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Praia em Shirahama, Japão, feriado nacional Dia da Marinha. ASSOCIATED PRESS

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Baiano voador


por Fernando Evangelista*

A conversa era daquelas banais.

– Moto é um troço perigoso – ele disse.

– E divertido – acrescentei.

Estávamos no meu carro. Eu dirigia, cruzando as avenidas do centro da cidade, e o pai, no banco do carona, relembrava a mobilete que havia me dado muitos anos antes.

– Aquele presente foi uma irresponsabilidade.

Foi aí que aconteceu. Lembro-me do pai gritando:

– Cuidado!

Tarde demais. Uma moto, dessas populares, furou o sinal vermelho e atingiu nosso carro. Para-choque e capô serviram de catapulta para lançar o motoqueiro pelos ares. Só que ele, por susto ou por reflexo, provavelmente pelos dois, não largou o guidão da moto. E isso fez com que ambos, o homem e sua moto, saíssem voando unidos pela avenida – ele plantando bananeira no ar, um salto de Cirque du Solei.

– Jesus! – eu disse.

O motoqueiro desabou sobre o capô de outro veículo que vinha ao nosso lado, destruindo o para-brisa. O som do vidro quebrando me tirou do choque e eu murmurei, talvez tenha só pensado:

– Morreu.

Saí do carro e fui até o motoqueiro, estatelado no asfalto:

– Tudo bem?

Pergunta cretina, mas eu queria saber se o homem estava vivo. Juntou um mundaréu de curiosos. E já havia gente, com celular em punho, batendo foto dos dois carros, da moto e do motoqueiro.

– Tudo bem? - insisti.

Ele tirou o capacete, coisa que não se deve fazer em caso de acidente e, quase com um sorriso de alívio, respondeu:

– Tudo em paz, meu rei.

Não havia dúvida, o motoqueiro voador era baiano. Pareceu-me muito simpático, apesar da circunstância e do jeitão que ele ficou no asfalto, deitado de banda, assim meio de lado, com uma perna esticada e outra flexionada, como um corredor de maratona visto de perfil. Negro, 20 e poucos anos, o homem tinha um quê de Lázaro Ramos.

A partir daí aconteceram coisas que, suponho, sejam possíveis só no Brasil: Uma senhora, gordinha e disposta, queria levantar o motoqueiro pelos braços para reposicioná-lo porque “assim deve estar muito desconfortável”. Alguém explicou que isso não se pode fazer, é preciso chamar os socorristas. Uma estudante, com saia e coque de antigamente, entregou um santinho de são Judas Tadeu para o homem deitado no meio da rua:

 – Este é o santo das causas impossíveis – ela disse. Tenha fé.

Foi juntando mais gente. Apareceu um que esbravejou contra a prefeitura, que não sinaliza direito os cruzamentos, outro falou que a prefeitura não tinha culpa no cartório, a culpa era dos motoqueiros irresponsáveis, que só fazem “trapalhada no trânsito”.

Um homem, aparentemente embriagado, argumentou que isso só iria melhorar quando fossem todos presos – políticos e motoqueiros, opinião que causou divergência entre o público. O bêbado queria colocar uma vela ao lado baiano. Eu o impedi:

– Vela para quê? O homem tá vivo!

A polícia chegou antes da ambulância – três policiais, em três motos diferentes. Meu pai explicou o que aconteceu, com muitos detalhes e alguns floreios. Sempre achei isso impressionante: ele não consegue – seja contar a história de um acidente de trânsito ou descascar uma vergamota – sem altas voltagens de entusiasmo.

Só então veio a ambulância.

– Eles estão chegando! – gritou uma mulher no ouvido do motoqueiro, como se ele fosse surdo. – Fica tranquilo. Não precisa entrar em pânico – mais gritos no ouvido.

Acionei o serviço de um guincho porque o meu carro não pegava. Antes da ambulância partir, o baiano me chamou, pediu meu telefone e entregou o seu cartão. Nome: Rodnei da Silva Santos. Profissão: Acrobata. E em letras bem grandes, na parte de baixo e de cima do cartão, o nome do circo: Grand Circo di Vitória da Conquista.

Parecia piada. O motoqueiro voador é um baiano acrobata. Conversamos um pouco e nos despedimos como dois velhos conhecidos.

Quando o guincho chegou, já sem plateia, pai e eu recolhemos os objetos que estavam no meu carro. Entre papeis de bala e extratos de banco, achei discos do Caetano, do Gil e um dos primeiros do João Gilberto, um livro de crônicas do João Ubaldo Ribeiro e outro do Ricardo Sangiovani, um documentário, em DVD, sobre Glauber Rocha e, por último, um livro de memórias do meu tio Emanuel, irmão mais novo do meu pai.

