Mulher nos arredores de Herat no Afeganistão (AFP / Getty Images)

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Emoções Olímpicas

Os campeões olímpicos Usain Bolt, Michael Phelps e Katie Ledecky.

Minha depressão começou na sexta-feira passada, exatamente às 15h58min, quando a norte-americana Katie Ledecky tocou sua mão direita na borda da piscina do Parque Aquático e sagrou-se campeã olímpica de natação. Por enquanto, ela é a mais jovem medalhista dos jogos de Londres. Katie tem 15 anos de idade.

Como escreveu Rubem Braga, “ultimamente têm passado muitos anos”. E eles, os anos, parecem mais velozes e fugidios do que a adolescente americana, nascida em 17 de março de 1997. Valha-me Deus, 1997 foi logo ali, quase um piscar de olhos, quase anteontem. Mas não foi. Faz tempo, faz um tempão.

Em março de 1997, o Brasil mal conhecia o tenista Guga Kuerten – passou a conhecê-lo depois da vitória espetacular em Roland Garros, em junho daquele ano. Logo em seguida, outro ser cabeludo surpreenderia o mundo, sendo anunciado – com pompa e capim – como o primeiro mamífero clonado da história. Faz um tempão isso, Guga está aposentado e a ovelha Dolly já passou desta para a melhor.

Foi o ano do Guga, da Dolly e do escândalo da compra de votos no Congresso, para aprovação da emenda da reeleição de FHC, que na época não gostava de maconha. Lula e o PT eram baluartes da ética e denunciaram a falcatrua. “Pagar deputados para aprovar leis é um desrespeito com a democracia”, bradou uma estrela petista, hoje encrencada com o mensalão. Faz muito tempo...

Quando a campeã olímpica nasceu, ninguém conhecia a inglesa J. K. Rowling, porque a saga Harry Potter ainda não havia sido lançada. A Princesa Diana não tinha morrido e a seleção francesa de futebol havia derrotado o Brasil apenas uma vez – na Copa de 1986. Muita bola rolou sobre os gramados desde então.

Aliás, em 1997, Neymar tinha 5 anos de idade e o maior medalhista olímpico da história, o anfíbio Michael Phelps, 12 anos. Naquele tempo, Titanic era uma famosa tragédia marítima e não um estrondoso sucesso cinematográfico.

Em 1997, a internet engatinhava e o bate-papo virtual mais conhecido era um troço chamado Mirc – que a gurizada só usava depois da meia-noite por causa da conta telefônica. Não existia tela-plana, televisão HD, iPads, iPods, Android ou Michel Teló.

Faz tempo, não? Tempo suficiente para eu ter feito alguma coisa olímpica na minha vida. Nunca ganhei uma medalha, nem subi num pódio. Esta constatação me deixou profundamente triste e logo a tristeza se transformou em depressão. Restou-me a Wikipédia, a amiga íntima dos depressivos curiosos.

Pesquisei e descobri que a atleta mais jovem a ganhar medalha de ouro foi a americana Marjorie Gestring nos jogos olímpicos de Berlim em 1936. Praticante de saltos ornamentais, Marjorie tinha 12 anos e 141 dias.

Para driblar a tristeza e preservar um fio de esperança, fui atrás da identidade do esportista mais velho a conquistar uma medalha olímpica. Este, sim, deveria ser a minha referência, o meu exemplo. Nem tudo estava perdido, afinal. Se ainda não fiz algo de realmente grande, isso não significa que não possa fazer.

Quase chorei de alegria ao descobrir que o mais velho atleta olímpico a ganhar uma medalha tinha 72 anos. Isso mesmo, 72. O sueco Oscar Swahn – este é o nome do vovô – conquistou uma medalha de bronze nos jogos olímpicos de Antuérpia em 1920. Tudo perfeito, não fosse um detalhe: ele ganhou medalha e fama mundial praticando “Tiro Duplo ao Veado”. Como sou vegetariano e a favor da diversidade, este sueco foi uma baita decepção.

A verdade é que nunca conquistei medalhas olímpicas e, pelo que tudo indica, jamais conquistarei, mas também nunca matei veados, de nenhuma espécie ou nacionalidade. Isto é o suficiente para me sentir orgulhoso de mim mesmo, em paz com o mundo e com a vida.

Cenas gerais de Londres 2012.
Depressão? Quem falou em depressão? Faz tempo que saí dessa. Para ser sincero, depois da pesquisa, até fiquei feliz com a medalha de ouro conquistada pela adolescente Katie Ledecky, que poderia estar por aí matando bichos, mas parece mais interessada em superar limites e conquistar medalhas, numa luta constante contra o tempo.

E esta parece ser a grande ironia: quanto mais os homens e as mulheres quebram recordes, superam cronômetros e limitações, o tempo se defende correndo mais e mais, para que ninguém o alcance, para que ninguém o supere, nem mesmo o jamaicano Usain Bolt. Nas olimpíadas da vida, é preciso reconhecer, o tempo nos vence sempre. Ele é imbatível. É o eterno campeão.

Fernando Evangelista é jornalista, diretor da Doc Dois Filmes. Mantém a coluna Revoltas Cotidianas, publicada toda terça-feira.

5 comentários:

Anônimo disse...

O tempo, Fernando, é imbatível, é verdade, mas o que importa é como usamos esse tempo, o que fizemos para que o nosso tempo sirva para tornar o futuro melhor, para aqueles que nos precederem. Parabéns por mais essa reflexão que nos proporcionas.

Andrey Lehnemann disse...

Aí sim, Fernando. Genial. Sentia falta dessas crônicas tão sutis e cativantes na semana. Jabor ultimamente é só decepção quando resolve falar sobre cinema e política, mas você ainda consegue me deixar muitas vezes de pé ao ler esses textos. Esse, sem dúvidas, foi o seu melhor das últimas semanas. Adorei seu paralelo com os acontecimentos do ano do nascimento da medalhista e, principalmente, sua reflexão sobre o tempo. Gostamos de viver o passado e o futuro, mas nunca o presente, não é mesmo? Acho que isso aponta o quanto somos nostálgicos e desiludidos, mas sempre com algo em nós, uma ponta de esperança, que faz nós continuarmos buscando viver da melhor forma.

Abraço do seu amigo,

Andrey

Anônimo disse...

O tempo finge ser seu amigo até que te acerta um tiro pelas costas e dá risada da sua morte.

Um abraço..

Carmelo Cañas

Anônimo disse...

Parabens Fernando !
O tempo EH, não finge ser.
Vamos aproveitar e flanar em suas cronicas,
Fraterno abraco ,do seu amigo de sempre,
Ivo Nascimento_Escola de Pais do Brasil e pai do Carlos David ,o melhor medico do mundo ,conforme sua avaliacão passandos aprox.
soh 30 anos,rssrsrsrsrsrs(sorriso)

Mariana Pederneiras disse...

Fe querido, que maravilha de texto! minha mae entrou no quarto para perguntar o que eu lia porque estava ouvindo "risadinhas gostosas"...

amei!

beijinhos,

mari pederneiras

Postar um comentário

Ofensas e não identificação (anônimos) com nome, ao menos, serão excluídos. O espaço é para o debate de ideias. Obrigado.

Web Analytics