Poético

Um homem com um guarda-chuva durante uma forte nevasca na cidade espanhola de Barcelona, na última segunda-feira. (Josep Lago / AFP / Getty Images)

Segunda-feira

Tacvba, a trilha sonora dos mexicanos, transformando o mundo num enorme salão

Diretamente do México, uma grande figura chamada Luis Miguel ‘Ouicho’ López nos embriagada de Café Tacvba. Só faltou a tequila, aproveitem...
Senti pela primeira vez a estranha sensação de só poder se movimentar para onde a multidão, inspirada e instigada pela música, decide se sacudir.
Foi em junho de 2005, no Zócalo [praça no centro da cidade], no D.F., México, e a vertigem que senti foi causada pelo Café Tacvba. As linhas do metrô próxima ao centro histórico haviam sido fechadas. Ainda que seja batida a analogia, eram rios de gente caminhando, convocados por quatro músicos que pareciam tocar sempre pelo simples prazer de aproveitar. Eu, ela e mais 175 mil pessoas tomamos aquela praça de assalto, e aproveitamos.
Nascem 21 anos atrás, na Cidade Satélite, um bairro mauricinho ao norte do D.F., e seu nome vem de um restaurante do centro da Cidade do México que era frequentado por alguns dos integrantes da banda – um deles, o vocalista, tem o estranho habito de mudar de nome a cada disco: já foi Juan, Pinche Juan, Cosme, Gallo, Gasss, Buendía, Sizu Yantra, entre outros – atualmente é Cone Cahuitl.
A banda não têm postura política, ou melhor, de classista. Sai em defesa dos povos indígenas, dos movimentos para a preservação do ambiente; se apropriam da cidade, resgatam o mais antigo e descobrem o mais moderno dos nossos sons. Cafeta é escutado pelos mauricinhos e os manos. E melhor de tudo: cantam, dançam, choram e desfrutam igual.
Rubén Albarrán (voz), Enrique Rangel (baixo), Emmanuel Del Real (teclado) e Joselo Rangel (guitarra) geraram, nessas mais de duas décadas de vida em conjunto, além da música mais versátil e original das últimas décadas no México, as lembranças mais intensas para toda uma geração que necessitava, urgentemente, musicalizar suas vidas com uma trilha sonora em ‘mexicano’.
Já foram até chamados dos ‘Beatles latinos’. São capazes de fazer uma música das que a milionária indústria fonográfica exige, como ‘Eres’;



Estourar de sucesso com uma popular canção de um dominicano ‘Ojalá que llueva’;



Fazer com que em um show a imbecil máscara de uma galinha se prolifere, e popularizar uma dança estranha (com a canção Los Tres);



Por aqui, são poucos os que, na casa dos 30 anos para baixo, não têm pelo menos uma lembrança de algumas das rolas (canções na gíria do México) do Cafeta. Conto para vocês algumas minhas:
Dancei com Mariana ‘Las Batalhas’ uma incontável quantidade de vezes. Foi o tema musical da mais bonita novela mexicana, escrita pelo único menino-velho do país, José Emilio Pacheco. Resgataram e homenagearam o ‘ch’ [som presente em muitas palavras que se fala no México, muitas delas proveniente de idiomas falados antes da chegada dos espanhóis] de Jaime López - um roqueiro sessentão – e mostraram ao mundo o colorido que há no México até para falar.



Penso em um antigo amor chilango [proveniente da Cidade do México] cada vez que escuto ‘Avientame’ que me traz à memória as imagens de Amores Brutos, de Guillermo Arriaga (roteirista) e Alejando Iñarritu (diretor), revelação narrativa do cinema deste país.
Café Tacvba mostra o agridoce da cultura mexicana – ‘Ingrata, não me diga que você me quer. Ao cantarolar ‘Paparupapa euuuu eoooo fizeram da minha vida e da de milhões de mexicanos, como a própria canção pede, ‘um grande baile’ e transformaram o mundo em um ‘enorme salão’.



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Gritavam: ‘tem gente machucada’, e a maré de gente abria um espaço. Depois, como açúcar que enche um recipiente, voltavam a ficar totalmente completa de corpos. Eram 175 mil humanos em um espaço de 46 mil metros quadrados. Ela queria chegar até a bandeira. Era impossível. Desistimos e, de repente, no meio de um mar apimentado de pessoas nós nos dedicamos ao proibido prazer de aproveitar, com Café Tacvba ao fundo.

Luis Miguel López é jornalista no México e escreve especialmente para a Coluna Conexsom Latina do jornalista Ricardo Viel.

