Nós nos conhecemos num parque de diversões, na sala dos espelhos. Sem precisar dizer muito, sem apresentações formais, entendi que estava diante de uma possibilidade de amor.
Vivemos juntos e fomos felizes em alguns momentos, mas o convívio prolongado ofuscou o olhar e a capacidade de discernimento. Foi, porém, uma experiência suficiente para conhecê-la na intimidade, sem maquiagem, o que me torna apto a compartilhar com você como ela é.
Por favor, não pense que estou despeitado ou que este relato, coletânea de lugares-comuns, seja uma espécie de vingança. É apenas e sinceramente um desejo de entendimento. Você está me ouvindo?
Seu nome, talvez você a conheça, é Classe Média.
A Classe Média é loira. Faz dieta, apesar de magra, considera-se requintada, apesar de cuspir no prato em que comeu. Está sempre na moda e, quando encontra uma amiga, tem a impressão de estar olhando um espelho e isso lhe faz um bem danado. A Classe Média odeia quem é diferente. A Classe Média, ainda que se considere amante do individualismo, compra o que a moda lhe manda, sorri para quem não quer, anda com quem não gosta e frequenta os lugares do momento – mesmo que no momento o local esteja lotado, a comida ruim e a cerveja quente.
A Classe Média, e que isso fique entre nós, é sexualmente fria. Talvez por causa da educação religiosa, talvez por ser refém das opiniões alheias, ela é incapaz de entender seus próprios sentimentos e desejos. Ela gosta daquilo que outros disseram para ela gostar.
A Classe Média é adestrada a compensar o vazio existencial nos shoppings, onde se sente bem e relaxada. Comprar roupas e sapatos é o ópio da Classe Média, por isso vive pendurada no cheque especial. Isso a angustia, mas não muito, porque ela acredita que, cedo ou tarde, por bem ou por mal, ela vai “chegar lá”, ela vai vencer.
A Classe Média julga as pessoas pela aparência e pelo bolso, e julga as coisas pela marca e pelo preço. Não só. Para ela, não basta ser rico, é preciso aparecer na coluna social. O verdadeiro vencedor é aquele que ostenta aquilo que tem.
A Classe Média não é preconceituosa, pelo menos em público, tanto que se questionada sobre a possibilidade de ter um filho gay, diz simplesmente: “cada um sabe de si”. Mas bem no íntimo, sozinha no quarto escuro, é provável que ela murmure, fazendo um rápido sinal da cruz: “Deus me livre”. Se você a conhece, sabe que isso é possível. Tudo é possível, como observou Machado de Assis.
A Classe Média se acha muito descolada e vivida, mas cai sempre nas mesmas cantadas e mentiras deslavadas. Ok, ok, estou sendo cruel. Serei um pouco mais complacente: a Classe Média, tão loira, não é racista, por isso é exclusivamente por “precaução” que, ao perceber um negro andando em sua direção na rua, aperta a bolsa, apressa o passo e muda de calçada.
A Classe Média se considera muito informada. Apesar de não gostar de ler, assina a revista Veja, e mesmo não sabendo ouvir, acompanha as análises econômicas na CBN. Aliás, e isso eu só notei com o passar dos anos, a Classe Média tem opinião formada sobre todo e qualquer assunto e se alguém tiver a má lembrança de contrariá-la, o ato pode ser entendido como agressão pessoal. Ela aceita tudo, menos agressão pessoal.
A Classe Média não gosta de perguntas. Ela só tem certezas. Ela não nutre qualquer tipo de dúvida sobre a humanidade porque, para ela, como também para a Veja e para alguns analistas econômicos, a humanidade não existe.
A Classe Média é aventureira. Da mesma maneira que os muçulmanos devem ir pelo menos uma vez na vida a Meca, a Classe Média pretende ir pelo menos uma vez a Miami. Depois da viagem inaugural, ela irá para a Europa com a CVC, uma espécie de Casas Bahia do turismo. Orgulhosa da disposição, conhecerá 60 cidades em 15 dias.
A Classe Média, principalmente quando volta dessas viagens, depois de bater mil fotografias de mil coisas que viu sem ver e de comprar ímã para as amigas distantes e bolsas falsificadas para as amigas íntimas, é invadida por uma fúria bíblica contra tudo o que é nacional. Como se estivesse num palanque, ela discursa sobre a nossa falta de cultura, de história e de talento, a não ser para o futebol e para a corrupção. A Classe Média, dentro do seu carro zero quilômetro, comprado em 72 parcelas, vocifera contra a corrupção. Porém, bebe antes de dirigir, suborna policiais para evitar a multa, não respeita vaga para pessoas com deficiência e fura a fila na hora do rush. E, sim, mete o pau nos políticos de Brasília, mas continua votando no vereador que é seu conhecido, mesmo que o sujeito seja um reconhecido picareta.
