sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Lettera 22


por Júnia Puglia    ilustração Fernando Vianna*

Aquela pequena maravilha pertencia ao mundo dos adultos. Seu ruído me chamava. Era um tlec tlec tlec blim tlec tlec tlec tlec tlec blim que me fazia imaginar como eu seria poderosa quando pudesse usá-la. Eu sabia que era uma máquina de escrever, que cada tlec tlec correspondia a uma tecla de letra e o plim era quando chegava na margem direita do papel e a gente tinha que empurrar a alavanca à esquerda, que fazia o papel subir um pouco e abria espaço para uma nova linha. Nenhum brinquedo jamais me provocou tanto fascínio, o que eventualmente me levou a aproveitar os momentos em que ela estava ao alcance das minhas mãos e sem ninguém mais por perto.

Era com enorme prazer clandestino que eu pegava uma folha de papel, introduzia-a no cilindro com uma das mãos, enquanto o girava com a outra. O papel entrava, às vezes meio de lado, ou com a ponta dobrada; fui aprendendo a ajeitá-lo e a dominar os truques daquele aparelho genial, onde eu podia brincar com as letras e palavras como num quebra-cabeça só meu, sem princípio nem fim. Quando se deram conta, eu já podia bater à máquina com razoável agilidade e precisão, usando os dedos “errados”, pois datilografar era uma arte cheia de métodos e regras. Eu bem que tentei, mas jamais consegui fazer como ensinavam nos cursos.

Depois vieram as máquinas elétricas e, mais recentemente, os computadores. Tudo é possível com a tecnologia digital aplicada a esses teclados modernos. O que vai para as folhas de papel impressas nessas traquitanas são produtos limpos e acabados, pois qualquer ajuste é feito na tela, jamais no papel.

Ontem fui procurar na internet uns documentos oficiais do final da década de setenta. Encontrei folhas de papel digitalizadas, com a aparência e a estética originais. Amoleci por dentro e entrei no clima. Resolvi aplicar uma aparência de máquina de escrever ao relato que eu havia começado a escrever, mas, por incrível que pareça, não consegui reproduzir ao computador as imperfeições sujinhas da minha amada Olivetti Lettera 22 portátil. Um conflito de gerações, provavelmente devido às minhas limitadas habilidades no mundo digital. Vou de itálico.

Morei no Rio por um breve período, entre 1978 e 1980. Vinha de Brasília, que era então um lugar muito tranquilo e silencioso. Uma das minhas primeiras saídas foi para ir ao banco. Instalada em Botafogo, e seguindo instruções precisas, peguei um ônibus para Copacabana, via Túnel Velho. Ao sair do túnel, dei com um barulho intenso e contínuo, um ronco alto, como num galpão industrial. Quando saltei do ônibus (em carioquês), que deve ter sido nas imediações da praça Cardeal Arcoverde, então isolada por tapumes e completamente destroçada pelas obras do metrô, o barulho continuava, como se estivesse me seguindo. E estava. Logo percebi que aquele era o ruído do bairro, uma mistura de tráfego pesado com um mundo de gente fervendo nas ruas de altíssima densidade humana.

Entrei na agência bancária e fui para a fila do caixa. Pouco depois, entrou um sujeito, segurando papéis e dinheiro na ponta dos dedos, vestindo apenas uma sunga e calçando chinelos de dedo. Vinha da praia, obviamente, e me deixou tão atônita que eu duvidei dos meus olhos. Fiquei esperando que o segurança o pusesse porta a fora, mas ele se encaminhou para a fila e esperou tranquilamente a sua vez. Mais chocante ainda. Nunca na vida eu havia pensado que alguém poderia ir ao banco pelado. Era o primeiro dos muitos espantos que o Rio causaria na minha provinciana pessoa.

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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Beleza pura


por Júnia Puglia    ilustração Fernando Vianna*

A notícia mais linda deste fatídico 2014, quiçá da década, veio da Argentina: Estela de Carlotto, líder das Avós da Praça de Maio, pode finalmente conhecer e abraçar seu neto, nascido na prisão, trinta e seis anos atrás. Se alguém ainda duvida da maldade humana, as histórias dos bebês e crianças roubados às suas mães, pais e famílias não deixa fio solto.

