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Fogo no Yosemite National Park, Califórnia, EUA. (European Pressphoto)

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Mirella carrega o legado da ditadura

Em tempos de Comissão da Verdade, um caso recente, que estourou nas redes sociais – dessas coisas que acontecem com frequência razoável –, nos faz pensar por que é importante desencavar os ossos das vítimas da ditadura brasileira. A violência que impera hoje, principalmente, nas periferias, as ultracomuns violações de direitos humanos no sistema carcerário, não terá fim, nem sequer vai diminuir, sem desvelarmos esse passado de nossa história que alguns setores da sociedade insistem em que fique trancafiado.

O caso a que me refiro é o da repórter baiana Mirella Cunha. Repórter da pior estirpe, reproduziu o jornalismo mais canalha e violento em uma matéria para um programa local da Bahia, da Rede Bandeirantes, a versão local do “Brasil Urgente”. Está pagando o pato, atualmente, sozinha, pelo seu péssimo trabalho, ainda que ela tenha apenas parcela da responsabilidade por sua bárbara tortura psicológica contra um detido.

 Mirella da Bandeirantes e entrevistado humilhado
Mirella Cunha entrevistava um suspeito de assalto e estupro. O jovem de 18 anos, preso no dia 31 de março (que bela comemoração do aniversário do golpe de 1964), estava algemado, com marcas de violência absolutamente visíveis no rosto. Ele cresceu nas ruas, nunca se alfabetizou, vendeu balas em ônibus. Na tela, a chamada da matéria já condenava o jovem: “Chororô na delegacia: acusado de estupro alega inocência”. Ou seja, ele alegar inocência é “chororô”.

Mirella já foi mais direta, chamando-o de “estuprador”. O jovem confessa que assaltou uma mulher, que roubou um celular e uma corrente dela, mas mostra desespero ao dizer que não a estuprou, e que não tinha essa intenção.

A repórter pergunta da marca que ele tem no rosto, e o jovem conta que foi espancado. A informação passa batido. Um jovem de 18 anos que é espancado enquanto está sob custódia do Estado não levantou NENHUMA curiosidade na repórter, NENHUM questionamento.

O vídeo é conhecido, sua versão mais curta, com cerca de um minuto, já teve mais de um milhão de visualizações no YouTube. A versão maior mostra os comentários do apresentador do programa, Uziel Bueno, brincando insistentemente com o fato de o garoto topar fazer um exame de próstata. Em determinado momento, Uziel enrola uma folha de papel ao redor de dois dedos da mão, transformando-o num símbolo fálico, e diz que é urologista nas horas vagas e vai ajudar a fazer o exame.

Os abusos continuam, com a repórter humilhando e rindo do jovem, que não sabia o nome ou o tipo de exame a que teria que se submeter para comprovar sua inocência. Mirella e Uziel Bueno aumentam o tom das piadinhas quando ele se dispõe a fazer o exame de próstata, com provocações absurdamente homofóbicas. Lembrando da dificuldade que é convencer a maioria da população masculina de fazer tal exame. E lembrando da quantidade de homens que morrem todos os anos por câncer de próstata, um tipo comum, mas tratável, de câncer.
O apresentador Uziel do Brasil Urgente da Bandeirantes

Esse tipo de jornalismo policial que é, na verdade, policialesco, mostra como a cobertura jornalística, em especial de televisão e rádio, do que se convencionou chamar (principalmente pelo setor mais “intelectual e enlevado” dos jornalistas) de “programas sensacionalistas” reproduz uma lógica afinada com o que há de mais despudoradamente violento nas forças policiais. E isso é uma herança direta de um passado que se tenta deixar “quieto”.

Segundo a pesquisadora Kathryn Sikking, que conduziu estudos sobre respeito aos direitos humanos e como isso é diferente onde há diferenças ao se lidar com a históricos ditatoriais em mais de 100 países, “a quantificação de índices de respeito aos direitos humanos (elaborado pela Anistia Internacional) permite a afirmação de que os países que revisitaram seu passado e julgaram os perpetradores de tortura têm, hoje, um grau maior de respeito aos direitos humanos” (Correio da Cidadania, 5 de agosto de 2009). Os que não revisitaram têm “Brasil Urgente”, têm Mirella, têm Uziel.