A Classe Média é carente. Sociólogos, cineastas, dramaturgos e escritores têm fascinação pela pobreza e pela riqueza, mas não pelos remediados e a Classe Média se ressente pelo esquecimento. Por isso, para chamar a atenção, vez ou outra ela bate em algum artista. Dias desses, resolveu falar mal do Chico Buarque.
A Classe Média gosta do Chico e gosta sinceramente, mas não o perdoa por suas posições políticas, principalmente quando defende os movimentos sociais. Porque, para a Classe Média, movimento social é o que existe de mais perigoso, retrógado e violento no Brasil. Você está me ouvindo?
A Classe Média, apesar de tudo, considera-se legalista. Não admite a transgressão de algumas normas, mesmo que as normas sejam injustas. Socialmente, sua consciência é limpa e tranquila, ela faz sua parte – doa roupas velhas à empregada mal paga.
A Classe Média, se ouvir esta conversa, não vai entendê-la. O chapéu só serve se estiver na moda, e uma história desse tipo, é preciso reconhecer, não está. Como recomendou Ruy Castro, vou seguir o meu caminho, “flanando pelas ruas e chutando as minhas tampinhas”, sem pensar no dia em que a conheci naquele infeliz parque de diversão. O tempo anestesia tudo, inclusive a saudade.
Fernando Evangelista é jornalista. Mantém a coluna Revoltas Cotidianas, publicada toda terça-feira.

11 Comentários:
Justo agora que eu ia te convidar para irmos comprar coisinhas em Miami. Você deve ter é inveja de nós só porque não tens uma TV LED e nem um carro mil completo.
Genial a percepção desse amor, até lembrou de puxar um pouco mais a vara que segura a cenoura. Ela com certeza adorou. Valeu
Gui,
Eu tenho um carro mil, mas não é completo.(rsrsrs)
Se pagares a viagem, eu aceito o convite com todo o prazer. E ainda compro um Iphone.
abração
Obrigado pela leitura, Nelson.
Grande abraço
Querido Fernando,
Sinto que esse amor tenha sido tão frustante!
Tenho convivido há anos com ela e admito ser insuportável alguns de seus comportamentos, porém acho que podemos admitir que essa moça tão loira e aparentemente frígida, também apresenta outras facetas calientes. Tem traquejo para estar naqueles tais movimentos sociais, trabalha que nem burro de carga pra poder fazer música à noite pra se divertir e divertir os amigos, procura deixar um mundo mais agradável pros que virão...Enfim, sei que esses são pequeninos detalhes, mas não me cabe agora discorrer sobre tantos outros. Dê uma olhadinha pro lado e vais encontrá-la em lugares bem melhores que num shopping center. Dá uma chance pra ela, vai!
Lindo texto! Abraço forte...
Acho que se essa moça, tão linda, nao fosse, ou não se achasse tão autosuficiente, lembrariam mais dela nas colunas sociais, literatura e nas músicas. Têm mesmo que se preocupar com ricos deprimidos e pobres desvairados.
Adorei a leitura, professor! Abraço.
Fernando não liga não. Na verdade essa moça não tem classe nenhuma!
Ana Teresa,
Tens razão. Vi só um lado, não gostei e desisti. Na verdade, ela desistiu de mim. Mas vou desvendar a outra face porque pode ser interessante. Pode ser traumático também, mas vale a pena o risco. Depois te digo alguma coisa.
Jaqueline, querida e talentosa colega,
É um ciclo vicioso. Quanto mais esquecida, mais coisas ela faz para chamar atenção e mais desinteressante ela se torna. Mas vou parar de falar essas coisas porque vão achar que estou despeitado. E estou mesmo...
Obrigado pela leitura!
Caríssimo Lúcio,
É verdade. É difícil dizer o que ela é e o que ela (não) tem. Classe, aprendi nos livros do Barbudo Esquecido, é outra coisa. Classe não se aprende, mas também não é destino. Se for destino, pode ser mudado. Porém, depois de tudo, sei que não posso mudá-la. É impossível... Mas deixa ela pra lá, esse assunto tá ficado muito confuso... eu estou ficando confuso... Vamos falar de música...
O que essa loira precisa é de um bom chá de cogumelo.
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