Passados vários dias, ainda sinto no coração, na garganta e nos poros a onda eletrizante gerada pelo acontecimento, celebrado em imagens, memórias, entrevistas, lágrimas e cantorias desaforadas dessas incríveis mulheres. Pouco mais de trinta anos atrás, elas minaram e arruinaram o regime dos vampiros fardados, com a força da sua tenacidade e dos seus gritos de indignação. E não vão ter nem dar sossego, até localizarem tantos filhos e netos quantos lhes forem possíveis. Situação que se repete em várias partes desse nosso mundo farto de famílias destroçadas em nome do inominável.

Por mais que a notícia me emocione, não tenho ideia do que há por trás dela. Até o momento, minha história de ter e criar filhos, com tudo o que possa conter de sustos, medo, insegurança, alegrias, descobertas e sentimentos entranhados, passa bem longe de qualquer tragédia. Aliás, a oportunidade de exercer o papel de mãe é para mim um adicional, um presente da vida, que se tornou essencial, mas poderia não ter acontecido. Muitas mulheres não vivem esta experiência, por escolha ou circunstâncias, enquanto muitas outras o fazem por imposições várias, ou por falta de opção.

Fico tentando imaginar o que Estela sentiu quando sua filha decidiu viver como clandestina, durante a rapinagem de vidas promovida pela mais recente ditadura argentina, e desapareceu do contato com a família. Ou quando, ao buscar saber da filha, descobriu que esta havia sido presa e torturada, grávida. Depois, que o neto menino nasceu na prisão, esteve nos braços da mãe por cinco miseráveis horas e sumiu no mundo fabricado para apagar seu rastro. Ou quando recebeu a notícia do assassinato de sua filha. Não passei por nada disto, mas sei como é amar os filhos e sofrer suas dores do corpo e da alma. Tampouco posso avaliar a dimensão do que se passava dentro dela quando lhe registraram, em fotos e vídeos que correram o mundo, a expressão radiante e os dois fachos de luz que eram aqueles olhos, ao celebrar o neto recuperado.

Posso, isto sim, celebrar com ela, e o faço, com todas as minhas forças.

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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Desafinando o coro dos contentes

1964 + 50
Histórias de pessoas de carne e osso - e também de personagens de papel - que viveram na roda viva da ditadura militar. Novos episódios toda quinta-feira.

 (Episódio 15)


por Fernanda Pompeu    ilustração Fernando Carvall

A frase do título é verso de Torquato Neto (1944-1972). Aquele que, em sua brevíssima vida, desafinou mesmices do redigir. O cara experimentou para valer e pôs a alma para fora. Salve, menino Torquato! O craque da máquina de escrever.

Foi pensando no poeta e letrista piauense que me recordei do carioca Carlos Lamarca (1937-1971). Não que os dois (que eu saiba) tivessem afinidades ideológicas. De certo, o primeiro estaria mais para o caos do que para a sonhada nova ordem do segundo. Mas o que os aproxima, na minha memória, é justamente o desejo - transformado em ação - de desafinar o status quo.

Lamarca, capitão do Exército, poderia ter vivido numa boa no Brasil comandando por seus colegas de farda. No entanto por não concordar com a ditadura, nem com o capitalismo, tramou um assalto de armamentos no quartel de Quitaúna, Osasco, São Paulo. E entrou em cheio na clandestinidade e na luta armada.

Parece evidente que a semelhança entre os dois acaba por aqui. Será? Lamarca optou pelas armas como forma de derrotar os ditadores e entrar para a História. Torquato optou por se matar como forma de pular fora da História. No seu bilhete de suicida, ele escreveu: "Para mim chega!"

O fim dois se deu sob o chumbo da mesma época. O líder guerrilheiro foi assassinado por militares em Brotas de Macaúbas, interior da Bahia, em 1971. Um ano depois, no Rio de Janeiro, Torquato Neto acendeu o gás no banheiro de sua casa.

Lembro bem do começo dos anos 1970. Adolescente, regava mil sonhos, entre eles, o da liberdade de expressão e manifestação. Tudo o que então eu sabia sobre regimes democráticos era narrado pelo meu pai, militante do Partidão e louco pelo socialismo.

