Espelhos expostos para venda em loja de acessórios para carros no Paquistão (Muhammed Muheisen/Associated)

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Pilatos é Pop


– Você tem dois minutinhos? Gostaria de lhe fazer algumas perguntas. É coisa rápida.

Eu estava no centro da cidade, meio-dia de uma segunda-feira, calor infernal, camisa ensopada de suor. Contas intermináveis para pagar no Banco. Filas intermináveis no trânsito. O verão é uma delícia.

– Fica pra próxima, me desculpe – eu disse para a mulher ao meu lado, sem diminuir os passos. Como se fosse um ímã, ela se aproximou e repetiu:

– É coisa rápida.

Parei. A mulher era de um instituto de pesquisa. Vestia-se de maneira simples, mas elegante. À primeira vista me pareceu bonita e exibia um generoso decote.
Ela agradeceu e mandou bala, prancheta e caneta preparadas:

– Para você, qual o personagem mais influente da História?

Desconfiei que fosse alguma pegadinha. Isso lá é pergunta que se faça? Pesquisa de verdade – pensei – avalia o grau de aceitação popular do Prefeito, do Governador, da Presidente. Pesquisa de verdade quer saber se estou de acordo com as taxas de juros, com o preço da carne, essas coisas.

Perguntei quais eram as alternativas. Não havia alternativa.

– Pilatos, respondi. Pilatos é o sujeito mais influente da História.
Ela resmungou alguma coisa e escreveu a resposta na folha. Parecia irritada, talvez confusa. Fazia um calor filho da puta.

– Pilatos, personagem bíblico, poderia ter salvado Jesus, mas lavou as mãos – eu disse.

– Eu sei quem foi Pilatos – ela cortou, ofendida. E o senhor deveria ter mais respeito pelas pessoas que estão trabalhando, como eu estou. Não farei as outras perguntas. Passar bem.

Olhou-me com fúria e se afastou. Deve ter achado que eu estava debochando ou que era algum fanático. Ela não entendeu a seriedade da minha resposta. Citei Pilatos porque ele é o Grande Indiferente.

Gramsci odiava os indiferentes. Eu não os odeio, eu os invejo. O indiferente é aquele que olha a barbárie e diz: “A vida é assim” e segue em frente, sem nenhum peso, sem nenhuma vontade de gritar, sem aquele sentimento destrutivo da impotência. No mundo de hoje, ser indiferente é um dos caminhos para a plena realização do espírito.

O indiferente – e só ele – considera o mundo imutável. Ele acha normal, natural mesmo, a injustiça, a calúnia, a corrupção, a ganância, a violência institucionalizada. Nada disso lhe diz respeito, nada disso lhe causa reação, portanto, o indiferente vive leve. E isso é invejável.

O guru dos indiferentes – quem mais seria? – é Pilatos. Não há, hoje em dia, ninguém com mais adeptos. Se você reparar bem, vai ver que está tudo dominado. Pilatos é pop.

O ano recém-terminado, é verdade, ameaçou essa hegemonia e popularidade. Uma massa de cidadãos, acostumados ao silêncio e à obediência, tomou as ruas do Oriente Médio e fez uma Primavera que ainda não terminou.

Como um vento, o ar de rebeldia chegou à Europa, com o Movimento dos Indignados, veio para a América do Sul, com os estudantes chilenos, e alcançou os Estados Unidos, com o Movimento Occupy. Para o indiferente, porém, tudo isso é fogo de palha e uma enfadonha perda de tempo.

O indiferente evita qualquer tipo de atrito, principalmente os atritos políticos. Ele odeia a política, mas esquece que quase todos os direitos que hoje usufrui foram conquistados com uma intensa luta política. Isso ele não sabe porque não lhe interessa, porque é um preguiçoso intelectual. Mas é um sujeito feliz. Aliás, só os indiferentes são felizes.

O indiferente deixa que a vida faça as escolhas por ele. É o destino quem manda e ele não se atreve a contestá-lo. A submissão é uma das suas mais marcantes características. O indiferente não sabe, nem quer saber, que seu silêncio é uma forma de cumplicidade e de covardia. Mas, e daí?

