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Exposição ‘Sensational Butterflies’ no Museu de História Natural de Londres (Getty Images)

quinta-feira, 17 de abril de 2014

O arrivista

1964 + 50
Histórias de pessoas de carne e osso - e também de personagens de papel - que viveram na roda viva da ditadura militar. Novos episódios toda quinta-feira.

(Episódio 2)


por Fernanda Pompeu   ilustração Fernando Carvall

Em 1964 - depois de um passado político e tanto, alcunhado de "o corvo" pelos getulistas, ferrenho anticomunista, apesar de na juventude ter sido um deles - Carlos Lacerda era o governador da Guanabara (leia-se da cidade do Rio de Janeiro, ex-Distrito Federal, status usurpado pela novíssima Brasília de JK). Aliás entre seus vários desafetos - e foram muitos - estava o ex-presidente da República Juscelino Kubitschek, que ensaiava sua volta na futura eleição de outubro de 1965. Ser presidente da República também era o sonho dourado do governador da Guanabara. Só que pelo gosto da opinião pública tudo indicava que Juscelino levaria a melhor.

Carlos era um golpista. Estava na alma dele. Sempre pensando no bem do Brasil, dizia. Assim, ele foi um fanático propagandista do Golpe Militar. Deposto João Goulart, o marechal Castello Branco se sentou no trono do poder. O governador teceu mil e uma loas aos fardados. Confabulava com o Castello. Visitava o Costa e Silva, então ministro da Guerra. Lacerda queria sangue! Dizia que era preciso limpar o país dos contrarrevolucionários. Quando JK teve seus direitos políticos cassados, em público Carlos Lacerda silenciou. Mas nos bastidores, exultou a aniquilação de seu adversário direito. Pelos seus cálculos, não sobraria para mais ninguém. A presidência da República estava no papo. Desde, é claro, que houvesse as urnas!

Lacerda desenvolveu uma política de amor e ódio com Castello. Mordia sempre que percebia uma inclinação militar pela ditadura total. Assoprava quando o marechal garantia que seu governo era nuvem passageira e haveria o escrutínio em 1965. Os militares bobos não eram e passaram a sacar o jogo do governador. O resto da história a gente conhece. Não tiveram eleições para presidente coisa nenhuma. Depois de Castello, vieram os generais Costa e Silva, Médici, Geisel e Figueiredo. Todos amantes da ditadura, todos beijando a mão do autoritarismo e promovendo a violência contra adversários. Lacerda ainda surpreenderia tentando uma aliança estratégica com Juscelino e Goulart, mas era tarde demais. Finalmente teve seus direitos políticos surripiados com o AI-5, em dezembro de 1968. A partir daí, sua verve e estrela foram se apagando. Morreu nove anos depois. Mas, façamos justiça, Carlinhos, a exemplo de seu mais feroz inimigo Getúlio Vargas, também saiu da vida para entrar na história.

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Fernanda Pompeu é escritora e redatora. Fernando Carvall é o homem da arte.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Discoteca de músico: Tim Bernardes da banda O Terno

por Marcos Grinspum Ferraz  Ilustração de Victor Zalma*

Antes mesmo de conhecer o Tim, eu já tinha ouvido falar – por meio de alguns amigos – de um tal “moleque” que, com menos de 20 anos, era um baita músico talentoso, tocava muita guitarra e compunha belas músicas. De fato, Martim Bernardes, agora aos 22, tem todas essas qualidades, e isso ficou evidente para mim quando o vi pela primeira vez, em 2012, num show da banda O Terno – da qual ele é membro ao lado de Victor Chaves e Guilherme d’Almeida.

Tim Bernardes na foto de Sérgio Galvão
Foi justamente naquele ano que o power trio de rock’n’roll brasileiro lançou seu primeiro disco, “66”, e começou a fazer shows pelo País. Depois de gravar com Tom Zé em 2013, eles preparam para este ano o segundo álbum da banda, que deve ser lançado em agosto. Ainda bastante jovens, mas mais maduros, certamente vão colocar coisa boa no mundo...

