vou subindo a galeria. Dia de feira, o rapa não vem. Blusas, bolsas, jaquetas, sapatos, desodorante e perfume, brinquedos, bijuteria, seu nome inscrito no arroz, eletrônicos, livros usados, frutas, açaí, quentinha pro almoço e o que mais se quiser comprar. O engraxate de expressão leve e resignada veste um paletó que é o dobro do seu tamanho e posso sentir a dignidade que habita o gesto de colocá-lo todos os dias, faça o calor que fizer.

Passa por mim uma jovem estudante correndo atrás de um rapaz a quem tenta abordar para convencê-lo a comprar chaveiros para ajudar a “salvar a família”. O rapaz nem olha, segue andando em seu passo acelerado. E ela acompanha e fala sem parar, imbuída daquela absurda missão. Dobro a esquina e me deparo com aquele corpo magro, muito magro, e praticamente nu. A pele amendoada, os cabelos amarelos em desalinho. Os olhos em desalinho, a alma em desalinho. Ela vaga por ali às vezes. E quando não aparece, me pergunto aflita se seguirá viva. Ela percebe meu olhar, ergue o queixo e passa as mãos pelos cabelos. Dignamente.

Entro no prédio – bom dia, dotôra. Me olho no espelho e me vejo tão branquinha, com essa minha cara de bem nascida, que imediatamente troco o não sou dotôra por um sorridente bom dia. Por aqui, dotôra, afinal. Suspiro. Entro no elevador. A subida é longa e lenta e sempre assenta em mim o peso da contradição cotidiana que carrego comigo, existindo dotôra naquele espaço de não-dotôres.

E começo a lida. Que não costuma trazer boas notícias, devo dizer. A vida em uma organização não governamental feminista no Brasil nunca foi exatamente fácil, mas, segundo me contam, já esteve mais farta de possibilidades de avanços. Elas hoje são escassas. Quando aparecem, nos agarramos com força. E enquanto não, a força é a de resistência para conter os absurdos multiplicantes que nosso sistema político tem conseguido produzir.

À beira desse segundo turno, é nesse espaço que situo meu voto. O espaço da (in)dignidade humana, das desigualdades e das contradições. O espaço tão reduzido para os avanços pelos quais lutamos. Não, não é o Brasil dos ovos de ouro. É certo que é um país diferente do que era 12 anos atrás. Melhor, apesar de tudo. Não melhor o suficiente, não melhor como poderia ser ou como gostaríamos que fosse. Mas melhor, com algumas escolhas acertadas que fazem muita diferença. Com outras tantas escolhas equivocadas, é verdade, que também fazem muita diferença e que embolam o meio de campo de um jeito complicado. A escolha desse segundo turno não me resulta difícil, é Dilma, sem dúvida. É uma escolha coerente com o esforço de conter retrocesso atrás de retrocesso. Mas é uma escolha que não me contempla inteiramente. Não responde às mudanças que gostaria de ver anunciadas e assumidas em compromisso.

Pelo menos daqui de onde vejo, muitas das mudanças de que também precisamos não vêm sendo anunciadas nos milionários programas do horário eleitoral gratuito e obrigatório. Por força de um sistema político escangalhado, de um conservadorismo crescente e fortalecido, elas não podem ser propagandeadas em campanha de candidato ou candidata que queira ser eleito. Pra se ganhar, tem que se jogar o jogo. Apertar a mão de quem não se deve. Silenciar o grito de quem não pode se calar. Pra ganhar, temos que perder muito (o que é, para mim, bastante devastador, tenho que admitir).

Meu voto em Dilma nesse domingo é um voto no contraditório que ainda identifico nesse governo. Um voto nos ideais ainda vivos e pulsantes de um partido sim de esquerda, um voto na voz crítica de seus militantes. Um voto nas frestas e nos poros por onde ainda podemos passar. Porque precisamos passar. Acima de tudo, acredito que o que irá decidir os próximos quatro anos no Brasil será a nossa capacidade de seguirmos organizadas, atentas e fortes, resistindo e insistindo. De estarmos prontas, sem medos que nos silenciem, sem amarras que nos impeçam o passo. Porque os ventos não sossegam: é tempo de luta.