Sábado

1924: O diário da revolução – Os 23 dias que abalaram São Paulo

A Imprensa Oficial do Estado de São Paulo vai lançar no próximo dia 27 de março, entre as 12 e as 14 horas, na Pinacoteca do Estado, um pequeno livro sobre a chamada “revolução de 24”, integrante do ciclo das rebeliões “tenentistas”. O livro é de autoria do amigo Duarte Pacheco Pereira que já nos honrou com textos neste Nota de Rodapé. Eis trecho da apresentação do professor Hubert Alquéres, diretor-presidente da Imprensa Oficial: "A maioria dos paulistanos não faz ideia dos combates sangrentos que foram travados nas ruas, praças e prédios de sua cidade em julho de 1924. Inconformados com os desmandos e a corrupção da primeira república brasileira, dominada por oligarquias estaduais, jovens oficiais, comandados pelo general Isidoro Dias Lopes, tentaram tomar a capital paulista para utilizá-la como base para atacar o Rio de Janeiro, destituir o presidente Artur Bernardes e implantar um conjunto de reformas democráticas e moralizadoras (...)" Vale conferir, pela história e pelo texto de Duarte que é muito bom. Sem contar o passeio na Pinacoteca.

Referências:
Livro: 1924: O diário da revolução – Os 23 dias que abalaram São Paulo
Autor: Duarte Pacheco Pereira
Editora: edição conjunta da Imprensa Oficial e da Fundação Saneamento e Energia, com ilustrações e apresentações do professor Hubert Alquéres e do historiador Ricardo Maranhão.

Le Monde Diplomatique Brasil lança novo site na segunda-feira


Recebi um e-mail informando que dia 15 de março o Le Monde Diplomatique Brasil vai lançar um novo site. Compartilho com vocês a informação e o convite.

AudioPé # 5 de Jeremias Morcegão trata de Lula x Serra

Jeremias Morcegão e Paulo Rodrigo Ranieri comentam o embate Lula x Serra na questão da "inauguração das maquetes". É o podcast da semana do Nota de Rodapé.


Sexta-feira

CNN teme concorrência das redes sociais

A transição do impresso para o digital e a busca por um modelo perfeito de negócio que atenda a essas mudanças ainda são incógnitas. Não há um modelo fechado e definitivo, e as apostas e especulações vez ou outra vem à tona. Outro ponto ainda indefinido do jonalismo on-line são as redes sociais, que podem ser uma das soluções para maior audiência e lucratividade nos sites de notícias. O que fazer com elas? Como trabalhar com as redes sociais?
De acordo com nota publicada nesta quinta-feira (11) pelo portal português Agência Financeira, "a CNN está mais preocupada com a concorrência das redes sociais, como o Facebook, o Twitter ou o hi5, do que das outras estações de televisão". O presidente da CNN, Jon Klein, durante conferência sobre o futuro dos meios de comunicação social em Nova Iorque, disparou ainda: "a concorrência de que tenho verdadeiramente medo é a das redes sociais".
Recentemente, o The Guardian demonstrou preocupação com a mesma questão. Disse o diretor Alan Rusbridger: "(...) mas também a necessidade do jornalismo contar com o público, de transformar os meios e os jornalistas em redes sociais informativas onde desde a primeira informação até a distribuição, passando pelo marketing, incorporem o comportamento das redes. Se os modelos de negócios responderem a estes desafios, encontrarão mais pistas para decidir quais são os métodos e canais de entradas e rentabilidade mais adequados para cada meio. Em função do seu conteúdo, objetivos, público e organização.
Tanto para a CNN quanto para o The Guardian, o caminho é uma aproximação total com as redes sociais - um "enlace", usando o termo em espanhol. "As pessoas que são vossas amigas no Facebook ou aquelas que vocês seguem no Twitter são fontes de informação de confiança. Clicamos nas ligações que nos enviam e temos confiança nelas", disse Jon Klein. Mas ainda não ficou claro, ao menos para mim, como se dará essa aproximação dos veículos com as redes sociais, necessária, obrigatória e urgente.
Em tempo, segundo um estudo da Semiocast, o português é o idioma mais falado no Twitter, atrás apenas dos idiomas inglês e japonês.

Paulo Rodrigo Ranieri é jornalista e colunista do Nota de Rodapé onde mantém o espaço Do Analógico ao Digital

Filme vencedor transforma os assassinos que dizimam culturas em heróis-santos


Reproduzo critica de Luiz Bolognesi publicada no Estadão durante esta semana "E ganhou a máquina de guerra". Bolognesi fala sobre o Oscar e seus vitoriosos de um ponto de vista muito interessante.


