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The Salton Sea, Califórnia - Imagem de Stuart Palley

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Retrato do Brasil pós-racial


por Cidinha da Silva*

Estranho país era aquele! Havia um rei eleito pelo esporte mais popular do reino que não defendia seu povo. Ao contrário, quando um membro do povo era atacado, estranhamente, ele argumentava com olhos marejados, que ataques deveriam ser ignorados. Falar dos problemas e exigir justiça não traria nada de bom, apenas amplificaria os problemas e os tornaria mais insuportáveis. Bom mesmo era silenciar e seguir como burro de cabeça baixa e olhos vendados.

Naquele país, técnico de futebol chamava a não-aceitação do racismo institucional nas arquibancadas dos jogos de “esparrela” e "armação" do jogador agredido. Denunciante virava algoz e era perseguido pela imprensa. Denunciada tornava-se celebridade com direito a participação em programas de auditório com cabelo repaginado, acolhimento dos profissionais do entretenimento televisivo e bastante tempo para explicar e justificar seu crime, além de conquistar simpatia e cumplicidade do público ávido para inocentá-la e para deixar as coisas como sempre foram. Estudava-se um convite para que a jovem denunciada por atos racistas colaborasse no roteiro de novos episódios da série televisiva “As negras como as vemos.”

Naquelas terras de pretos, durante o passado escravista, uns poucos brancos protegiam os negros rebelados, algumas vezes por compromisso com o humano, noutras por interesses econômicos. Agora os tempos eram outros. Os negros herdeiros dos negreiros, posicionados em universidades e outros lugares sociais de destaque miravam os fatos midiáticos com o objetivo de projetar seus negócios, de enraizá-los no seio da elite, de fazer reverberar a marca da comercialização do ensino em corações e mentes.

Assim, na contramão da história escrita pelos vencidos, os herdeiros do imaginário negreiro aliavam-se aos herdeiros dos vencedores do passado, cuidando da retaguarda enquanto os generais se recompunham e se armavam. Triste país, aquele.

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escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna semanal Dublê de Ogum. Ilustração: Djanira da Mota e Silva, sem título, 1959. Óleo/tela. Foto: Pedro Oswaldo Cruz

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Calangada


por Júnia Puglia     ilustração Fernando Vianna*

 Chega email da amiga que está passando o mês em Manaus. Diz que faz um calor de rachar, mas lá a suadeira é tanta que fica impossível passar qualquer creme na pele – quem precisa deles, com aquela umidade toda? A cútis agradece, linda e reluzente.

A inveja me consome. Enquanto ela se desfaz em água amazônica, nós aqui vamos sendo espremidos numa centrífuga, até liberarmos a última gota de líquido. Nem quero saber o que vão fazer com o nosso bagaço. Lábios, mãos e pés são as almas de Caetano esticadas no curtume, não importa quantas vezes por dia sejam hidratadas com cremes e loções.

Quando desembarquei na capital da República, quatro décadas atrás, achei muito interessante que todo mundo usava óculos escuros, coisa que lá no interior era chique no úrtimo, reservada para ricos e autoridades. Logo me dei conta de que sem eles seria impossível manter os olhos abertos neste excesso de céu arreganhado, com o tal astro-rei-sol reinando absoluto, como devem reinar os reis e rainhas, e só eles, por mais inspirador que seja o cargo de Presidente (Dilma Bolada, Soberana das Américas, não vale).

Todo ano tem o mês de setembro, com a mesma ladainha. Eu até já falei disto aqui, e os candangos se identificaram muito. Mas candangos não são calangos.

Seres admiráveis são os calangos, verdadeiros senhores deste território. Não se impressionam com nada disto. Pedras e calçadas escaldantes, terra solta fervente, grama, árvores e arbustos esturricados e eles lá, correndo de um lado pro outro, como quem tem a sexta-feira toda comprometida com visitas, reuniões, almoço de trabalho, compras e chopp no fim da tarde. Acabo de surpreender uma espécie de assembleia da categoria, num estacionamento próximo. Era hora do “coffee break” lá deles. Eu vinha caminhando, tentando aproveitar cada centímetro de sombra, quando vários cruzaram a calçada chispando, rumo ao asfalto, e depois em grupo para determinado ponto no meio da vegetação seca. Eram cinco, se não me engano.