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Nina Madsen escreve por gosto e necessidade desde que se lembra. Formada em Letras, caminhou pelos campos da educação até que se fez feminista e socióloga, por azar ou sorte. Integra o colegiado de gestão do Centro Feminista de Estudos e Assessoria, o CFEMEA, e colabora com a Universidade Livre Feminista. Aventura-se pelo avesso do mundo quinzenalmente, na coluna Crônicas do desmundo. *Desmundo aqui faz referência ao romance de Ana Miranda, uma lindeza literária que nos conduz pelas fronteiras entre o real e o onírico.

terça-feira, 21 de outubro de 2014

O macho branco, heterossexual, rico e mandão se manifesta em pelo na corrida presidencial

por Cidinha da Silva*

As habilidades comunicacionais do candidato Aécio Neves constituem areia movediça que traga muitos desavisados. O discurso é escorregadio e generalista, alicerçado no apelo fácil à panaceia do governo de integração nacional, aquele que serviu a Juscelino, a Tancredo, a Sarney, a Collor e a Itamar. O que elimina os conflitos e se apresenta como salvador da pátria, pacificador e unificador.

"Ninguém é dono desse Brasil", ele apregoa, na tentativa de mobilizar o telespectador para suas fileiras. "Precisamos de gente séria, honrada... Eu vou fundar a nova escola brasileira!" Aécio procura frases de efeito e agrega assuntos desconexos - o que o Brasil precisa e o que ele, o salvador da pátria pretende fazer. É o discurso apelativo do macho-dono-da-verdade.

Aécio começa sempre como bom moço, professoral, paladino da justiça, dos bons costumes, da moral, da ética. Veste a mesma roupagem dos bem-nascidos como ele. À medida que o debate esquenta e aparecem as evidências da compra de votos para aprovar a reeleição de FHC, da privataria tucana, do desvio de dinheiro público nas obras do metrô e trens de São Paulo, do nepotismo no governo mineiro, cai a pele de cordeiro e emergem os olhos sagazes e o pelo lustroso de velha raposa.

A todas as acusações, às provas incontestes, devidamente arquivadas, Aécio chama de mentiras e responde simplesmente que, "se as pessoas estão soltas é porque não foram condenadas". Ele omite o quanto e como sua trupe operou para que as pessoas de seu partido, o PSDB, e outras sob sua proteção e mando não fossem investigadas.

"A senhora prevaricou!" Ele grita para a Presidenta Dilma Rousseff, lançando mão de palavra técnica que, no imaginário popular recebeu conotação sexual, sabe-se lá porque cargas d'água. Logo, aquele público pouco escolarizado que o assiste, chamado por FHC de ignorante, pode imaginar, a partir da acusação de Aécio, que a acusada está envolvida em temas sexuais duvidosos. A escolha da palavra não é mera tecnicalidade, ele sabe onde quer chegar e que ponto do eleitorado, principalmente do setor machista, quer atingir.

Aécio mente, des-ca-ra-da-men-te e, assim como acabei de fazer no texto escrito, com o objetivo de chamar a atenção dos leitores que me acompanham, separa as palavras em sílabas, enquanto fala, para chamar a atenção de seus ouvintes. É um recurso que funciona muitas vezes, embora ele o utilize em demasia, tornando-o enfadonho.

Seu discurso está alicerçado em bravatas. Ele assegura, por exemplo, que o PT votou contra a redemocratização do país. Na verdade, refere-se à debandada de Tancredo e seus seguidores para a eleição no Colégio Eleitoral, enquanto o PT se manteve firme, partidário das eleições diretas. Lembro-me do último comício pelas Diretas em MG, na praça Rio Branco (praça da rodoviária) em Belo Horizonte, quando, para frustração geral da audiência, lá, no último comício pelas Diretas, ouvimos Tancredo anunciar a inexorabilidade da eleição no Colégio Eleitoral. Depois, foi só acompanhar pelos jornais a campanha e articulação do PMDB pela eleição de Tancredo.

Aécio mente ao dizer que Lula e Dilma foram contra a construção de escolas técnicas no Brasil, é só observar os números: no governo Sarney foram construídas treze escolas técnicas; no governo Collor, três; no governo Itamar, vinte e sete; no governo FHC, onze; no governo Lula (em 8 anos), 355, isso mesmo, trezentas e cinquenta e cinco; por fim, no governo Dilma, 208, isso mesmo, duzentas e oito. Mas, o netinho do vovô acha que ao manipular a palavra pode fazer o mesmo com os dados e com a opinião pública. Ledo engano! Rude ilusão.

