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Kitty Phetla, solista sênior do Ballet Joburg em Soweto, África do Sul (Getty Images)

quinta-feira, 12 de abril de 2012

1964 foi amanhã


Eu tinha oito anos, quando policiais invadiram a minha casa e levaram meu pai preso. Essa foi a primeira vez que ouvi falar do golpe militar. A partir desse dia, e por mais de vinte anos, a ditadura faria parte da minha vida e da minha família.

Passados quarenta e oito anos, eu adoraria não voltar a essa cena. Fazer uma página virada do folhetim de autoritarismo, repressão, censura, mau humor, e muita burrice. Adoraria não escrever mais nada sobre 1964.

Mas o problema é que a conta não fecha. A imagem é horrível, mas verdadeira: o sangue daquela época não estanca. Porque os ossos da maioria dos desaparecidos ainda não apareceram. Porque as circunstâncias de várias mortes não foram elucidadas. Porque torturadores devidamente reconhecidos seguem de boa.

A simples menção à abertura de arquivos, comissão da verdade, responsabilização faz tremer parte da sociedade. Freud, se vivo, adoraria estudar os brasileiros. A gente, muitas vezes, detesta revisitar nossa vergonha e brutalidade.

Passar a borracha na história ruim é o nosso esporte preferido. Ganha até do futebol. Então para que falar dos séculos de escravidão, mesmo que eles tenham deixado como herança metade da população empobrecida e humilhada?

Para que falar da ditadura militar, mesmo que ela tenha deixado como herança temas-tabus, corpos insepultos, torturadores impunes, histórias mal contadas? Para que voltar e voltar ao passado?

O fato é que a ditadura acabou, mas seus reflexos ainda não. Talvez só termine quando morrer a última pessoa que lembre dessa época. A garotada de trinta anos pode achar que 1964 é coisa de livro de história. Mas seus pais sabem que não. No mínimo, eles foram expostos a uma cultura autoritária, a informações controladas, ao medo de sirenes e fardas.

É claro que o Brasil mudou. Inegável que as transformações foram rápidas e indiscutíveis. Afirmaram-se vários movimentos e atores políticos. Vejam os movimentos de mulheres, dos negros, dos sem-terra. Vejam os LGBTs, as pessoas com deficiência, os blogueiros e blogueiras.

Temos a Secretaria de Promoção da Igualdade Racial, a Secretaria de Mulheres, o Estatuto da Criança e do Adolescente. Temos uma presidenta da República e uma presidenta na Petrobrás. Um outro Brasil? Ainda não. Falta encarar o espelho. Falta pegar o caderninho ou o tablet, e passar a limpo as dívidas históricas. Uma tarefa que eu e você somos capazes de fazer.

fernanda pompeu, escritora e redatora freelancer, colunista do Nota de Rodapé, escreve às quintas a coluna Observatório da Esquina. Ilustração de Carvall, especial para o texto

* A coluna Observatório da Esquina vai tirar férias. Merecidas ou não. Ela voltará daqui um mês.

11 comentários:

Anônimo disse...

MARAVILHOSO NANDA !!! E VERDADE !!!QUANTO SOFRIMENTO,DESAPARECIMENTO ,MEDO E ANSIEDADE QUE FICARAM EM TANTOS CORACOES !!A QUEIMA DOS LIVROS NO QUINTAL DA VOVO ,TAO AINDA VIVOS NA MINHA MENTE ,O MEDO DA POLICIA VIR NA NOSSA CASA E LEVAR MAIS UM DE NOS, O MEDO DE ACHAREM O CAMPOS ,O NERVOSISMO DOS ADULTOS E HOJE A SOCIEDADE NAO QUER FAZER JUSTICA POIS TEMOS TAMBEM MEDO DE COLOCAR O DEDO NA FERIDA !!!BJS QUERIDA

julio disse...

Boas férias, daqui um mês é uma promessa ou uma ameça ... ?? Em 1964 eu tinha 6 anos e hoje aos 54 eu faço assim : 1962, 1963, 1965, 1966 .....
Boas férias motorista .

Bia Cannabrava disse...

Fernanda

Como sempre suas c^rônicas me emocionam. Pra nossa família que 1964 custou 12 anos de exílio, 1964 também foi amanhã.
Boas férias e até a volta

Ana Mendes disse...

Obrigada pelo texto.
Limpo, claro, direto e emocionante.

Anônimo disse...

Fernandaaaaa! Quando voltar de férias, me liga ou escreve! Vamos nos ver! Beijos, boas férias, Duca

Victor Nosek disse...

Muito bom! Saudades, Fernanda!!! bjo grande

Carmen Lucia Luiz disse...

Lindo e lúcido, teu texto. Esperamos que a Comissão da Verdade consiga mostrar mesmo a verdade, sem maquiagens nem eufemismos...

Amora disse...

oi, Fernanda

Eu sou uma das goratas de trinta e poucos, nasci em 75, e era crianças nos últimos 10 anos desse período sinistro da nossa história. Mas, não sei o porque, sinto nause e calafrios toda vez que ouço, vejo ou leio algo relacionado a esse regime político.
Felizmente você consegue escrever qualquer coisa com sensibilidade e clareza. Muito obrigada por isso.

Boas férias e volte logo

bj

Anônimo disse...

Fê,
Desejo ótimas férias, mas, ainda que sejam só 30 dias, vou ficar com saudade de seu olhar peculiar e do seu texto limpo.
Beijos,
Heloisa Cupini

Anônimo disse...

Ééééééh Fernanda. Você escolheu uma data difícil para fazer seus comentários. Pode tirar férias à vontade - aliás boas férias - que não dá prá tirar férias da memória deste período. Vivemos esse troço marcante. Vivendo em Brasilia nos anos 80 todos os dias eu era ultrapassado pelo presidente que pediu para ser esquecido (então não cito o nome para não lembrar) às vezes montando a cavalo, motocicleta ou carro. Hoje vejo nas empresas privadas Códigos de Conduta (entre aspas) que orientam funcionários a não emitir opiniões, não discutir, não comentar - no fundo, querendo proibir a fofoca, a querida radio peão, a disseminação de opiniões adversas à direção; e lembro que lá atrás nós também éramos cuidadosos no falar, com quem falar e o que falar. A repressão não foi embora; somente se trasvestiu. Democracia é mesmo muito difícil.

clevane pessoa disse...

fernanda:

Por acaso vc ainda tem exemplares de seu livro, o meu, emprestei e o amigo do alheio não devolveu...Rsss.
Mande valor e tal para meu e-mail hana.haruko2@gmail.com.
Vou divulgar este seu texto acima, ok?Pode ser?
Clevane Pessoa

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