Não estavam nem aí para a minha bisbilhotice. Esperaram pacientemente que eu desistisse de observá-los. Assim que me afastei, retomaram a correria frenética. Seria um comício eleitoral o que estavam organizando? Uma carreata? Ou uma reunião de calangos com candidatos, para se conhecerem melhor e apresentarem suas reivindicações específicas? Será algum deles candidato, entre os milhares de candangos que buscam assento na Câmara Distrital? Sei não. Só sei que, nas atuais circunstâncias de temperatura e umidade, devem ser as únicas criaturas energizadas dessas paragens. E nem sinal de chuva.

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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Hippie de BR

por Carlos Conte   ilustração Marcelo Martins Ferreira

Nas últimas férias, dei carona para um sujeito chamado Gnomo. Gnomo é seu nome de estrada. Três anos na estrada, pegando carona e caminhando pelas BRs com sua pequena mochila e seu mostruário hippie feito de pano e canos de PVC.

– Valeu pela carona, brother! – tirou do próprio pulso uma pulseira de linha de bordado adornada com uma pedra azul e me deu. – Presentinho do Gnomo pra lembrar do brother da estrada!

Agradeci, amarrei no pulso e acelerei rumo ao sul. Saímos de Salvador com o sol nascendo. Nosso destino: Vitória.

– Vou terminar um Filtro dos Sonhos antes de chegar em Vitória. Peguei umas penas de arara no zoológico de Recife. O guardinha não queria deixar. Mas eu voltei lá depois quando ele não tava olhando. Vou fazer um Filtro dos Sonhos pra você com essas penas de arara. Curte?

Mesmo sem saber o que era um Filtro dos Sonhos, aceitei. Era a maneira de me retribuir, já que estava completamente liso. Penas de arara colhidas do chão não afetaram minha consciência ecológica a ponto de recusar. “Se ele tivesse arrancado da arara, recusaria”, pensei. Mas Gnomo era um sujeito pacífico. Sua matéria-prima vem da coleta. Na primeira parada, enquanto eu abastecia o carro e tomava um café, ele se ocupou catando coisas no mato atrás do posto de gasolina. Voltou com uma sacola cheia de materiais:

– Olha só, brother, achei umas coisinhas legais: pedra, semente, corda, arame, cipó... Seu Filtro dos Sonhos vai ficar massa: vai ser de galho de chorão! As pessoas jogam muita coisa boa no lixo. O que eles jogam fora eu uso na minha arte – orgulhou-se.

Encontrar Gnomo me fez lembrar de uma andarilha que pedia carona na viagem de ida. Fiquei mal por não ter dado carona pra ela. A mais de 100km/h, não deu tempo. Pedir carona exige estratégia e ela estava no lugar errado! Gnomo me explicou detalhadamente: tem que escolher um trecho de velocidade reduzida, de preferência trevo ou ponto de lombadas, e é preciso que o acostamento seja largo e longo, na verdade um recuo é o ideal para o carro conseguir desviar-se da pista sem provocar acidente.

– Você foi um anjo no meu caminho, Carlão! Carona de 2 dias não é toda hora que aparece!

Fiz questão de dar carona para ele porque, de certo modo, me sentia em débito. Quando vi a menina, já tinha passado por ela e logo atrás de mim vinham carros e carretas a toda velocidade... Acostamento estreito. Não teve jeito. Segui viagem. Agora era a vez de Gnomo e eu precisava dar essa carona, como se minha viagem ganhasse muito mais sentido com um estradeiro de verdade ao meu lado. Faz tempo que sou fascinado pela vida na estrada: desde que li On the Road pela primeira vez, Dean e Sal cruzando os Estados Unidos com uma mochila nas costas, ou o relato zen de Os Vagabundos Iluminados; desde que ouvi falar dos sadhus, monges andarilhos indianos que vivem de doações, de sol e de água; ou o relato de Che Guevara pela América Latina explorada e miserável; desde então, a viagem me fascina e não me canso de ir atrás de outros relatos de viagem: a desobediência civil de Thoureau, as andanças de Rousseau pelos bosques suburbanos, as perambulações opiáceas de De Quincey pela Inglaterra. E Gnomo, de certa forma, era a realização desse modo de vida (pelo menos no que diz respeito à simplicidade e ao nomadismo). Gnomo, meu copiloto. Mais de mil quilômetros ao lado do Vagabundo Solitário Gnomo, que sempre que encontrava oportunidade exaltava as qualidades de sua arte. “Arte hippie”, ele dizia.