Dois assuntos o tiram do sério, além dos questionamentos a seus desmandos administrativos e política de compadrio, as drogas (lícitas e ilícitas) e a boataria de que é usuário, bem como os aeroportos construídos com dinheiro público em fazendas de familiares seus, localizadas em pequenas cidades do interior de Minas e suspeitos (os aeroportos) de fazerem parte de uma rota internacional de tráfico de drogas. O transtorno obsessivo arrebenta seus nervos, ferida, a velha raposa ataca. Curiosa é a forma do ataque-defesa: "a senhora (dirigindo-se à Presidenta Dilma) está desrespeitando Minas Gerais com as mentiras acharcadas nas redes anonimamente. A senhora tem permitido ao Brasil ver o mais baixo nível de campanha presidencial." Do que falávamos mesmo? Conversávamos sobre o uso de drogas lícitas e ilícitas, sobre a construção de aeroportos privados com dinheiro público levada a cabo por um indivíduo, por acaso, mineiro, candidato à Presidência da República! O que isso tem a ver com Minas Gerais? Por que devemos nos submeter ao hábito despótico de um adolescente mimado de substituir parte, ou seja, um mineiro no exercício da função pública, acusado de corrupção, nepotismo, má administração, desmandos e censura à imprensa, entre outras acusações, pelo todo, o estado de Minas Gerais?

Aecim não responde, ele está acima da necessidade de respostas e justificativas, seu todo-poder não comporta explicações. Ele continua a performance arrogante: "quando vou à sua cidade, Porto Alegre, quando vou à minha Belo Horizonte...", determina a cidade de Dilma no sul do país, buscando afastá-la do Curral Del Rey, a Belo Horizonte de nascimento de Dilma. É sabido que a Presidenta saiu de lá para viver na clandestinidade, perseguida pela ditadura civil-militar que Aécio chama significativamente de "revolução", como de resto, toda a direita. É Aécio, o mineiro-mor, o mais mineiro dos mineiros, o dono da sesmaria, que se arvora a outorgar (ou não) o atestado de pertencimento político ou afetivo a Minas Gerais. Mais adequado seria que Aécio dissesse "o meu Rio de Janeiro", cidade-base de onde governava Minas.

Ele não desiste, é teimoso, quer vencer a interlocutora e a audiência pelo cansaço, pela repetição de uma ideia à exaustão: "vamos deixar os mineiros em paz, candidata (referindo-se às admoestações que Dilma impinge a ele, um reles mineiro, que se acha "o mineiro"). Os mineiros sabem o que fazem. Vamos discutir o Brasil, Candidata"... Minas Gerais e seus políticos, como rebentos e netos da política de cabresto estariam acima do Brasil e de qualquer inquirição. Aecim inventou o planeta-Minas, ou não, talvez ele trate apenas de galvanizar o tal sentimento de mineiridade, conclamando os cidadãos (já que ele só enxerga as mulheres de maneira subalternizada) a posturas xenófobas contra Dilma, uma "de dentro" que ele, o todo-poderoso, alcunha como alguém "de fora". Incansável no objetivo de convencer os ouvintes de uma ideia (característica fundamental dos que dominam a oratória), Aecim lança mão da ironia mordaz e pode desconsertar um interlocutor que não goze do mesmo jogo de cintura: "quem ligar a televisão desavisadamente vai achar que a senhora quer disputar o governo de Minas ou a prefeitura de Belo Horizonte. Talvez a senhora queira, desempregada a partir de primeiro de janeiro, ser candidata ao governo de Minas, aí a senhora terá tempo para discutir Minas Gerais." Enquanto isso, deixe meu curral em paz.