Se alguém perguntar se guardo boas recordações dessa época, direi que sim e que não. A parte negativa é óbvia, pois foi horrível ser jovem debaixo da repressão a ideias e informações. A parte positiva era a crença cega de que haveria um futuro mais bonito e mais desafinado.

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Fernanda Pompeu é escritora e redatora. Fernando Carvall é o homem da arte.

domingo, 10 de agosto de 2014

As crianças migrantes centro-americanas estão no limbo


Ao cruzar a fronteira entre os Estados Unidos e o México, aproximadamente 60 mil crianças provenientes da América Central foram detidas desde outubro de 2013 até junho desse ano. Essa situação reacendeu o debate sobre as políticas migratórias dos Estados Unidos, onde 11 milhões de migrantes indocumentados são altamente vulneráveis ao abuso dos seus direitos básicos que são garantidos pelas leis do país e pela legislação internacional.


por Aleksander Aguilar*

Já são 60 mil em menos de um ano. Uma grande quantidade de crianças de idades tão tenras quanto cinco anos. Elas viajam a partir de atravessadores (coyotes) até quatro mil km em lanchas, a pé, clandestinamente em trens de carga e ônibus, passando fome e enfrentando assédio, violência, assaltos, e inclusive o risco de sequestro de máfias narcotraficantes que os infligem cirurgias clandestinas de extração de seus órgãos para a venda.

Não estamos falando, pese que a intensidade do relato assim o faça soar, de algum roteiro hollywoodiano de imaginação fértil. Tampouco de distantes rincões na Síria ou em Gaza e dos refugiados de suas atuais guerras. Enquanto assiste-se estarrecido a absurda violência de Israel sobre a Palestina, o Brasil e grande parte do planeta ainda percebe pouco e ignora muito uma outra realidade, regional, dramática e nefanda, que se dá no nosso continente. Ela se inicia bem ali, logo acima da Venezuela, nesta região latino-americana que infelizmente para a maioria dos brasileiros ainda soa tão exótica quanto a longínqua região do Oriente Médio – a América Central. E conforma um contexto em que se misturam violência social, segurança regional e narcotráfico internacional.

A atual crise das crianças migrantes centro-americanas evidencia não apenas um grave problema migratório, mas revela a avassaladora situação de precariedade socioeconômica em que se encontra a América Central, principalmente nos países do chamado Triangulo Norte do istmo – El Salvador, Guatemala e Honduras. Desde essas nações, que estão entre as mais vulneráveis do continente, essa multidão de crianças atravessa todo o México até encontrar o “muro da vergonha”, que separa a América Latina dos Estados Unidos, onde se encontrarão com um limbo migratório: nem podem permanecer, nem podem serem enviadas de volta.

O drama social é evidente, e revela a desumanidade do nosso sistema internacional estatal – nem os Estados de origens dessas crianças, nem o Estado de destino as desejam. Não há um território que busque a realização dos seus direitos e as crianças migrantes centro-americanos transformaram-se em relegados sociais internacionais.

Uma verdadeira emergência humanitária que tem como uma de suas principais causas o corrente modelo econômico, característico da atual América Central, de dependência crônica das remessas – o dinheiro que os imigrantes, legais ou ilegais, centro-americanos que vivem na América do Norte enviam para os seus parentes nos países de origem – e é responsável, em larga medida, por manter a economia do istmo girando. Nos últimos 20 anos os centro-americanos enviaram aos seus países valores em remessas que alcançam 120 bilhões de dólares. Isso criou na região uma economia de consumo financiada artificialmente, e em que os lucros acabam concentrados nas mãos das oligarquias tradicionalmente dominantes, já que são os ricos que controlam os espaços de bens de consumo. Tal concentração, por sua vez, aumenta a desigualdade social que, como sabemos, também faz aumentar a violência. O desemprego crônico gera a migração massiva e investimentos produtivos são feitos em outros países, mesmo nos da região, melhor estruturados, como Costa Rica e Panamá. Assim exportar pobres se converte num negócio mais lucrativo do que buscar reduzir a imigração com tentativas de construção de uma matriz produtiva sólida.

O fator “maras” centro-americanas

É uma sequência perversa, e que relaciona migração com violência. Mas a situação econômica não totaliza a explicação. A Nicarágua tem uma economia talvez ainda mais vulnerável, mas suas crianças não fazem parte desta crise.