Pois bem. É com Tim Bernardes como entrevistado que estreio aqui no Nota de Rodapé a série “Discoteca de Músico”, que a cada mês trará um artista respondendo às mesmas cinco questões, sobre discos e videoclipes que marcaram seus caminhos na música e na vida. Discos e vídeos antigos ou atuais, vale ressaltar, já que parto aqui da constatação de que música boa não para nunca de ser produzida.

A ideia da série é ter, no fim do processo, uma espécie de discoteca/videoteca virtual feita pelos músicos – de variadas idades e adeptos de diferentes estilos –, voltada para o público que quer conhecer mais os artistas ou mesmo que busca sugestões do que ver e ouvir. Sejam benvindos!

Um disco brasileiro que marcou sua formação musical

Difícil ser só um, hein... Por mais que que eu possa escolher qualquer um da discografia dos Mutantes, vou na verdade escolher o segundo disco do Cassiano. "Apresentamos Nosso Cassiano", de 1973. Desde que eu era muito pequeno esse disco morou no rádio do carro lá em casa e foi dos poucos que eu nunca cansei de ouvir. Pelo contrário, só fui achando ele mais foda a cada uma das milhões de vezes que eu ouvi. Os sons de bateria são insuperáveis, as orquestras, os hammonds, as guitarrinhas toscas (na verdade nada toscas), soa tudo muito bem. As músicas são incríveis, esquisitas, ele canta esganiçado e é lindo ao mesmo tempo... Demais!

Um disco gringo que marcou sua formação musical

O “Pet Sounds”, do Beach Boys, de 1966, é outro que eu conheci quando era criança e fui redescobrindo em várias fases da minha vida. Teve épocas que eu ficava de cara com os vocais, outras que eu pirava na sonoridade, os reverbs, os arranjos, a massaroca fina que é a instrumentação desse disco... Já pirei nas harmonias, em como são mega simples e mega sofisticadas ao mesmo tempo, cheio daquelas inversões lindas que vão se encadeando com uma puta classe. Isso sem falar nas composições. Pra mim, o Brian Wilson não tinha nem que ter grilado no “Sgt. Peppers” dos Beatles porque o “Pet Sounds” ganha de todo mundo.

Um disco lançado nos últimos anos (nesta década) que te marcou profundamente

Teve vários também, especificamente o “Helplessness Blues” dos Fleet Foxes pra mim é uma obra prima. Impressionante o capricho em cada aspecto do disco. Desde cada canção em si como nos jeitos que elas se agrupam no disco. Os arranjos e o som do disco são chocantes, muito fino, muito lindo. Vai além da canção folk, parece um filme foda.

Um videoclipe que marcou sua formação

“Your Life Is A Lie”, do MGMT. Esse clipe é muito doido, uma metralhadora de cenas incríveis meio nonsense, meio engraçado, com uma estética impecável à la Wes Anderson.



Um videoclipe lançado nos últimos anos (nesta década) que te marcou profundamente

Acho que os clipes que mais me marcaram são a maioria de 2010 pra cá. A produção independente de clipes chegou a uma qualidade incrível, então as ideias doidas estão virando clipes fodas sem precisar de gravadora, muita grana, ou um equipamento hollywoodiano. Um cara que eu sou fã dos clipes recentemente é o Tyler, The Creator. O clipe da música "IFHY" é sinistro.



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Marcos Grinspum Ferraz, jornalista e saxofonista da banda Trupe Chá de Boldo mantém a coluna mensal Verbo Sonoro, sobre cultura, música e afins. llustração de Victor Zalma, especial para a série

terça-feira, 15 de abril de 2014

Vão do Masp: a arquitetura cidadã das manifestações


A arquiteta Lina Bo Bardi, cujo centenário se comemora neste ano, talvez não imaginasse que o vão livre do MASP se tornasse, além de palco cultural, o principal ponto de chegada e saída para as manifestações sócio-políticas da cidade de São Paulo

por Milena Buarque*

O “5º Ato Se não tiver saúde, não vai ter Copa”, que acontece hoje em São Paulo, espera reunir 5,3 mil pessoas. “Desde janeiro de 2014 diversas pessoas, coletivos e movimentos sociais indignados têm ido às ruas com a palavra de ordem ‘Se não tiver direitos, não vai ter Copa’. Em fevereiro e março os protestos exigiram o investimento de nossos impostos na educação e no transporte público. Em abril é a vez da saúde. Nossa manifestação sairá do MASP no dia 15 de abril, às 18h”, avisam na página do evento no Facebook. No começo do mês, outro protesto, nesse caso organizado pelo Sitraemfa, sindicato que representa os trabalhadores da Fundação Casa, reuniu cerca de mil pessoas, exigiam aumento salarial e contratação de mais funcionários.