Quando confrontado com função de censora da imprensa mineira atribuída à sua irmã, durante todo o governo, pressionando jornalistas, jornais e revistas, para que não criticassem o governador, tampouco expusessem os bastidores dos negócios de governo, Aécio utiliza outras frases de efeito para tentar jogar a audiência contra sua oponente: " a senhora está mentindo para o Brasil! Minha irmã Andréa, de quem tenho muito orgulho (vejam como ele é um maninho amoroso), assumiu o cargo de voluntariado, cargo que as esposas dos governantes geralmente ocupam." É uma frase carregada de sentidos. Tem-se a informação de domínio público que Aécio vivia agitada vida de solteiro, que, durante a posse, como governador, foi acompanhado pela filha, então adolescente. Por que? Porque exercia o sagrado direito concedido aos homens heterossexuais de viver sua sexualidade em plenitude com diferentes mulheres, mas, na hora das coisas sérias, convoque-se a filha, convoque-se a família, o lado A dos "homens de bem." Não esqueçamos do componente de comiseração que um homem solteiro provoca, pois, coitadinho, não tem uma mulher para cuidar dele. Sorte de Aécio que tem a irmã, uma super cuidadora. Mas, o mais capcioso da frase explicativa dirigida à Presidenta é deixar subentendido que: 1 - função de mulher é ser primeira dama; 2 - a irmã dele exerce uma função típica de mulher, ao contrário da Presidenta que exerce uma função destinada aos homens, destinada a Aécios.

Em tom laudatório, professoral e pretensamente definitivo, Aecim se recompõe: "vamos tentar novamente falar de futuro em homenagem e respeito ao telespectador que nos ouve agora. Vamos elevar o nível do debate, candidata". Então, na primeira de três vezes que se seguirão, Aecim dirige-se aos motoristas de automóveis que provavelmente estão ouvindo o debate presidencial que ocorre às seis da tarde pelo rádio do carro. Para ele, inexiste a maioria dos trabalhadores brasileiros e da população que naquele momento está apertada no transporte público, nos trens, ônibus, metrôs. Essas pessoas, nos governos Lula e Dilma puderam comprar celulares de última geração, tablets, smartphones e usam esses aparelhos enquanto se deslocam para casa e para o trabalho. Mas, ele não as menciona porque elas não existem para o PSDB, são apenas votos, logo, não são lembradas, tampouco citadas de maneira natural, como os usuários de carros, helicópteros, jatinhos e aeroportos privados.

Outra vez, perguntado sobre a Lei Seca criada em 2012 para coibir a circulação de motoristas embriagados ou sob efeito de drogas, Aécio se desequilibra. Para quem não sabe, ele foi parado em blitz da Lei Seca no Rio de Janeiro e recusou-se a fazer o teste do bafômetro. A resposta dada tenta inverter o vetor da acusação: "candidata, tenha a coragem de fazer a pergunta direta, a senhora traz para esse debate, talvez pelo desespero, um tema que tem que ser colocado com absoluta clareza..." Só no planeta de Aécio, provavelmente, alguém que esteja "desesperado" tem racionalidade para propor temas que devem "ser discutidos com absoluta clareza." Esse tipo de prática é, ao contrário, de quem tem lucidez, de quem pensa e não tem os neurônios comprometidos por essa ou aquela substância química. Aecim continua: "eu tive um episódio em que parei numa Lei Seca porque minha carteira estava vencida e ali, naquele momento, inadvertidamente não fiz o exame, me desculpei, me arrependi disso. A senhora não se arrepende de nada que fez em seu governo, diz enfático, é importante que nós olhemos pra frente, vamos falar do Brasil, vamos falar de coisas sérias, não é possível que a senhora abaixe tanto a campanha. Quando a senhora ofende a mim e a minha família, ofende todos os brasileiros que querem mudança."

Aécio tenta conquistar a empatia do eleitor fazendo-se de frágil e flexível na esfera pessoal, vejam, ele erra, é humano, pede desculpas, ainda mais, arrepende-se dos erros cometidos. O arrependimento é artifício cristão pescado para evidenciar suposta pequeneza humana e mobilizar os corações fraternos e solidários. E Dilma, ao contrário, seria irascível, implacável, características masculinas detidas por ela, mulher fora do lugar que ocupa um lugar de homem, lugar de Aécio. Ela não se arrepende de nada feito em seu governo. Mas, desde quando a arena política é lugar religioso de arrependimento? O campo da ação política é espaço de compromissos e responsabilidades, de assumir acertos e erros. Falávamos da vida pessoal de Aécio, de suas infrações de trânsito, de sua negativa para fazer o teste do bafômetro e, em resposta, ele saca da cartola uma associação religiosa de não-arrependimento por supostos erros no jeito de governar da adversária. Depois da estratégia deliberada de confundir o eleitor, o candidato pede que falem de "coisas sérias." É provável que ele ache que flagrá-lo numa blitz da Lei Seca não é coisa séria, pois ele pode tudo como Thor Batista e outros meninos mimados país afora.