Porque entre essas pontas há o fator “maras”, as famosas gangues centro-americanas, que estão centradas no Triângulo Norte, e não no país Sandinista, que tem números de violência muito menores que os dos seus vizinhos. As gangues, ou no espanhol “pandillas”, é um fenômeno resultante do grande número de famílias fragmentadas, consequência direta das guerras civis que convulsionaram a América Central entre os anos 1960 e 1990, e da degeneração do tecido social familiar e comunitário que a migração produz. Milhares de centro-americanos da diáspora dessas guerras foram deportados pelo governo Bush (pai) a partir dos anos 1990.

Em terreno fértil para a violência, como são os territórios socialmente precários centro-americanos, e sem expectativas de bem-estar via “sistema”, consolidou-se dois grupos poderosos e rivais: a Mara Salvatrucha 13 e Pandilla Barrio 18, hoje consideradas duas das maiores gangues do mundo.

Muitas escolas públicas de bairros periféricos de Guatemala, El Salvador e Honduras, em lugar de proporcionar segurança e oportunidade para a juventude local, tornam-se espaços de recrutamento das pandillas. Os jovens que se negam são ameaçados e muitos assassinados, e a migração começa por aí – esses cidadãos sem segurança mínima nos seus próprios países são obrigados a sair de casa para não serem obrigados a se unir às gangues, e o caminho natural é a rota ao Norte. As maras dominam bairros inteiros e afetam diretamente a vida dos mais pobres, cobrando extorsão desde a entrada de transporte público em seus territórios até a entrega de jornal nessas áreas que comandam. Essas pandillas estão presentes nos três países e associadas em redes transnacionais. A perseguição de gangues e o recrutamento começaram a se impor como principais motivadores da fuga para os Estados Unidos.

A migração centro-americana hoje é uma catástrofe social para os pobres e um grande negócio para os ricos.

Dinheiro estadunidense resolve?

Os presidentes dos países do Triângulo Norte centro-americano, em reunião com Obama em Washington em julho deste ano, apontam parte da culpa nos Estados Unidos e utilizam a crise para solicitar mais investimento em segurança regional por parte do país, baseado no que foi o Plano Colômbia e na Iniciativa Mérida (para o México) mas há poucos indícios de que norte-americanos se dediquem a ações de mesma dimensão.

Os líderes da América Central argumentam que esses planos – essencialmente polêmicos programas de combate ao narcotráfico de bilhões de dólares financiados pelos Estados Unidos – foram exitosos nas regiões ondem foram implementados, mas empurraram o tráfico internacional para a América Central. Tal sucesso, porém, é tema de grande controvérsia, pois seus resultados positivos são parciais, frágeis e acompanhados de um inaceitavelmente alto custo humano, com dezenas de milhares de mortes associadas, cuja principal lição deveria ser a de não se tornar modelo para coisa alguma.

O governo Obama, na verdade, possui desde 2009 uma iniciativa especifica para a América Central com objetivo semelhante ao Colômbia e Mérida (chamado CARSI, na sigla em inglês), mas os impactos foram mínimos, pois sua alocação de recursos para os centro-americanos até agora foi de 642 milhões de dólares – um valor irrisório quando se pensa nos 90 bilhões de dólares que os Estados Unidos investiram em segurança fronteiriça repressiva nos últimos dez anos.

“Pobreza não garante status de refugiado”

Atualmente, as crianças migrantes centro-americanas que chegam aos muros do “mundo livre” são detidas na patrulha de fronteira dos Estados Unidos e em até 72 horas são deslocadas para albergues onde recebem cuidados médicos e psicológicos e assessoria jurídica. Devem então esperar que seu caso seja julgado por um tribunal, o que pode levar meses.

Essa situação reacendeu o debate sobre as políticas migratórias dos Estados Unidos, onde 11 milhões de migrantes indocumentados são altamente vulneráveis ao abuso dos seus direitos básicos que são garantidos pelas leis do país e pela legislação internacional. Uma significativa reforma migratória nos Estados Unidos é parte da solução, de forma a respeitar famílias, proteger direitos laborais dos migrantes, e garantir o acesso ao processo legal.