Um elemento comum entre a manifestação a se realizar hoje e do Sitraemfa é o Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand, o MASP, apontado, segundo pesquisa da São Paulo Turismo (SPTuris), como o principal ponto turístico da cidade. Dali partem ou terminam grande parte das manifestações da cidade.

Nas chamadas “jornadas de junho” de 2013, por exemplo, não foi o prédio sustentado por quatro colunas que ganhou destaque, mas, sim, o vão livre de 74 metros desenhado pela arquiteta Lina Bo Bardi (1914 – 1992). Ponto de encontro na avenida Paulista, o enorme vão é algo que impressiona aos primeiros olhares. A história conta que quando o poeta norte-americano John Cage veio à cidade, mandou parar o carro na frente do museu e, andando pelo belvedere, exclamou: “É a arquitetura da liberdade!”. Para o estudante de jornalismo do Mackenzie Diego Felix, que esteve em quatro atos de junho de 2013, o fácil acesso ao MASP é um ponto importante para a escolha do local. “É conhecido e fica na [avenida] Paulista, onde há concentração de todo tipo de gente, sobretudo da classe média.” Felix, que está fazendo seu trabalho de conclusão de curso sobre temas ligados às manifestações, como movimentos sociais, cobertura da mídia e redes sociais, acredita que a localização também é fator de segurança.

O elemento surpresa

Arquitetura propícia não é sinal necessariamente de cultura política. O elemento das manifestações foi a violência policial. Embora a presença das policias sob a alegação de preservar a “ordem pública” fosse esperada, o cientista político Marco Aurélio Nogueira diz que a PM não sabe lidar com manifestações. “No Brasil, a polícia não foi treinada para enfrentar protestos. Policiar manifestações políticas. Ela tem um componente militarizado. Enfrenta o conflito das ruas como se estivesse enfrentando uma guerra. E isso, em vez de pacificar, bota fogo na fogueira.”

Diretor do Instituto de Políticas Públicas e Relações Internacionais (IPPRI) da Unesp, Nogueira lançou no fim de 2013 o livro “As Ruas e A Democracia”, conjunto de ensaios com reflexões e possíveis resultados das revoltas que tomaram as ruas do País. “O diferencial para mim está na cultura política das pessoas que protestam. [Cultura política] é o modo como as pessoas entendem o protesto. Em alguns países, o protesto é muito mais estruturado na vida cotidiana do que no Brasil”, diz, fazendo referência à Espanha, que, em sua opinião, tem uma maneira de viver os protestos mais aliada ao cotidiano.

As várias definições do termo “cultura política” não apontam apenas para as noções de atitudes e regras de determinada população. Sentimentos e percepções evidenciam a cultura da sociedade. Segundo Nogueira, “rapidamente, se escutaram palavras de ordem protestando contra tudo e contra todos. Mas o recado mais claro foi dado aos poderes Executivo, Legislativo e organizações sociais: ‘não nos representam’ virou termo comum repetido nas ruas”.

O convidado especial

Para o estudante de arquitetura e professor do Laboratório de Ideias (LABi) Mario Gallão, o MASP não foi pensado para ser um espaço de manifestações. “Mas essa era uma das possibilidades. Acho que ela [Lina Bo Bardi] ficaria feliz de ter visto essas manifestações democráticas no espaço que ela projetou, sendo a lutadora e defensora do povo que foi”

Lina, que faleceu em 1992, vítima de embolia pulmonar, continua marcando presença nos atos. O museu, inaugurado em 1968, contou com a presença da rainha Elizabeth II da Inglaterra. No entanto, a morada do MASP, em 1947, ano de sua fundação, se localizava no prédio de quatro andares dos Diários Associados, do jornalista Assis Chateaubriand, um dos idealizadores do museu. Lá, não havia vão livre.