Por fim, Aecim recorta e descontextualiza a fala de sua interlocutora. Ela não acredita que haja alguém acima da corrupção e acredita que todas as pessoas possam cometer corrupção. As frases são suficientemente explicativas, em síntese, ninguém está acima da lei, todas as pessoas que exercem função pública são passíveis de cometer erros e, responsáveis por eles, devem ser investigadas, julgadas e punidas, caso seja comprovada culpa. Ele sabe disso, mas manipula as palavras e tenta ludibriar o público com uma tirada generosa (sic): "eu vou dar à senhora a oportunidade de desculpar-se com os brasileiros por aquelas afirmações." O rapaz do Rio, digo, de Minas, quer vender a imagem de magnânimo, daquele que oferece à sua opositora a chance de ser humilde, de desculpar-se. Mas, desculpar-se pelo que, mesmo? Aécio dá a entender que as pessoas que escrutinam sua vida particular, descobrem e publicam seus podres estão invadindo fronteiras de um castelo inexpugnável. Ele acha que está acima da corrupção, tem caráter inquebrantável e honradez que só um Aécio pode ter.

Está errado, menino mimado! O feminismo nos ensinou que o pessoal é político. Que os homens "de bem”, como o professor uspiano que no início dos anos 80 espancava a mulher em casa e depois seguia lépido para a filosofança na maior universidade da América Latina, como Dado Dolabella, como políticos diversos, não podem agredir mulheres, torturá-las e matá-las, como fez Pimenta Neves, como se isso fosse normal e aceitável, porque são homens brancos e detentores de prestígio social, seja pelo dinheiro, pela intelectualidade ou pela exposição na mídia (produção da mídia), para além da brancura. O feminismo e a coragem das mulheres que denunciaram nos ensinaram isso.

Algum assessor precisa avisar a Aécio que, caso tivesse tido comportamento decente diante do mal estar de Dilma, pós debate no SBT, ao invés de ironizar sua fragilidade física temporária, teria conquistado votos e boa vontade de indecisos para sua candidatura. O problema é que essa performance ele não treinou, tampouco tem elementos para executá-la, buscados de algum reservatório perdido de valores humanos. Ele é apenas uma velha raposa, pronta a destroçar a presa se ela titubeia.

Mas, nós, mulheres, sabemos o lugar onde homens como Aécio querem nos colocar ao nos dar ordens, ao nos chamar de levianas, ao empinar o dedo mandão enquanto falam conosco. O machismo, o racismo e a homofobia apoiam Aécio, estão a seu lado: Olavo de Carvalho, Malafaia, Lobão, Feliciano, Alexandre Frota, Dado Dolabella, Bolsonaro, Pastor Everaldo, Fidélix, Carlinhos Cachoeira, Aloysio Nunes, abençoados por Marina e estranhamente referendados por Luís Mott. Às mulheres, à exceção de Sandra de Sá, ele não engana. Ou não, já que “vale tudo, só não vale dançar homem com homem, nem mulher com mulher, o resto, tudo vale!” Contudo, em que pesem os mistérios humanos, as contradições, oportunismos, síndrome do escravizado e idiossincrasias, perdeu, playboy! Perdeu!

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escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna semanal Dublê de Ogum.

domingo, 19 de outubro de 2014

Clippagem amiga do NR para o debate eleitoral

por Thiago Domenici

Faço aqui uma seleção de textos que considero interessantes para o debate em torno das eleições. São avaliações de pessoas de vários espectros ideológicos e políticos, sobretudo, mais à esquerda, por força das características desse blog e desse editor. O que está aí considero poder ajudar a clarear as ideias sobre o cenário conjuntural do primeiro e segundo turno das eleições. Sobretudo agora, nesse clima de polarização PT-PSDB onde vemos uma avalanche de informações.
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Thiago Domenici, jornalista, editor e coordenador do NR.
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