Como lembra a internacionalista Juliana Vitorino, nesse cenário, “o governo dos EUA não é isento de culpa, já que foi, ele mesmo, promotor de desestabilizações políticas, ingerências, financiador de guerras civis na América Central, além de ter transplantado e piorado o problema da violência do pós-guerra com a deportação de membros de gangues para El Salvador, Guatemala e Honduras, países onde nasceram esses novos migrantes indesejáveis”.

Entre as razões dessa cumplicidade dos Estados Unidos às condições que forçam a migração centro-americana estão o apoio histórico às ditaduras militares e regimes de violência na região, a promoção de acordos de livre comércio e políticas econômicas que arrasam a agricultura familiar e degradam os serviços públicos, e a adoção de políticas migratórias cada vez mais duras, que separam famílias com acirrada deportação.

Mas enquanto os presidentes centro-americanos buscam receber mais ajuda financeira dos Estados Unidos para manejar a crise, o governo norte-americano demonstra que sua resposta à questão descansa em outras prioridades. A melhor solução para o governo Obama é retirar o problema da sua porta o mais breve possível. E assim a primeira medida do presidente estadunidense diante da crise foi solicitar recursos especiais ao Congresso de 3.700 bilhões de dólares para mitigar a crise, aumentando o número de agentes de fronteira e de juízes migratórios. Obama deixou claro que sua intenção é repatriar as crianças que chegam aos Estados Unidos porque, em suas palavras, “o status de refugiado não é outorgado a alguém apenas porque sua família vive em uma região ruim ou em pobreza”.

A estimativa é de que até o final de 2014 o número de crianças centro-americanas que chegarão à fronteira dos Estados Unidos alcance as 90 mil.

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Aleksander Aguilar é jornalista, doutorando em Ciência Política e editor do projeto-blog O ISTMO - rede de analistas de temas centro-americanos, especial para o Nota de Rodapé

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Noves fora


por Júnia Puglia    ilustração Fernando Vianna*

E a matemática? Um dos grandes tormentos da minha vida escolar, um mistério incompreensível, inacessível, inútil, amaldiçoado e odiado até não poder mais. Responsável por broncas monumentais e um sentimento de fracasso que me dava vontade de sumir e reaparecer quando nunca mais na vida precisasse engolir goela abaixo as fórmulas, equações e cálculos – ficavam sempre entalados. Quando nunca mais tivesse que fazer uma maldita prova e tirar zero ou algum mísero valor próximo dele.

Como eu sumir era um projeto complexo demais, fiz com que ela sumisse, largando o finado segundo grau incompleto. Fora da escola e tendo que lidar com a vida prática, comecei a perceber que aquela porcaria fazia algum sentido e, mais inesperado ainda, que eu era muito boa de contas, tanto de cabeça quanto no papel. Realizar cálculos que meus colegas de trabalho nem tentavam passou a ser muito divertido e desafiador. Sim, eu mesma, para meu próprio espanto.

Aos poucos, foi me entrando uma pena por ter tido na escola uma abordagem tão burra, não só à matemática como às ciências exatas em geral, que me impediu de perceber, lá atrás, a beleza, a abstração e a poesia contidas no raciocínio lógico e as correlações profundas entre aquelas fórmulas torturantes e a vida cotidiana, em todas as áreas. Noves fora, ficou o vazio do ensino encarado e exercido sem qualquer compromisso com a sensibilidade. E não por culpa dos professores e professoras, mas da visão que predominava sobre as motivações e objetivos do ensino formal. Que, diga-se de passagem, se perpetua até hoje, com raras exceções.

Daí, me veio o Jorge Mautner, num show na semana passada, com um papo sobre haver evidências científicas de que os neurônios são pura emoção, e a matemática está cheia dela. Para completar, ontem, ouvi de uma amiga, já entrada na sétima década de uma vida toda dedicada ao humanismo e à arte: se eu fosse mais jovem, estudaria matemática. Bateu fundo.

Não que eu esteja pensando em escrever um poema em prosa sobre a equação de segundo grau ou o teorema de Pitágoras – meu fim de linha – mas que é fascinante ver a precisão e a lógica por trás de frases, melodias e versos, tanto quanto encontrar a poesia nos arcos das colunas dos edifícios da Praça dos Três Poderes, e no próprio traçado da praça, isso é mesmo. Fascinante e emocionante.

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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com
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