Todos eles são baianos, com exceção do meu tio, que nasceu em Florianópolis, mas mora em Salvador e tem alma de baiano. O Glauber, para completar a coincidência – e isso só lembrei depois - nasceu em Vitória da Conquista, terra do motoqueiro voador.

Naquele instante, sem saber bem o motivo, fiquei feliz de conhecer a Bahia e de entender um pouquinho da sua grandeza.

 – Tudo bem? – perguntou-me o condutor do guincho.

Olhei para ele, sorri e respondi com aquela inconfundível musicalidade:

– Tudo em paz, meu rei.

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Fernando Evangelista, jornalista, mantém a coluna semanal Desacato

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Presidente


por Júnia Puglia   ilustração Fernando Vianna

 A Izilda era uma menina alegre, faladeira e debochada, agitava o recreio com suas tiradas engraçadas e comentários mordazes do tipo metralhadora giratória. O nome da santa criança, então muito popular no interior paulista, felizmente não a impedia de imitar os professores pra nos fazer rir e animar a torcida em qualquer jogo. Queria cursar administração e trabalhar na grande fábrica de meias que era o orgulho da cidade.

Estudamos juntas uns três anos, e daí cada uma tomou o seu rumo. Tempos depois, numa tarde nublada, eu a vi num ponto de ônibus, com a barriga enorme e a expressão de desamparo, os olhos opacos, dos quais desciam lágrimas teimosas, que ela secava com as mãos. Trazia uma aliança no anelar esquerdo. Ainda não tínhamos chegado aos dezessete anos. Não me aproximei, ela nem me olhou, nunca mais nos vimos.

Para matricular os filhos na escola, era preciso declarar a profissão do pai. A da mãe era automaticamente preenchida como "do lar", sem mais. Mas a nossa mãe era professora, precisávamos retificar sempre. A profissão feminina mais disseminada, depois de empregada doméstica, junto com enfermeira e cabeleireira. Tudo o que as mulheres faziam para "ajudar o marido", ou mesmo para sustentar os filhos sozinhas, era desimportante e entrava na conta da obrigação, na base do quebra-galho. Cresci cercada de mulheres que davam um duro danado, submetidas e desvalorizadas, sem perspectiva de crescimento pessoal ou carreira. Menos ainda em plena ditadura militar, quando qualquer comportamento ou aspiração fora da caixinha era um baita risco, você não faz ideia.

Aos seis anos, a Leila curte ler livros de bichos e aventuras, visitar os avós e primos na Espanha e brincar com a irmã menor. Leva uma vida boa, de ir à escola e ter tempo livre. Adoro ver seu jeito leve e solto de criança cujo futuro se fará a seu tempo, sem muita pressão e ansiedade, filha de pais que escolheram descomplicar. No aniversário em que nos encontramos, há poucos dias, sua mãe nos contou da recente conversa da Leila: quer ser presidente da república. E o que você vai fazer como presidente? Dar todo o dinheiro do governo aos pobres, reciclar o lixo e limpar o planeta. Acordes iniciais da promissora, tanto quanto imprevisível, sinfonia da Leila.

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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com

terça-feira, 28 de julho de 2015

A orquestra e o país

por Fernando Evangelista*

Meu nome é Wesley, com y, tenho 29 anos e trabalhava, até sexta-feira passada, numa ONG dedicada a ensinar música erudita para jovens da periferia. Tudo ia bem, como nas propagandas de margarina, até que um patrocinador faliu, outro morreu, veio a crise e eu acabei metendo o nariz onde não devia.  

A ONG, criada por um maestro e dois irmãos, começou pequena, oferecendo aulas gratuitas de piano e violino. Com apoio do município e de um patrocinador privado, além de doações ocasionais, ela cresceu, ampliou os cursos e formou uma orquestra

Eu não entendo nada de música, mas aquela orquestra era coisa fina. As apresentações, concorridíssimas, lotavam praças, teatros e ginásios. Dava gosto de ver. Ano retrasado, a orquestra ganhou um prêmio do Ministério da Cultura e apareceu numa reportagem em rede nacional. Foi um sucesso.

Minha função na ONG estava escrita numa placa de madeira sobre a mesa: telefonista. Eu mesmo comprei a placa numa feira de artesanato. Diariamente, recebia uma porção de telefonemas e atendia cada um com atenção e gentiliza. Modéstia à parte, sempre fui bom de papo. Tinha especial simpatia pela Dona Dalva, que ligava quase todos os dias, por volta das cinco da tarde, para falar de um gato siamês recém-adotado.   

