PEGADAS: trabalhador descansa em carvoaria nos arredores de Jammu, Índia. (Mukesh Gupta / Reuters)

terça-feira, 30 de agosto de 2011

A arte do diálogo

Nunca se falou tanto. Fala-se pelas redes sociais, skype, satélite, interfone, telefone e até pessoalmente. Entretanto, nunca se ouviu tão pouco. As pessoas parecem dominadas por uma fúria opinativa – todos têm opinião formada sobre tudo - e, ao mesmo tempo, vão rareando os ouvintes.

Ouvir pressupõe curiosidade pelo outro. Ouvir é uma forma de generosidade. Não há tempo para generosidade. Nem para o silêncio.

O grande castigo disso é a solidão. Está completamente só quem não sabe ouvir o outro. Se alguns idosos vão perdendo a capacidade da audição, devido a limitações biológicas decorrentes da idade, muitos jovens dão a sensação de que nunca a possuíram.

Quem não ouve o outro, no fundo, também não o vê. É atento exclusivamente à sua própria voz e se a voz do outro não for bajulatória, torna-se incômoda ou desinteressante. E assim perde-se a capacidade do diálogo.

A tevê, no fundo, é um mecanismo para camuflar essa incapacidade. Não por acaso, fazem tanto sucesso esses bares com o som alto, bandas estridentes e tevês de plasma grudadas nas paredes.

Mesmo se os clientes quisessem, seria impossível uma conversa. Num bar barulhento, cada frase é um pensamento acabado: “é bonito aqui”, “bacana essa banda”, “o garçom parece surdo”, “boa essa cerveja”, “bacana essa mesa de frios”, “pede a conta”. Nada muito diferente das nossas famílias, com tevês na sala, no quarto, na cozinha e até no banheiro.

A Paris dos anos 1920, disse Hemingway, era uma festa móvel. O Brasil atual é uma espécie de bar móvel, sem festa. Os motivos desse grande monólogo coletivo são vários e um deles é a cultura autoritária, entranhada na vida pública e privada do brasileiro.

O autoritário não escuta, não é adepto da reflexão e, por consequência, não alimenta dúvidas. Ele ama falar, mas parece incapaz de ouvir, ama mandar, mas não gosta de aprender. O autoritário não erra, quem erra são os outros.

Outro motivo é que vivemos na sociedade do resultado, que exige precisão e velocidade. Não se pode perder tempo e o silêncio, este senhor inconveniente, necessário em qualquer diálogo, é uma pausa. Não há tempo para pausas.

O surpreendente é que os autoritários e a sociedade do resultado ganharam um álibi científico com a pesquisa realizada pelos franceses Hugo Mercier, doutor em ciências cognitivas, e Dan Sperber, cientista social.

De acordo com o estudo, denominado de teoria argumentativa do raciocínio, o ser humano desenvolveu a razão com objetivo bem específico: triunfar nos debates, convencer o seu semelhante, persuadi-lo, vencê-lo pela retórica.

Isso é uma tremenda reviravolta na ciência. A pesquisa mereceu, entre outras, uma edição inteira do Journal of Behavioral and Brain Sciences, da universidade de Cambridge

Desde os gregos, passando por Descartes, como assinalou Hélio Schwartsman, na Folha de S. Paulo, em 25 de junho passado, acreditava-se que aperfeiçoamos a racionalidade como instrumento para aumentar nossos conhecimentos, para nos aproximar da verdade e, com isso, tomarmos as melhores decisões. Pois não é bem assim.

Se Mercier e Sperber estiverem corretos, publicitários, advogados, políticos e pastores estariam no topo da cadeia evolutiva. “Penso, logo existo”, deverá ser substituído pelo “Penso, logo convenço”. Se você já foi acusado de irredutível e cabeça-dura, orgulhe-se. Essa característica, vista sob a luz dessa teoria, é o fruto mais evidente da evolução da espécie.

De qualquer maneira, independentemente da validade da tese dos franceses, o problema persiste porque, para convencer uma pessoa, é preciso que ela esteja disposta a ouvir. Eu, modestamente, continuo acreditando que poderíamos fazer coisa melhor com a nossa razão, nossas opiniões e nossos ouvidos.

