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Minha primeira reação foi de total incredulidade. Essas coisas acontecem, eu sei, mas a gente nunca espera ver alguém próximo sendo perseguido e preso em pleno horário nobre. Logo o Luizinho, tão bem resolvido, tão cheio de si.
Ele tinha um bom casamento, um trabalho decente – era dono de uma lavanderia – e cultivava bons amigos. Católico fervoroso, defensor da Infalibilidade Papal, não perdia missas nem procissões. Havia construído, até aquele dia, a imagem de um “sujeito correto”, como se costuma dizer de quem não deve nada a ninguém.
Seus amigos de infância, porém, sabiam de um pequeno desejo não realizado, de uma funda e antiga paixão que não vingou: as artes plásticas. “Eu amo a arte, amo de verdade, e serei um grande artista”, ele dizia quando adolescente, entre uma vergamota e outra, nos intervalos das aulas no colégio.
Mistério não resolvido
O início do buchicho, e que acabaria levando-o à cadeia, aconteceu numa manhã de outono, muitos anos atrás. “Luizinho, meu amor, veja só, sua barriga está amarelada”, comentou a esposa. Ele não deu importância. Os dias se passaram e o amarelado permaneceu, sem maiores incômodos. A mancha, entretanto, foi se espalhando pelos ombros e pescoço.
As mãos e os pés ficaram azulados, braços e pernas ganharam tons de lilás e o rosto era só vermelhidão. Aquele rosto dava uma impressão ruim dos diabos, parecia rosto de cachaceiro.
Procurou a carteira do convênio de saúde, ligou para o médico, falou com a secretária, disse que era urgente, ela respondeu que compreendia, “sim, sim, mas infelizmente horário só para daqui a cinco meses, mas... deixa eu dar uma olhadinha, se for sem convênio, deixa eu ver... temos horário para amanhã. O valor da consulta é 500 reais”.
O médico pediu uma série de exames e todos, sem exceção, indicavam uma saúde perfeita. Foi a outros médicos e ninguém tinha uma resposta, ninguém sabia a causa daquele mal. Exceto sua conta bancária, seus nervos e seu corpo dominado pelas cores, tudo permanecia na mesma.
Velho Bruxo
Então, ao tocar o fundo mais fundo do desespero, marcou uma consulta com um curandeiro, homem misterioso, meio bruxo, considerado santo pelos desajustados da cidade. À primeira vista, duas coisas chamaram a atenção de Luizinho: uma placa, pendurada na porta de entrada do consultório com os dizeres “Deus se manifesta nas tentativas, as tentativas salvam”, e o próprio curandeiro, um ancião com cara de índio, uma mistura de Raoni com Juruna.
Depois de uma longa explanação sobre o cosmos, sem nenhuma lógica ou propósito aparente, o curandeiro pediu a Luizinho um exame da alma.
– Desculpe, não entendi. Exame do quê?
– Da alma.
Ainda que ilógico, aquilo lhe deu algum ânimo. Talvez fosse mesmo algum problema na alma. Fizeram o exame ali, na hora, com base na urina, no suor e nas lágrimas. O mais difícil foi coletar as lágrimas. “Três gotas bastam”, disse o velho.
Dois assistentes do curandeiro colocaram o líquido numa garrafa pet, meteram lá dentro algumas ervas e outros líquidos suspeitos e esperaram por vários minutos. Retiraram uma mostra com um canudo e despejaram sobre uma folha seca de eucalipto. O velho observou a folha e então se dirigiu a Luizinho:
– Exatamente como eu desconfiava – ele disse. – Seu problema é mesmo na alma. Sua alma está cheia de tinta.
– Tinta? Tinta de onde? Faz anos que não pinto nada, nem parede.
– Por isso mesmo, meu filho – explicou o velho. – Quando bem jovem, você pintava e desenhava sempre, por gosto e porque lhe dava tranquilidade de espírito. Era uma necessidade, mas com o tempo você foi a deixando de lado, até silenciá-la por completo.
Luizinho nada contara para o velho sobre sua paixão por pintura. Como ele poderia saber dessas coisas?
– Você deixou tudo aí dentro, não colocou pra fora – continuou o velho. Você teve saturação de cores, como se fosse uma apendicite não tratada. Pra falar claramente, ocorreu uma explosão de talento não usado, de desejo reprimido, de criatividade abafada.
– Tem cura?
– Infelizmente não, meu filho. Sua alma está necrosada.