Mas o encantamento durou pouco. Romantismo. Idealização. Os livros também falam do “lado B” da vida andarilha. Os beats nunca esconderam isso. A vida na estrada é dura, como se pode imaginar, e Gnomo estava definitivamente na pior. Em vários sentidos. Pra começar, estava duro. Convidei-o para almoçar: ele fez um prato gigantesco – “vai saber quando vou almoçar de novo?”. Contou-me seus infortúnios: a ex-mulher voltou para o Chile e levou o cachorro; a única filha está em Pernambuco sendo sustentada pelos avós; as vendas andam mal... Em Salvador, vendeu pouco e bebeu muito. “É a fase...”, lamentou-se. Agora precisava encontrar uns amigos em Belo Horizonte: fixar-se por um tempo, trabalhar bastante, juntar mercadoria e só então seguir viagem de novo. Por ora, seu mostruário hippie tinha pouco a oferecer aos fregueses, algumas pulseiras e brincos... Era preciso fazer uma parada estratégica até a temporada de fim de ano, quando as praias se enchem de gringos e paulistas. Mas enquanto dezembro não vem, trabalhar, esperar... Gnomo não escondia sua aflição. Ele sabia que estava na pior.

Em Teixeira de Freitas, pequena cidade perto da divisa com o Espírito Santo, paramos para dormir. Gnomo já havia anunciado que deixaria suas coisas no carro e iria se ajeitar na rodoviária, o lugar mais iluminado e seguro da cidade. Para ele, numa boa. Já estava acostumado a fazer isso. Mas eu não conseguiria dormir tranquilo pensando em Gnomo na rodoviária. Afinal de contas, éramos parceiros de viagem e aquilo não estava certo. Paguei 20 reais pelo pernoite dele, assim como paguei a carne de sol do jantar e a cerveja. Gnomo se encostava em mim sem nenhum grilo, resignado. Se não fosse em mim, seria em outro. Se não fosse em ninguém, seria pedindo, como um sadhu indiano. Mendigando. Virei umas pingas e fui me deitar, pensando em Gnomo. Pensava também como seria fazer como ele: escapar de tudo e viver na estrada, dormindo ao relento, conhecendo lugares novos, vivendo da natureza e da bondade dos outros. Mas havia as dificuldades, os “perreios”... E cheguei à conclusão de que Gnomo vivia num “perreio” eterno, embora ele não se importasse muito com isso. Talvez ele se importasse um pouco. Não sei... talvez eu me importasse muito mais do que ele.

Dia seguinte, cruzamos a fronteira de estados, Gnomo foi dormindo quase todo o caminho embalado pelo som de Gil: “O sonho acabou/quem não dormiu no sleeping bag nem sequer sonhou”.

O tempo na estrada vai rápido. 100km ficam cada vez mais curtos. “É logo ali...”, dizem os caminhoneiros, “É logo ali, só mais uns 100km...”. Para falar com caminhoneiro, é preciso se referir a grandes distâncias. Sempre que falava que tinha saído de São Paulo dias atrás, percebia que me olhavam com alguma consideração, porque sabem que essas BRs são sofridas pra cacete, ainda mais pra um carro de passeio. O lema dos carreteiros é “Veículo leve que saia da frente!”. Se não estiver alerta, eles passam por cima mesmo.

Entramos em Vitória quando anoitecia. Parei em frente à praia e anunciei a ele o fim da carona.