O indiferente não consegue entender a dimensão da solidariedade porque, no fundo, para evitar qualquer atrito, se obrigado, ele estará do lado do mais forte. O indiferente, por ser indiferente, está sempre do lado dos mais fortes. Por isso vence todas, ou quase todas.

O indiferente vive num mundo só dele, como uma bolha. É um mero observador, sem compromissos e, portanto, sem muitos incômodos. Esta é a sua lógica: “custe o que custar, não ter incômodo nenhum”. Obviamente, mesmo não querendo, ele tem seus problemas e, surpreso e triste, considera-se vítima do destino. Ele adora o papel de vítima.

O indiferente, como diria Eduardo Galeano, “não ilumina nem queima”. O indiferente é um pateta, mas é um pateta realizado e, por isso, eu o invejo profundamente.

O indiferente tem Pilatos como sua imagem e semelhança. Pilatos é o mais influente personagem da história, só a mulher decotada do Instituto de Pesquisa não sabe disso. Pilatos é o cara.

Fernando Evangelista é jornalista, diretor da Doc Dois Filmes e colaborador do Portal Desacato. Mantém a coluna Revoltas Cotidianas, publicada toda terça-feira.

10 Comentários:

Anônimo disse...

Fluido, afiado e foda.

Jerônimo Rubim

Andrey Lehnemann disse...

Não entendi como a mulher do instituto ficou ofendida. Maior resposta essa, Fernando. E o desenvolvimento faz todo sentido. Bom texto.

Abraço

Fernando Evangelista disse...

Jerônimo e Andrey,
Obrigado pela leitura!

Elisa Brezezinski disse...

Excelente texto, parabéns.
Abraço

Laís Franco disse...

Fez-me refletir. De verdade!
Obrigada pela provocação!!

Anônimo disse...

amei e concordo plenamente ,voce verbalizou meus sentimentos !!!e sinto na maioria das vezes uma anormal por nao conseguir ficar indiferente e o resultado tem sido : sofrimento !! Essa do Pilatos arrasou !!!parabens Fernando !!!! lydia pompeu

Moriti disse...

Bravo, Fernando. Ótimo texto pra começar 2012.

Anônimo disse...

Fernando,você mostrou o Pilatos que todos nós em algum momento desejamos ser.Parabéns !Escreves bem,e sua leitura nos leva a flanar nas grandezas
do universo.Estamos num mundo novo ,quando o obvio também é estudado.Meu fraterno abraço,Ivo Nascimento -e-mail: zilpha@uol.com.br dia 12/01/2012-3:40 horas.

Jaci Rocha Gonçalves disse...

Valeu, mano!
O indiferente de ontem e de hj tem mesmo a costumeira costa-quente dos q estão no turno de poder: os romanos e teocratas judaicos ontem e os de agora.

Tem dificuldade visceral de pagar o preço da ética que, mais que moral e direito estabelecido, é aliar-se a rostos concretos cujas vidas estão condenadas a holocaustos crônicos.

Q os pops passem do lavar as mãos do Pilatos à urgente carência do lava-pés do Mestre. Grato e abs. Jacizão.

Anônimo disse...

Querido sobrinho, por que "lavar os pés" do que as mãos? Este último gesto não é tão mais fácil?
Esses espertinhos (pensam que o são) esquecem que um dia - digamos que seja "dia" - ALGUÉM lhes dirá: "...certa vez, abaixei-me, tomei a toalha e com amor, lavei teus pés e enxuguei-os - na verdade,a lavagem foi de tua alma., mas, tei egoísmo não entendeu.

Mais: enxuguei tuas lágrimas, saciei tua sede, matei tua fome, visitei-te na na prisão,na doença, agasalhei-te, enfim, te dei
AMOR!

E tu ? "Estavas numa boa", não é ? Eras INDIFERENTE, não é? Para que se "envolver" com os "EXCLUÍDOS" ?

Bem, estavas "CERTO"... De fato, lá, sim. Aqui, não!
Reune-te com o maior "personagem da História": serão boas companhias...

Caro Fernando, parabéns pelo texto.

Do tio e amigo, ou vice-versa: sinto-me feliz em ambos os casos,

ANTONIO
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