Ao contrário do que parece à primeira vista, a polarização entre Avatar e Guerra ao Terror não traduz uma disputa entre cinema industrial e cinema independente, nem batalha entre homem e mulher. O que estava em jogo e continua é o confronto entre um filme contra a máquina de guerra e a economia que a alimenta e outro absolutamente a favor, com estratégias subliminares a serviço da velha apologia à cavalaria.
Avatar foi acusado nos Estados Unidos de ser propaganda de esquerda. E é. Por isso é interessante. No filme, repleto de clichês, os vilões são o general, o exército americano e as companhias exploradoras de minério do subsolo. Os heróis são o "povo da floresta". A certa altura, eles reúnem todos os ''clãs'' para enfrentar o invasor americano. Clãs? Invasor americano? Que passa? É difícil entender como a indústria de Hollywood conseguiu produzir um filme tão na contramão dos interesses do país e transformá-lo no filme mais visto na história do cinema. Esse fato derruba qualquer teoria conspiratória, derruba décadas de pensamento de esquerda segundo a qual a indústria de Hollywood está sempre a serviço da ideologia do fast-food e da economia que avança com mísseis, aviões e tanques. Como explicar esse fenômeno tão contraditório?
Brechas, lacunas na história. Ou como diria Foucault, a história é feita de acasos e não de uma continuidade lógica cartesiana. A necessidade do grande lucro, da grande bilheteria mundial produziu uma antítese sem precedentes chamada James Cameron. O homem de Titanic tinha carta branca. Pelas regras da cultura do "ao vencedor, as batatas", Cameron podia tudo porque era capaz de fazer explodir as bilheterias mundiais.
Mas calma lá, cara pálida, uma incoerência desse tamanho, você acredita que passaria despercebida? O general americano, vilão? As companhias americanas que extraem minério debaixo das florestas tratadas como o império das sombras? Alto lá. Devagar com o andor, mister Cameron.
Aí, alguém chegou correndo com um DVD na mão. Vocês viram esse filme da ex-mulher do Cameron? Não, ninguém viu? Então vejam. É sensacional. Ao contrário de Avatar, nesse DVD aqui o soldado americano é o herói. Aliás, mais que herói, ele é um santo que arrisca sua própria vida para salvar iraquianos inocentes. Jura? Temos esse filme aí? Sim, o pitbull americano é humanizado e glamourizado, mais que isso, ele é santificado.
Então há tempo.
Guerra ao Terror estreou no Festival de Veneza há dois anos. Por acaso eu estava lá como roteirista de Terra Vermelha, do diretor italiano Marco Bechis, e fui testemunha ocular da história. O filme da diretora Kathryn Bigelow foi absolutamente desprezado pelos jornalistas e pelo público. E seguiu assim. Indo direto ao DVD, em muitos países, sem passar pelas salas de cinema. Até ser resgatado pela indústria americana como um trunfo necessário para contestar Avatar e reverenciar a máquina de guerra e o sacrifício de tantos jovens americanos mortos e decepados em campo de batalha.
Trabalhando num projeto para o mesmo diretor italiano, que pretendia fazer um filme sobre os viciados em guerra no Iraque, eu pesquisei o assunto durante alguns meses. Tudo muito parecido com o filme de Bigelow, exceto por um detalhe. O detalhe é que os soldados americanos que se tornam dependentes da adrenalina da guerra tornam-se assassinos compulsórios e não salvadores de vidas. O sintoma dos viciados em guerra é atirar em qualquer coisa que se mexa, tratar a realidade como videogame e lidar com armas e balas de verdade como um brinquedo erótico. Se Guerra ao Terror representasse nas telas essa dimensão da realidade, seria um filme sensacional, mas não teria levado o Oscar, podem apostar.
Guerra ao Terror venceu o Oscar porque, como nos filmes de forte apache, transforma os assassinos que dizimam outras culturas em heróis santificados. A cena extremamente longa e minimalista em que os jovens soldados americanos em situação desprivilegiada combatem no deserto os iraquianos é o que, se não uma cena clássica de caubóis cercados por apaches? Sem nenhuma surpresa para filmes desse gênero, os garotos americanos vencem, matam os iraquianos sem rosto, como os caubóis faziam com os apaches no velho-oeste. A cena do garoto iraquiano morto, com uma bomba colocada dentro do corpo por impiedosos iraquianos, que literalmente matam criancinhas, tem a sutileza de um elefante numa loja de cristais. Propaganda baratíssima da máquina de guerra.
No filme de Cameron, os na"vi azuis podem ser os apaches que derrotam o general e expulsam a cavalaria americana. Mas isso é apenas uma ficção. Na vida real do Oscar, a cavalaria precisa continuar massacrando os apaches.

Luiz Bolognesi é roteirista de filmes como Bicho de Sete Cabeças e Chega de Saudade

Quinta-feira

Em 16 de março se comemora o Dia Mundial do Teatro do Oprimido

Desde 2008, no dia 16 de março, centenas de grupos em mais de 70 países dos cinco continentes comemoram o Dia Mundial do Teatro do Oprimido. No Largo da Lapa, Rio de Janeiro, o Centro de Teatro do Oprimido - CTO realiza nesta data, das 10 até às 22h, no casarão verde e amarelo da Av. Mem de Sá 31, que abriga a instituição, uma programação de atividades artísticas: peças teatrais, shows musicais, poesias, performances, exibição de vídeos, a instalação O Ser Humano no Lixo, exposição de pinturas, exposição de parte do acervo do Instituto Augusto Boal, além da homenagem Viva Boal que vai celebrar os 79 anos que neste dia completaria o criador do Teatro do Oprimido. Saiba mais.

SERVIÇO
Evento: Dia Mundial do Teatro do Oprimido
Data: 16 de março
Horário: 10 às 22 horas
Local: Centro de Teatro do Oprimido. Av. Mem de Sá 31, Lapa
Informações: (21) 2232-5826 e 2215-0503
Classificação indicativa: LIVRE
Ingressos: GRÁTIS
 
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