Mas aí começou o drama: o patrocinador da orquestra faliu. E como notícia ruim nunca vem sozinha, o prefeito bateu as botas, abotoou o paletó, e assumiu o vice, que não gostava do maestro, nem de música, e decidiu cancelar o apoio. O dinheiro acabou. 

Convocou-se uma reunião de emergência. Foi chamado o Conselho consultivo, o Conselho deliberativo e Conselho financeiro, cada qual munido de calculadora, tabela e planilha. Na sala de ensaios, umas 30 pessoas espremidas e abatidas ouviram o maestro, que vinha a ser também o diretor e fundador da ONG, anunciar: 

– Ou encontramos uma saída ou teremos que fechar. 

Aquele homem, sempre tão otimista, parecia a sinfonia da desesperança. O vice-diretor também estava arrasado. O maestro passou a palavra ao grupo. Ninguém falou nada. Então, meio sem pensar, levantei timidamente o braço, o coração deu aquela disparada, devo ter ficado vermelho.  

– Fale, Wesley – autorizou o maestro. 

Confesso que sou atropelado pela vaidade quando ouço o meu nome dito assim, com certa formalidade. Cá entre nós, é um nome de presença. Wesley, com y. Um dia vou ser deputado. 

– Por que não vendemos alguns instrumentos? – sugeri.  

As pessoas me olharam de um jeito estranho. Não gosto que me olhem assim. Alguém perguntou há quanto tempo eu trabalhava como telefonista. Respondi. 

Os representantes do Conselho consultivo, do Conselho deliberativo e Conselho financeiro, canetas suspensas sobre as folhas rabiscadas de cálculos e dívidas, não disseram nada. Quem disse foi o maestro. 

– Pode ser uma saída. 

E assim foi feito. Primeiro foram vendidos os carrilhões, xilofones, vibrafones, marimbas, pratos, triângulos e castanholas. Quando os alunos de percussão chegaram à escola, deram de cara com o recado pregado na porta de entrada. Foi de cortar o coração.   

Era, porém, por uma boa causa. Como se diz por aí, é “melhor perder alguns anéis do que perder o dedo”. Entrou dinheiro, as coisas estavam saindo como planejado. “Boa, Wesley”, disse para mim mesmo, orgulhoso. Um dia vou ser deputado. 

A alegria durou pouco. Logo se constatou que o valor arrecadado era insuficiente. Aí foi a vez de vender as flautas, clarinetes, saxofones, oboés, trompas, trombones e trompetes. Os alunos de sopro se surpreenderam com o aviso pregado na porta de entrada. Outra comoção. 

Alguns dias depois, os Conselhos administrativo, deliberativo e financeiro constataram que a conta ainda não fechava. E, por unanimidade, decidiu-se seguir com as vendas. E lá se foram os violinos, violas, violoncelos, contrabaixos e o piano de cauda. Falei para um dos alunos, o mais abatido de todos, aquele ditado dos anéis e dos dedos. Ele me mandou à merda.  

Outra vez reunidos, os Conselhos decidiram seguir com as vendas. Mas vender o quê? 

Já não havia mais nenhum instrumento para vender. 

Vou dizer uma coisa: orquestra sem instrumento é um troço feio pra burro, feio e triste como um rio seco. Parece cemitério abandonado. Ouvi uma voz interna me dizendo: “Culpa tua, Wesley, culpa tua”. Eu nunca vou ser deputado. 

Para tristeza geral, nessa última sexta-feira, 24 de julho de 2015, a ONG fechou as portas definitivamente. Quando eu estava saindo, depois de limpar minha mesa e guardar na mochila a plaquinha de madeira, ouvi o telefone tocar. Fiquei na dúvida, não sabia se atendia ou não. Atendi porque achei que fosse dona Dalva. Era engano.   

Cheguei em casa, liguei a televisão e vi o ministro da Economia, acompanhado de uma trupe de assessores - munidos de calculadoras, tabelas e planilhas -, explicando as razões do novo pacote econômico. Ele falou termos esquisitos como “austeridade” e “governabilidade”. E, coincidência estranha, falou também sobre perder alguns anéis para não perder os dedos. 

Apesar de eu não entender nada de economia, nem de anéis, a lógica da autoridade me pareceu semelhante à minha ideia infeliz de vender os instrumentos para salvar a orquestra. 