Segundo Gallão, que não esteve presente nos protestos, Lina sempre teve uma preocupação especial com as pessoas que usam as suas obras. “O espaço do térreo do MASP servia a dois propósitos. O primeiro de ousar com aquele que era, até então, o maior vão livre do mundo no país que, naquele momento, tinha uma arquitetura de vanguarda. O segundo era o de abrir a visão para o público, criando um espaço de convivência com uma grande vista ininterrupta”, conta.

Como acontece no SESC Pompeia, também projeto da arquiteta, a ideia era a de que as pessoas usassem o espaço para tudo que elas achassem válido como atividade. Nas várias imagens dos estudos preliminares do MASP, o vão é destaque. “Esculturas praticáveis do Belvedere”, de 1968, mostra brinquedos, como carrossel, escorregadores vermelhos e cata-ventos. Além de crianças e adultos.

Com o uso sendo definido por quem de fato utiliza, o vão livre do MASP, no papel da participação cidadã, continuará a ser o convidado (e cenário) imprescindível em 2014.

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Milena Buarque, estudante do último ano de jornalismo no Mackenzie, integrante do Projeto Repórter do Futuro, onde foi confeccionado este texto publicado pelo Nota de Rodapé

segunda-feira, 14 de abril de 2014

O preço da admiração

por Cidinha da Silva*

A moça posta vídeo de um grupo de cantores gospel no mural da escritora. Esta, xinga o Facebook, pois, rebelde, o sistema não atende sua solicitação de barrar todas as postagens que não sejam feitas por ela. Ele permite que alguns burlem a ordem expressa, foi o caso da leitora.

A escritora, pela milionésima vez, apaga a mensagem e envia à intrusa o texto de sempre: “por gentileza, se desejar submeter algo à minha apreciação, envie como mensagem privada e eu decido se quero ou não postar, e quando o farei.” A mensagem é a mesma e as respostas variam pouco: um pedido de desculpas, uma justificativa de que o responsável pela traquinagem foi o filho ou outra criança da casa, ou usa-se a senha permissiva de que “pensou que não tivesse importância”, ou ainda, a escritora iria gostar.

É um bla-bla-blá chato para justificar o injustificável: o perfil de uma pessoa nas redes sociais só é público se o dono ou administrador o abre para a participação do público, se convida as pessoas a postarem, se elas são bem-vindas ao fazê-lo, principalmente quando se trata da divulgação dos insuportáveis eventos de gente adicionada ao perfil. Se o que se quer é mesmo compartilhar (palavra bonita de sentido esvaziado na Web), há mecanismos outros, além da postagem invasiva.

Não constitui invasão quando gente amiga posta uma coisa ou outra no mural de amigos, gente íntima o suficiente para saber o quanto as suas próprias coisas são também coisas da dona do perfil, portanto, bem-vindas.

Mas a moça era insistente e resolveu precificar sua admiração na resposta à autora, disse o seguinte: “engraçado você dizer que não posta coisas do mundo gospel... eu que te admirava tanto pela sua visão de mundo... sei que temos religiões diferentes, mas se for música boa, gospel ou não, pensei que você fosse reconhecer... mas, tudo bem, querida, isso é não ter preconceito...”

O mural da escritora, ao contrário do que a leitora pensa, não está aberto às manifestações artístico-musicais, políticas, etc, que pessoas adicionadas julgam boas. O juízo de valor vigente ali é o da dona do perfil. Também ela não faz apologia religiosa, faz, sim, exposição reiterada, poética e contextualizada de valores civilizatórios de matrizes africanas, muitos deles, representados pelos Orixás e pelos N’Kices.

A escritora é completamente impaciente com a hipocrisia do “sex shop não pode, mas sex shop gospel, pode”; não pode dizer “nossa senhora”, mas “nossa senhora gospel”, pode. Não pode dançar na boquinha da garrafa, nem pode dançar funk, do mais leve ao pancadão, mas pode “bater na portinha do senhor que ele abre, abre, abre”, como diz o sertanejo universitário gospel, ou seria um funk gospel? Existe nesta cultura um projeto de dominação mercadológica e de lobotomia dos consumidores que não interessa à escritora.

