PEGADAS: trabalhador descansa em carvoaria nos arredores de Jammu, Índia. (Mukesh Gupta / Reuters)

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Dia dos pais

Prepare-se: domingo é dia dos pais. Durante toda esta semana você será bombardeado com propagandas de cuecas, canetas, camionetes, furadeiras e espetos de churrasco.

Não importa se você tem ou não tem pai, se você é o próprio, se você não gosta de datas comemorativas, não há saída porque esses anúncios não faltam.

Não faltam também propagandas de bebidas alcoólicas, com mensagens estranhas e enigmáticas. Uma delas, em tom solene, adverte: “Este vinho é exclusivo para heróis, heróis como o seu pai”.

Francisco Xavier Medeiros Vieira fotografado,
em 2008, pelo autor da crônica.
Não sei se isso funciona, não entendo de vinho e menos ainda de publicidade, mas considero arriscada a estratégia de venda. Além de excludente, ela abre polêmicas familiares perigosas. Afinal, o que é ser herói?

Quase todo filho nutre admiração pelo pai, apesar dos defeitos, dos silêncios recíprocos, dos diálogos interrompidos, do tempo não dispensado. Quase todo pai é o melhor do mundo, apesar de não o ser.

Isso não responde se você pode – obviamente supondo que seu velho ainda esteja neste mundo – comprar aquele vinho, exclusivo para heróis. Não sei de você, mas, para mim, herói é aquele que faz coisas incomuns, coisas boas que a grande maioria das pessoas não sabe ou não está disposta a fazer.

Nos dias de hoje, portanto, herói é ser sincero e generoso com os outros e consigo mesmo. É saber ouvir e ouvir sem julgar, respeitando as diferenças. É escolher o caminho que considera justo, mesmo que seja o mais longo e o mais espinhoso. É reconhecer quando se erra e rir dos próprios erros.

Ser herói é não perder o equilíbrio, apesar do chão escorregadio, das pressões e do barulho ao redor. É perceber que numa música pode estar escondido todo o mistério, por saber que o mistério se revela em qualquer lugar. É cultivar a simplicidade, apesar de algumas glórias e conquistas, por saber que glórias e conquistas são passageiras.

Ser herói é dividir tudo o que se tem e, muitas vezes, o que falta. É ter a porta da casa aberta para quem precisa e para quem não precisa, para os amigos e até para os desafetos. É não guardar ódios e saber conviver com as tristezas. É fazer o que se diz e dizer sem gritar porque todos o escutam e o respeitam.

Ser herói é permanecer menino, com o olhar curioso, encantado com a vida que sabe ser imprevisível, por isso fascinante. Ser herói é manter intacta a ternura, apesar dos pesares.

Sob esse aspecto, preciso confessar, meu pai – Francisco Xavier Medeiros Vieira – é um herói. Um herói de carne e osso, com alguns defeitos e sem poderes mágicos, mas um herói de verdade. Desapegado das coisas materiais e desses elogios virtuais, ele vai achar graça da crônica, mas vai aceitar o vinho.

Fernando Evangelista é jornalista. Mantém a coluna Revoltas Cotidianas, publicada toda terça-feira

10 Comentários:

Eduardo Luchini Vieira disse...

Grande Fernando!!!

Querido primo, senti (como Pai) e percebi (tentando sentir o que outros Pais sentiram, como meu velho Antonio) que o que disseste é o real mesmo!
Os Pais são nossos heróis efetivamente pelo fato de serem simples, sem serem "mega", "hiper" ou qualquer outro superlativo!
Os Pais são o veículo de conversas gostosas, broncas justas, chatices desnecessárias, sorrisos amáveis, caras fechadas, companheirismo desmedido, desatenção importante, altos e baixos, acertos e erros...
Não somos heróis no sentido da palavra mágica e que "tudo pode", mas o somos pelo simples "ser", em detrimento do "ter"...

Grande abraço e parabéns, mais uma vez, pelo lindo texto!

Do primo que te admira e respeita,

Eduardo Luchini Vieira (Duda)

Marcos TOTÔ disse...

Grande primo Fernando, texto the best!!! abraços

Fernando Evangelista disse...

Querido Eduardo,
Teu comentário rende uma belíssima crônica. Muito obrigado pela leitura.
Também te admiro muito.

Fernando Evangelista disse...

Caro Marcos Antônio,
Quem te conhece sabe que és um herói. Obrigado por divulgar o texto no facebook. Abração

mbeag disse...

Parabéns, novamente, Fernando. Estão ficando redundantes minhas mensagens, mas tuas crônicas superam-se uma após outra. É um privilégio contar com um pai como o teu, assim como o meu, a quem devoto todo meu carinho e amor. Felizes daqueles que têm um pai amoroso e presente como os nossos...Beijos, e novamente, te cumprimento pela bela crônica.
De tua prima,
Bea

Diego Wendhausen Passos disse...

Muito legal o texto Fernando. Publicarei em meu blog no próximo domingo. Para meu pai, então, um texto bem propício, falando inclusive em vinhos, que ele tanto aprecia.

Abraços

MMMarcelo disse...

Sorte minha ler a sua crônica hoje, sábado - véspera, o que não evitou de meus olhos umidecerem.

Fernando Evangelista disse...

Bea, Diego e Marcelo,
Muito obrigado, de coração.
Um grande abraço

carla disse...

Fer,
conseguiste traduzir, mais uma vez, o que o pai realmente é. E nós que temos a graça de conviver com ele, sabemos que ele é assim mesmo: sem faz de conta, sem aparentar o que não é....com uma bondade que não impõe condições, e que não se submete, sem juizo e julgamento, com a fé que enfrenta tudo.... Lindo texto, sem nenhum retoque.
BEIJO,
Carla

Fernando Evangelista disse...

Carla,
Que lindo o teu comentário!
Muito obrigado...
beijo

Postar um comentário

Ofensas e não identificação (anônimos) com nome, ao menos, serão excluídos. O espaço é para o debate de ideias. Obrigado.

Web Analytics