Pensei em escrever uma carta para o ministro, contando esta história. Mas acho que o ministro não tem tempo para ler essas coisas – ele está ocupado, com suas planilhas, calculadoras e tabelas, salvando o país

Tomara que consiga.

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Fernando Evangelista, jornalista, mantém a coluna semanal Desacato

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Calendário

por Júnia Puglia   ilustração Fernando Vianna*

Em algum momento do passado remoto, nossos ancestrais começaram a juntar observações sobre mudanças na vegetação, chuvas, temperatura e comportamento dos outros animais com a repetição periódica dos eventos, e concluíram que vivíamos sob o efeito de um fenômeno chamado tempo. Depois inventaram o calendário, tornando possível programar a vida de acordo com os humores sazonais, semeaduras e colheitas. Mais recentemente, com o imposto de renda, a fatura do cartão de crédito e os aniversários. Dependendo do temperamento e da rotina individuais, um ano da nossa vida moderna pode transbordar de celebrações as mais variadas, religiosas, cívicas, sociais, familiares e pessoais.

A memória me traz um dos grandes romances da minha adolescência, “O tempo e o vento”, do gaúcho Érico Veríssimo, uma caudalosa saga dos começos do Rio Grande do Sul. Li os sete volumes de enfiada, como se perseguisse um seriado sobre as aventuras dos Terra-Cambará. Logo nas primeiras páginas, Ana Terra, moradora, com os pais e dois irmãos, de um campo perdido na conturbada fronteira das colônias disputadas por Espanha e Portugal, expressava seu profundo tédio pela rotina de trabalho incessante e isolamento, tal que não lhe permitia acompanhar a sequência dos dias da semana – que, afinal, não fazia nenhuma diferença, pois eram sempre iguais – ou saber exatamente em que ano estavam. Para a inquieta e curiosa leitora, ávida por finalmente completar os benditos dezoito anos, que nunca chegavam, uma inimaginável desconexão.

Fazemos com o tempo todo tipo de associações: “não lembro o ano, mas foi quando viajei de avião pela primeira vez”, ou “vi esse filme na época do impeachment do Collor”, ou ainda “quando isto aconteceu, eu estava grávida da segunda filha”. Isto porque, no fim das contas, o tempo fica marcado dentro da gente, os números são apenas uma referência, à qual nos ensinaram a dar demasiada importância.

E as datas comemorativas? Dá de um tudo, especialmente depois que a internet nos colocou nessas redes sociais. Com a minha enorme preguiça de celebrações obrigatórias, passo batida por todas elas. Até para aniversários me falta competência, o que às vezes me coloca numas tremendas saias justas.

Um dia desses, avisaram que era Dia do Amigo. Quem precisa dele? O encontro, a afinidade, a empatia, o prazer do contato e da companhia, a história compartilhada, o silêncio cúmplice, a conversa – fiada ou relevante – quando tudo isso se junta, com a assessoria de uma taça de vinho autorreabastecida, o tal Dia acontece. Beijinho no ombro pro calendário.

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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Matem o comunista

Passados os 50 anos do golpe militar a coluna 1964+50 segue firme em 2015, mas agora com novo título: VIVOS. Afinal, mortos e desaparecidos estão vivos na nossa memória e na nossa história.



por Fernanda Pompeu    ilustração Fernando Carvall

Hiram de Lima Pereira
Nascimento: 3 de outubro de 1913
Cidade natal: Caicó - RNbr
Desaparecido: 15 de janeiro de 1975
Cidade final: São Paulo - SP

Quem botou as mãos nele foi o pessoal da Casa da Vovó, apelido que os agentes de repressão davam ao Doi-Codi de São Paulo. O sequestro de Hiram de Lima Pereira fazia parte do plano de dizimar os dirigentes do PCB - Partido Comunista Brasileiro. Seu currículo político era impressionante: deputado federal pelo Rio Grande do Norte. Redator, em Recife, do Folha do Povo, jornal oficial do Partidão. Secretário de Administração na prefeitura de Miguel Arraes.

Com o Golpe de 1964, Hiram entrou na clandestinidade. Seguiu comunista, seguiu atuando. Como todo o PCB, nunca pegou em armas contra a ditadura militar. Acreditava no trabalho com as massas. Segundo Célia Pereira, companheira de Hiram, o marido estava fragilizado, quase cego por conta de catarata e glaucoma. Também sofria de problemas cardíacos. Os torturadores da Casa da Vovó levaram Hiram para o centro clandestino de tortura e morte em Itapevi. Depois, ninguém sabe, ninguém viu.

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Fernanda Pompeu é a mulher do texto
Fernando Carvall é o homem da arte
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