Na supermodernidade cotidiana os sentimentos têm preço: “olha, eu te admirava viu? Mas se você não atender aos meus reclames, se não suprir minhas carências, se não disser o que quero ouvir, fico de mal, não admiro mais.” O que fazer? Ossos do ofídio! A escritora vem de um tempo em que se a pessoa quiser gostar, gosta, se quiser admirar, admira, e a pessoa gostada e admirada não é refém disso. Um tempo em que artista era artista, celebridade era celebridade, água e óleo que não se misturavam.

Nos tempos supermodernos aplicam-se os pressupostos celebrativos a qualquer pessoa que tenha o mínimo de visibilidade e ela é esvaziada da condição humana para transformar-se em alguém que atende às vontades do público soberano. A escritora acha que isso é loucura, e ela ainda não enlouqueceu.

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 escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna semanal Dublê de Ogum.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Nós e eles


por Júnia Puglia     ilustração Fernando Vianna*

Fazia tempo que não me aparecia uma notícia dessas. Encontraram, na Malásia, um menino adotado por uma família de orangotangos. Pela foto divulgada, é lourinho, tem uns cinco anos e aparência saudável. Segundo as reportagens, ao cabo de um árduo trabalho de vários dias – durante os quais a família tentou bravamente evitar que ele fosse levado, mas acabou impedida de reagir, sob o efeito de tranquilizantes injetados por dardos – o garoto foi “resgatado”. Agora começa um processo, provavelmente complexo e demorado, de levantamento da identidade civil e da origem do menino. E para ele, desconfio, uma tristeza infinita, um destino de dor e desajuste irremediáveis.

Se havia outra solução, suspeito que sim. Qual seria ela, não tenho ideia. Mas que essa história me fez pensar, ah isso fez! A partir desses caso, encontrei outros relatos semelhantes na internet, com um traço comum. As crianças que passam por esta experiência nunca chegam a ser humanos “normais”. Partes do processo de aprendizado e aculturação ficam perdidas de forma definitiva, fazendo delas pessoas “incompletas”. Por que, então, ainda se toma a decisão, arbitrária e autoritária, de retirá-las abruptamente da vida selvagem?

Por mais explicações especializadas que se possam dar, a mim me parece que a principal motivação vem do nosso convencimento de que somos superiores aos outros animais e de que um ser humano não merece viver daquela forma. Mas se é a única vida que faz sentido para aquela pessoa, quem tem o direito de interferir? São questões complexas, longe de mim pretender dar respostas.

Aqui no meu canto, penso que, a partir do momento em que, lá nas cavernas, percebemos nossa capacidade de raciocínio e como ela poderia nos proteger contra predadores com muito mais eficácia que a força física, tomamos a decisão de nos distanciar dos outros ao máximo. Esta distância só fez crescer, com o passar dos milênios, ao ponto em que hoje os bichos próximos são aqueles que trouxemos junto, que foram por nós transformados. Os outros são todos “selvagens”.

Não tenho uma relação muito próxima com bichos, mas meus miolos estão mais amolecidos porque recentemente assisti os três episódios disponíveis da série “Cosmos”, em nova produção. Ciência traduzida para uma língua que todos entendemos. Fascinante, eletrizante como deveria ser o ensino científico nas escolas. No famoso calendário anual bolado por Carl Sagan como uma espécie de linha do tempo do universo conhecido, através do qual se faz uma comparação do tempo estimado de existência deste com um ano terrestre, é possível perceber a relevância do nosso planeta, da vida como a conhecemos e da história humana. Uma lasca de unha.

A origem comum a todas as espécies vivas, o parentesco íntimo entre todas as formas de vida, que tanto nos incomodam e temos feito de tudo para ignorar, aparecem ali claros como água mineral. Não, não podemos aceitar que um de nós se junte aos macacos e viva como um deles. É humilhante e nos faz lembrar de onde viemos. Na verdade, acho que ainda não entendemos nada, pois estamos nos minutos iniciais da nossa história.

Se conseguirmos sobreviver como espécie aos descalabros que temos provocado no planeta e em nós mesmos – e eu acredito que conseguiremos – talvez daqui a alguns séculos, ou mesmo milênios, tenhamos logrado perceber em larga escala nossas conexões profundas com todas as manifestações da vida e estabelecer formas de convivência mais inteligentes. Por enquanto, a imensa maioria de nós não percebe. E separamos drasticamente crianças de suas famílias orangotangas.

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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto.
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