– Agora vou pra catedral, onde os brothers se juntam pra vender. Valeu pela carona, Carlão! Foi foda! Te agradeço de coração...

Antes de ir, me pediu umas moedas para o ônibus, pegou suas coisas e seguiu adiante, enquanto fiquei encostado no carro olhando para aquela imagem pequena, cheia de dreads que foi ficando cada vez mais escura e pequena até desaparecer no meio do tráfego. Dia seguinte, tentaria entrar clandestinamente no trem que vai pra Belo Horizonte. Mais um dia de viagem, nessa viagem tão incerta e fugidia que era o seu próprio modo de vida. Fiquei triste e admirado vendo Gnomo partir. Só mais tarde me dei conta de que sua sacola de “materiais” de coleta tinha ficado no banco traseiro. E o Filtro dos Sonhos prometido, feito de galho de chorão e penas de arara, vai ficar para a próxima.

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Carlos Conte, sociólogo, é também resenhista e cronista. Mantém a coluna mensal Casa de Loucos, uma homenagem aos mestres João Antônio e Lima Barreto. Marcelo Martins Ferreira, ilustrador, design e músico, especial para o texto

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Fim das contas

por Júnia Puglia     ilustração Fernando Vianna*

Para que tanto investimento na prolongação da vida, se ninguém quer ficar velho? É só uma provocação... Graças aos avanços na ciência e no conhecimento sobre como funcionam nossos corpos e mentes, estamos vivendo um momento de grande virada na perspectiva de tempo que nos cabe viver. E me parece justo querermos ser velhinhos saudáveis, lúcidos e lépidos, capazes de aproveitar tudo que a vida pode oferecer até o momento final – porque este vai chegar mesmo, não tem jeito. A questão é que envelhecer tem um preço, frequentemente alto, como tenho observado, pois continua sendo impossível determinar o futuro, em qualquer etapa da vida.

Bem, mas no ponto em que me encontro, da maturidade, ou da meia-idade, como já quase nem se diz, posso olhar pra trás com uma distância que me coloca a infância e a juventude em perspectiva. À parte o espelho, que, como sabemos, insiste em refletir o que ele mesmo decide sobre a nossa aparência e os nossos corpos, esse distanciamento me conta coisas muito interessantes. A primeira e mais importante delas, que me parece um consenso entre cinquentões, é que eu teria me poupado muita ansiedade e energia emocional se, aos vinte e cinco anos, tivesse podido desfrutar da serenidade e da ironia de agora. Ficamos todos querendo, né, inclusive porque a outra coisa que vem com o tempo é a constatação de que cada momento vivido teve a sua função naquilo que somos hoje.

As contas que fazíamos são outro dado importante. Lembra quando gastávamos horas de sono calculando quantos centímetros de afeto havíamos recebido em troca dos metros oferecidos? Ou quando tínhamos a expectativa de receber quarenta quilos de atenção da família e só entregavam quinze? Ou nos sentíamos em falta com alguém por não suportar mais do que dez minutos ouvindo sua conversa, quando a pessoa havia nos aturado horas a fio contando as peripécias das férias? Ou quando esperávamos afagos e reverências em troca do investimento material e afetivo em alguém? Ou quando contávamos as horas de espera por um encontro amoroso, para depois mandar a fatura? E como nos achávamos maravilhosos quando as contas eram positivas a nosso favor? E como doía cada vez que constatávamos prejuízo na contabilidade?

Quanto a mim, acabou, já deu. Zerei a planilha da contabilidade afetiva, por desistência de lidar com esses cálculos chatos, difíceis, sofridos e inúteis, que não dependem só de mim e me consumiam uma energia preciosa. Tudo o que entra passa a ser lucro. E não porque eu seja uma flor de pessoa, mas porque quero me poupar aborrecimentos. Quem sabe assim, se eu chegar a ficar velhinha – saudável, lúcida e lépida, por favor! –, possa rir demais e lamentar de menos.

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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

De pássaros e mortes

1964 + 50
Histórias de pessoas de carne e osso  e também de personagens de papel  que viveram na roda viva da ditadura militar. Episódios quinzenais toda quinta-feira.