Nem todo silêncio é inocente, claro, mas um monólogo coletivo é quase sempre culpado. Se o silêncio for imposto, é censura, mas se for por opção, ele pode até ser libertador.

Num país onde o grito é a regra e a indiferença uma postura dos fortes, um ato de silêncio é uma forma de rebeldia. E um simples diálogo, quem diria, pode ser uma prova de amor.

Fernando Evangelista é jornalista, diretor da Doc Dois Filmes e colaborador do Portal Desacato. Mantém a coluna Revoltas Cotidianas, publicada toda terça-feira

15 Comentários:

Hans Denis disse...

Excelente texto Fernando, me levou a pensar a questão da interpretação…
Com a retórica cada vez mais afinada na arte de persuadir, com sutileza e objetividade, penso na perda da capacidade de interpretação por parte de quem é persuadido. Conversas fáceis já são o ópio da sociedade do espetáculo, fazer esforço para interpretar significados complexos já é démodé.

Abraços

Jetro disse...

Como sempre, muitos bons textos aqui no nota de roda pé, Parabéns!!!

Lyana de Miranda disse...

Nada de informação ou conhecimento, vivemos mesmo é na Era das Opiniões. Metemos o bedelho em tudo, nem que seja só um joinha. Semicultos?! É, acho que o velho Adorno tinha razão... Mas com textos como este, sinto que damos uns passinhos no caminho da reflexão. Adorei! Bjs e saudades!

Fernando Evangelista disse...

Caro Hans, concordo contigo. abração

Fernando Evangelista disse...

Jetro,
Muito obrigado! forte abraço

Fernando Evangelista disse...

Lyana,
Obrigado... Saudade das nossas aulas. Quero ler os teus textos! um beijo

Victor Moriyama disse...

òtimo texto Fernando, um dos melhores que li nas últimas semanas. A sabedoria indígena nos ensina a arte da escuta. A importância cultuada ao pajé, que em suas reuniões com os demais integrantes da tribo, é atribuída a sua transmissão de conhecimentos e ensinamentos. Ouvir é aprender, simples como o fazem os animais no meio da selva ao tentarem perceber a presença de um predador através do som. Creio que nos encontramos no epicentro de um enorme problema, a TV se tornou nosso pajé.

Fernando Evangelista disse...

É verdade, Victor. Eduardo Galeano fala muito sobre essa capacidade dos povos indígenas em saber ouvir. Nós perdemos essa capacidade, eu acho.Muito obrigado pela leitura. Ler é uma forma de generosidade também.

Diogo Ruic disse...

parabéns, muito bom mesmo.

somos de fato instruidos a convencer, não a ouvir.

MMMarcelo disse...

Arrebatadora e oportuna, Fernando. Continue assim, “escrevendo imagens” ou “desenhando textos” com as cenas do cotidiano. Essa crônica merecia um chopp para comemorar, e num local com possibilidades de boas conversas.

engarq.caixa disse...

Ótima reflexão amigo Fernando.
Neste "barulho ensurdecedor" dos meios de comunicação incluindo aí as redes sociais, reflexões desta qualidade parecem ser Oásis em que descansamos para prosseguir a caminhada.
Ao ler o texto lembrei do belíssimo filme: "O Som do Coração" em que o pequeno August Rush faz dos sons cotidianos música para seus ouvidos. Abraço. Continue escrevendo desta forma maravilhosa para que possamos perceber, e "ouvir" o que nos passa tão despercebido. Eduardo Cavalet. - Chapeco-SC.

Fernando Evangelista disse...

Marcelo, muito obrigado!
O que achas de colaborar, com os teus desenhos, com o Nota de Rodapé? Tenho certeza de que o Thiago Domenici, criador e editor do NR, vai curtir a ideia. Pensa com carinho no assunto.

Fernando Evangelista disse...

Obrigadão, Diogo. Valeu!

Fernando Evangelista disse...

Grande Eduardo, caro amigo e companheiro de viagem...
Obrigado pela leitura. Ótima lembrança do filme O Som do Coração. Outra coisa: Faz 14 anos da nossa viagem pra Cuba... passou muito rápido, não?

Thiago Gouvêa disse...

E cá está esse sujeito, Fernando Evangelista, expandindo sua influência pela via da argumentação.
A palavra é instrumento de poder, ouvir é uma forma de generosidade, e a evolução do altruísmo é um mistério.

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