Ou seja, ela afirma que há uma ligação direta nos países que souberam lidar melhor com seus esqueletos nos armários (ou nas valas) e buscaram a verdade e o respeito aos direitos humanos. Já nos países onde se varreu para baixo um passado de violência por parte do Estado, há uma herança perene, que permanece até hoje, e que faz com que haja muito menos percepção e, consequentemente, respeito aos direitos humanos. Esse é, claramente, o caso do Brasil, onde a forma de a polícia lidar com a população resguarda fortíssimas semelhanças com a da época da ditadura. Essa falta de “revisitar o passado” faz com quem não haja crítica, em um perpétuo “não se ver” o que acontece. A Polícia Militar, hoje, não se sente compelida em nenhuma medida a respeitar qualquer tipo de direito.

Segundo o site da revista Época, após a divulgação do vídeo, a Defensoria Pública da Bahia publicou o seguinte sobre o entrevistado por Mirella: “É réu primário, vive nas ruas desde criança, apesar de ter residência em Cajazeiras 11. Tem seis irmãos, é analfabeto e já vendeu doces e balas dentro de ônibus. Ao ser questionado sobre como se sentiu durante a entrevista, ele diz: ‘Eu me senti humilhado, porque ela ficou rindo de mim o tempo todo. Eu chorei porque sabia que eu iria pagar por algo que não fiz, e que minha mãe, meus parentes e amigos iriam me ver na TV como estuprador, e eu sou inocente’” (Da coluna de 28 de maio de Eliane Brum, no site da revista Época).

Como bem disse Eliane Brum nessa mesma coluna, o caso que estourou está longe de ser exceção. Ele foi apenas mais um desses fenômenos de internet que estoura de uma hora para outra. Mas esse tipo de comportamento pode ser visto todos os dias. Na televisão e, principalmente, no rádio – esse meio de comunicação que é “primo pobre” mas que tem enorme penetração.

Não é incomum, nas redações de jornais, a editoria de Polícia ficar parada quando os policiais fazem greve. Porque essa editoria só funciona para reproduzir o que a assessoria de imprensa da polícia envia. É a única versão aceitável, e quando não há essa versão, não há nada a ser escrito. Vi isso com meus próprios olhos.

A Band afirmou que Mirella será demitida. Como se a reportagem e sua veiculação tivessem sido fruto da cabeça tresloucada da repórter, e não de uma cadeia de produção jornalística que tenta ser “do agrado do povão”, da fictícia “nova classe média”, que é um setor mais despolitizado e conservador que a média da população. Que é a favor da pena de morte e, contraditoriamente, contra o aborto por “defender a vida”. Que acha que suspeito que está algemado na delegacia “não é nenhum inocente” e, por isso, precisa ser humilhado, apanhar, “sofrer as consequências de seus crimes”; que não tinha “ninguém bonzinho” entre os mais de 111 presos do Carandiru.

Os arquivos que são mantidos fechados no Brasil não são referentes apenas à ditadura. Há documentos com mais de 130 anos, que vêm desde a Guerra do Paraguai, segundo a historiadora Ângela Mendes de Almeida. Ângela conta, em entrevista ao Correio de Cidadania em 2009, que “pouca gente percebe que aquele passado oculto pelo exército tem tudo a ver com a violência hoje, e ninguém quer enxergar a violência por parte do Estado. Ainda por cima temos uma opinião pública obscurantista que defende o extermínio dos pobres, ou faz alguns espetáculos de civilização que são inócuos.” Ora, estaria ela falando de Mirella três anos antes?

Rodrigo Mendes de Almeida, jornalista e editor de livros, especial para o Nota de Rodapé

2 comentários:

zonacurva disse...

Acho certo exagero a conexão entre a repórter boçal da Bahia e a ditadura, mas que a Comisssão da Verdade pode nos levar a fazer as pazes com o nosso passado e evitar absurdos no presente, isso pode, sobre Comissão da Verdade e quejandos em http://wp.me/p1YOKS-43

Anônimo disse...

Não é exagero, há uma relação estatística entre violência policial no presente e impunidade para crimes de períodos ditatoriais. Onde se apura e pune se depura as forças de segurança.

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