 (Episódio 17)

 por Fernanda Pompeu   ilustração Fernando Carvall

Antes de ser uma designer internacional de moda, ela foi costureira  dessas que se debruçam sobre a máquina Singer e tratam agulha e linha com dedos de anjo. Antes de abrir uma loja de roupas no badalado Ipanema carioca, ela nasceu em Curvelo  uma das portas de entrada do sertão mineiro. Antes de se tornar persona non grata para os militares da ditadura, ela era a mãe de três filhos  duas moças e um rapaz.

O itinerário de sucesso de Zuzu Angel se tornou trágico quando, um ano depois do desaparecimento de seu filho Stuart Angel, ela leu uma carta escrita pelo preso político Alex Polari. Nela, Alex conta ter testemunhado o assassinato do jovem de 26 anos nas dependências do Cisa  Centro de Informação da Aeronáutica, na Cidade Maravilhosa. Angel era quadro de direção do MR-8, um dos vários pequenos grupos de resistência armada.

Diz a carta: "Consegui com muito esforço olhar pela janela que ficava a uns dois metros do chão e me deparei com algo difícil de esquecer: junto a um sem-número de torturadores, oficiais e soldados, Stuart, já com a pele semiesfolada, era arrastado de um lado para outro no pátio, amarrado a uma viatura e de quando em quando obrigado, com a boca quase colada a uma descarga aberta, a aspirar gases tóxicos que eram expelidos."

A partir da leitura da carta, Zuzu Angel se tornará incansável e irredutível na denúncia do assassinato do filho e na procura de seu corpo. Enterrar ou cremar corpos amados é direito básico e inalienável do ser humano. Somos  até aonde eu sei  a única espécie a fazer isso. Trata-se de um ritual de homenagem e encerramento.

Que digam, com lágrimas e propriedade, familiares e amigos dos desaparecidos na ditadura militar e nas favelas e periferias de hoje. Mães de Stuarts e Silvas se igualdam no pranto. Zuzu Angel (1923 1976) se tornou símbolo da mãe à procura do corpo do filho por tenacidade própria, mas também por suas circunstâncias. Já explicou o filósofo espanhol Ortega y Gasset: "Eu sou eu e minhas circunstâncias."

Inteligente e bem relacionada, ela soube tirar partido da dupla nacionalidade do filho (brasileira e americana), chegando a entregar um dossiê para o então secretário americano Henry Kissinger. Também mobilizou algumas celebridades de Hollywood. Estas a conheciam pela excelência de seu corte e costura. Mas tudo isso foi em vão, pois as autoridades brasileiras negavam inclusive a prisão do rapaz. Seu rosto continuava impresso em cartazes de Procurados.

Zuzu estampou seu protesto e sua dor nos tecidos em que trabalhava. Se antes eles eram cheios de cor e de alegres motivos tropicais, agora vinham com pássaros engaiolados, anjos amordaçados e balas de canhão. Há quem diga que com essa ação, ela inaugurou a primeira coleção de moda política da História. Quem passasse por ela dando bom dia, ouviria: você pode ajudar a encontrar o corpo do meu filho?

Contam também que numa viagem aérea, minutos antes da aterrissagem, ela tomou o microfone de uma comissária e passou o seguinte recado aos atônitos passageiros: "Vocês vão descer no Aeroporto Internacional do Galeão, no Rio de Janeiro, Brasil. Saibam que neste país torturam e matam jovens estudantes."

Firmeza e insistência cessaram na manhã de 14 de abril de 1976. Na saída do túnel Dois Irmãos, na Estrada da Gávea, o carro de Zuzu bateu na mureta de proteção e capotou. Ela morreu na hora. Um tempo antes, ela havia deixado uma carta com o compositor Chico Buarque, na qual avisava: "Se eu aparecer morta, por acidente ou outro meio, terá sido obra dos assassinos do meu amado filho." 

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Fernanda Pompeu é escritora e redatora. Fernando Carvall é o homem da arte.
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