– Não é possível que não exista cura – exasperou-se Luizinho. – Vim aqui para achar a minha cura, vim porque disseram que o senhor é santo. Eu quero um milagre, porra!
– Da mesma forma que nem todo curandeiro é santo, nem todo santo faz milagre – disse o velho, calmamente.
Dia de fúria
Luizinho saiu da consulta fingindo resignação, cabeça baixa e passos lentos. Mas naquele mesmo dia, ele comprou um revólver 38 de um traficante chinês, invadiu uma Igreja, fez o sacerdote e os fiéis de reféns e mandou todo mundo tirar a roupa. “Todo mundo pelado”, ele berrava, “inclusive vocês aí”, referindo-se ao sacristão e ao coroinha escondidos sob o altar.
De acordo com a versão da polícia, ele queria descobrir se mais algum fiel sofria disso que os jornais passaram a chamar de “Mal das Cores” ou se estava sozinho naquela desgraça de doença. Na verdade, e isso me parece claro agora, ele foi a Igreja para cobrar uma indenização, para se vingar, porque estava puto da vida. Tinha deixado sua alma aos cuidados do Sagrado Mistério e agora se encontrava ferrado. Era muito injusto.
Luizinho foi preso enquanto fugia a pé, literalmente aos trancos e barrancos, pelas ruas e atalhos da cidade, como nos filmes americanos. Foi nesse momento que o amigo em comum me telefonou, avisando da confusão. Liguei a tevê a tempo de vê-lo sendo capturado pelos policiais, ao vivo e em cores. Ele estava vestido de padre.
O julgamento, quase três anos depois, não ganhou destaque na mídia. Considerado mentalmente incapaz, Luizinho foi mandado para um hospício. Fui visitá-lo algumas vezes e me surpreendeu o avanço furioso das cores pelo seu corpo, sempre mais extensas e intensas. Ele ficou completamente colorido. Parecia uma deprimente alegoria humana.
Numa das nossas conversas, sugeri que ele voltasse a pintar, embora eu já soubesse que isso não iria acontecer. Luizinho não voltaria a pintar porque se convenceu de que seu sonho era uma excentricidade infantil, um desejo ingênuo e inacessível.
Pior, ele se convenceu de que não tinha talento nem vontade de seguir os caminhos da arte, mesmo que de maneira amadora, como um hobby. Fez mal, talvez tivesse se tornado um grande artista, talvez não. Mas ele deveria ter tentado porque muitas vezes, como escrito na plaquinha do consultório do velho curandeiro, “as tentativas salvam”. A tentativa, não importa o resultado, pode ser uma bóia de salvação. Ele não quis a bóia e se afogou.
Fernando Evangelista é jornalista, diretor da Doc Dois Filmes e colaborador do Portal Desacato. Mantém a coluna Revoltas Cotidianas, publicada todas as terças-feiras.
1 - Ilustração em imagem da Getty Images, Fotógrafo: Peeter Viisimaa / 2 - Fonte: http://ultradownloads.



10 Comentários:
Grande, Fernando. Há no mundo um monte de Luizinhos. Tentemos, pelo menos!
Abs
Grande texto!
Fernando Evangelista se supera a cada terça-feira.
GOSTEI! HUGO BASTOS
UAAAUUU! GRANDE TEXTO, GRANDE HISTÓRIA! MINHA PROFECIA ESTAVA CERTA, DE QUE UM DIA SERÍAMOS COLEGAS! HA HA, BEIJOS!
Muito bom, xará!
Conheço alguns Luizes, assim como conheço alguns curandeiros, que por jogos de palavras só são entendidos por aqueles que não desistem. Todo artista tem sua fase "eu sou ruim, não chegarei a lugar algum com isso", mas nem todo artista morre nessa fase. É bom que você, mestre, não se tornou um Luiz também.
Parabéns, Fernando por mais este texto incrível. Abs amigo
Pessoas, penso que no fundo todos nós trazemos na alma alguma necrose de um ideal não realizado. Por isto o mundo, apesar das belezas nem sempre evidentes, mostra tanta tristeza a ser corrigida. Não abandonemos nossos sonhos!
Arte entupida dá nisso. Adorei!
Fernando, você tem um texto brilhante. Esse é prova disso. É difícil escolher o que gosto mais, porque todos tem um sentido muito particupar pra mim. Continue assim, parabéns. Fredo Sidarta, SP
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